5 de Maio, 2020 | Por admin

O que não te mata: o evangelho da fraqueza, vulnerabilidade e esperança (Tish Warren)

Foto por Jordan Madrid

Bem, pode aguentar que eu vou reclamar, vou chorar minhas pitangas, mas tenho algo a dizer.

Três semanas atrás (em junho de 2015), recebi uma mensagem de voz da minha mãe me dizendo que meu pai tinha sofrido um ataque cardíaco num cruzeiro no meio do golfo do México. Depois de um dia assustador na enfermaria do navio, meu pai (com minha mãe ao seu lado) desembarcou por motivos médicos em Cartagena, Colômbia. Em dois dias, de algum jeito eu fiz um malabarismo burocrático para conseguir uma renovação relâmpago do meu passaporte e voar para a Colômbia com minha irmã. Para nossa alegria, meu pai começou a melhorar. Voltamos para casa. Uma semana depois, com meu pai já a salvo nos Estados Unidos, fiz uma viagem de 30 horas com duas crianças pequenas para comemorar a formatura do meu esposo. Na volta para casa, meus filhos ficaram doentes. Passei noites limpando vômito, lavando lençóis e consolando uma criança tristonha de 4 anos.

Agora estou acabada. Exausta. Completamente.

O tempo que passamos na America do Sul foi um furacão de alegria misturada com sofrimento — dias divididos entre desvendar a incrível beleza colombiana (e seus bichos-preguiça!) e esperar no hospital, tentando traduzir as perguntas médicas. O tempo que passamos na viagem foi de ver grandes amigos e celebrar as realizações do meu esposo, mas também de intrigas familiares, longos dias de viagem e noites compridas de enfermidade.

Em meio a tudo isso, o velho ditado passava na minha cabeça: o que não te mata te torna mais forte. Ele ecoava, enchendo minha cabeça enquanto eu segurava a mão de meu pai no hospital e acariciava as costas da minha filha enquanto ela se dobrava sobre o balde ao lado da cama.

A razão pela qual eu pensei tanto sobre esse clichê é que ele não me convencia nem um pouco. Eu não sinto que esses dias difíceis, esses estresses e sofrimentos e desafios, estão me tornado mais forte. Ao fim dessas três semanas, me sinto profundamente fraca e vulnerável.

Eu citei essa frase famosa para o meu marido e ele me lembrou que foi Nietzsche, que via a força como o fim supremo, quem primeiro a disse. Originalmente a frase, como está escrita em seu Crepúsculo dos ídolos, diz o seguinte: “Da escola de guerra da vida: o que não me mata me torna mais forte.”

Ao envelhecer nesta vida, enfrento, dia a dia, coisas grandes e pequenas que são difíceis e que ainda não me mataram. E estou descobrindo que o que não me mata me torna mais fraca, e talvez não tenha problema nisso— talvez este seja o caminho da redenção. Na escola de amor da vida, o que não nos mata nos torna mais necessitados e, portanto, mais aptos a dar e receber amor.

As pessoas que mais admiro são aquelas que sofreram e, no processo, se tornaram lindamente fracas — como pregos, sem se endurecer nem ficarem amargurados, mas homens e mulheres que aceitaram as vulnerabilidades com alegria e aceitação e confiança. Uma heroína minha é minha amiga Marcia; ela é uma daquelas viúvas com grandes histórias. Ela aprendeu muito da vida e tem algumas histórias de sofrimento, mas seu apetite pela bondade e beleza é contagiante. De alguma forma, seu sofrimento a permitiu viver de forma vulnerável e empática num mundo tenebroso. Para mim, ela é quase resplandecente, como um balão chinês, feito com um papel fino o suficiente para a luz brilhar de dentro dele.

No ensaio de Walker Percy, Stoicism in the South [Estoicismo no sul], ele argumenta de forma convincente que o cristianismo do sul dos Estados Unidos, em que eu cresci, é influenciado mais por uma filosofia estóica do que por uma noção radical de um Deus que se esvaziou e se tornou fraco. Esse tipo de pensamento estoico pode se esgueirar na nossa fé e nos fazer acreditar que nós temos o suficiente de autocontrole, coragem e poder, e que nós podemos de alguma forma evitar o aguilhão do sofrimento.

Eu creio, proclamo e tenho ensinado 2Coríntios 12, a surpreendente mensagem que Paulo recebe de Deus: “A minha graça te é suficiente, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza.” E tudo que eu quero é ser como S. Paulo: me gloriar alegremente na minha fraqueza. Mas, na vida diária, meu padrão é o estoicismo — eu avanço, evitando sentimentos profundos