25 de Março, 2019 | Por admin

4 Padrões Para Avaliar A Arte A Partir De Francis Schaeffer

Frequentemente somos culpados de julgar a arte com uma visão preto no branco. Podemos dizer “Gostei. É muito bom”. Ou negativamente, “não gostei, é ruim”.

Nos seus inteligentes ensaios sobre arte (publicados como A arte e a Bíblia pela IVP Classics [e no Brasil, pela Ultimato e disponível na Pilgrim]), Francis Schaeffer nos fornece ricos critérios para avaliar a arte.

A perspectiva de Schaeffer sobre a Arte

Antes de olharmos os critérios avaliativos de Schaeffer, é importante entender a perspectiva de Schaeffer sobre a arte. A minha esperança é que as citações abaixo vão instilar em você (como elas fizeram comigo), (1) uma visão mais ampla da supremacia de Cristo e (2) um senso mais profundo do que torna a criatividade valiosa.

1. A verdade do Cristianismo é universal e abrangente, e não compartimentalizada. A verdade sagrada não é desassociada da verdade secular e então exilada na “narrativa do andar de cima”.

“O cristianismo não é apenas ‘dogmática’ ou ‘doutrinariamente’ verdadeiro; ele é verdadeiro também em relação ao que está diante de nós, verdadeiro em relação a todas as coisas em todas as áreas da existência humana” (p. 18) 

2. Cristo é o Senhor de tudo. A sua redenção é para o homem todo. Isso, é claro, inclui a capacidade de criar e gozar da  arte.

“Sua alma é salva, bem como sua mente e seu corpo” (Ibid., p. 17)

“Cristo é o Senhor de nossa vida como um todo e a vida cristã deve produzir não apenas verdade — uma verdade arrebatadora —, mas também beleza” (p. 40)

3. A criatividade na Bíblia nem sempre é uma representação “fotográfica”, nem é meramente utilitária.

“Na natureza, as romãs são vermelhas; porém, estas romãs deveriam azul, púrpura e carmesim. Púrpura e carmesim podem ser variações de tonalidade no amadurecimento de uma romã, mas azul, não. O princípio é que há liberdade para se fazer algo a partir da natureza, que seja distinto dela e que possa ser levado à presença de Deus. Em outras palavras, a arte não precisa ser “fotográfica”, no sentido mais simples da palavra fotografia!” (Ibid., p. 23) 

“O templo era coberto de pedras preciosas para ornamento. Não havia razão pragmática — elas não possuíam valor utilitário algum” (Ibid., p. 24)

4. A obra criativa tem valor porque, por meio dela, espelhamos a Deus, o Criador.

“Tendo sido feitos à imagem do Criador, somos chamados à criatividade. De fato, sermos criativos ou termos criatividade faz parte da imagem de Deus em nós.” (Ibid., p. 45)

5. A arte é um meio de comunicação

“… a arte é somente a materialização de uma mensagem, um veículo para a propagação de uma mensagem particular sobre o mundo, o artista, o ser humano ou qualquer outra coisa” (Ibid., p. 48)

Em resumo, todas as coisas estão sob o senhorio de Cristo; isto inclui a arte inerentemente e a Bíblia a inclui explicitamente. E, embora não sejamos imunes à abrangência do nosso pecado, a obra criativa é, ela própria, derivada de Deus. Quando criamos refletimos a imagem de Deus.

Os quatro padrões de avaliação

Schaeffer nos fornece quatro padrões de avaliação para usar quando avaliamos a arte. Eles nos ajudam a tanto gozar da obra de arte mais plenamente e discutimos ela para além de um simples “bom” e “ruim”.

1.    Excelência técnica

“Discutiremos a excelência técnica em relação à pintura, pois com ela é mais fácil demonstrar o que queremos dizer. Consideramos aqui o uso da cor, da forma, do tom, a textura da tinta, o manuseio das linhas, a unidade da tela e assim por diante. Em cada um desses aspectos pode haver vários graus de excelência técnica. Ao reconhecer a excelência técnica como um aspecto de uma obra de arte, podemos ser capazes de dizer que, ainda que não concordemos com a cosmovisão de um determinado artista, não obstante, ele é um grande artista” (p. 53)

Algo pode ser excelente tecnicamente mesmo que deixe a desejar em outras áreas. Essa categoria dá a nós, os apreciadores, uma oportunidade de afirmar algo sobre a dignidade deste artista (e seu trabalho) como portador da imagem de Deus.

2. Validade

“Aqui questionamos se um artista é honesto consigo mesmo e com sua cosmovisão ou se faz sua arte apenas por dinheiro ou para ser aceito” (Ibid., p. 54) 

Isso não e o mesmo de dizer que um artista não deve ser pago ou reconhecido. Pelo contrário, se um artista é primariamente motivado por sucesso financeiro ou fama ao invés de a mensagem que ele está comunicando, ela será superficial ou, na melhor das hipóteses, diluídas. Em suma, a obra perdeu a sua integridade.

3. Conteúdo intelectual (cosmovisão) 

“O terceiro critério para o julgamento de uma obra de arte é seu conteúdo, que reflete a cosmovisão do artista. No caso dos cristãos, a cosmovisão comunicada por meio da arte precisa ser vista sob a ótica da Escrituras. A cosmovisão do artista não pode ser isenta do julgamento da Palavra de Deus” (Ibid., p. 55)

Este terceiro critério, creio eu, é mais importante do que todos os outros. O que o artista está dizendo sobre o mundo? É verdade? Embora não rejeitemos todas as outras categorias, se discordarmos da mensagem da obra, discordamos do próprio fim central para que ela foi criada.

E o artista não cristão? Este critério não quer dizer que todo artista precisa ser cristão a fim de ser avaliado com louvor nesse ponto (ibid., p. 57). Assim como cristãos devem afirmar verdades objetivas na natureza ao lado de cientistas não cristãos, devemos afirmar uma mensagem da arte que é verdadeira (p. ex., beleza na natureza ou na experiência da depravação humana). isso pode ser feito mesmo se o próprio artista não atribui a sua mensagem à realidade objetiva de Deus no mundo.

4. Integração entre o conteúdo e o veículo

“Nas obras de arte verdadeiramente grandiosas, há uma correlação entre o estilo e o conteúdo. A arte superior encaixa o veículo usado à cosmovisão que está sendo representada (Ibid., p. 58-59)

Embora várias formas artísticas sejam adequadas para várias mensagens, nem todas comunicam da mesma forma. Deve-se prestar atenção se não se está tentando lançar um romance por meio de tweets. Ao mesmo tempo, pode-se sair de uma apreciação da obra de Rembrandt, O Retorno do Filho Pródigo, com uma rica soteriologia.

Conclusão

O senhorio de Cristo é completamente supremo sobre tudo que é visível e invisível, o todo da vida. Isso inclui a criatividade, que é demonstrada por Deus e pelo homem, que foi feito à imagem de Deus. A Bíblia está cheia de exemplos de expressão criativa e artística. O homem espelha a Deus quando cria. Isso é bom. E enquanto esse refletir a Deus pelo homem é distorcido pelo pecado, a redenção em Cristo é para o homem todo.

Toda obra de arte comunica conteúdo, mas nem toda obra de arte é igual a outra. Buscamos o conhecimento e o entendimento do conteúdo sendo transmitido para que ele possa ser aceito ou rejeitado. Dito isso, quando avaliamos a arte, deveríamos evitar uma avaliação simplista. Devemos procurar critérios adicionais, como a excelência técnica, a validade, e a integração entre conteúdo e veículo. O artista tem dignidade. Cada artista deve ser afirmado inteligentemente por suas habilidades dadas por Deus à medida que elas são exibidas.

Original aqui.

Traduzido por Guilherme Cordeiro.

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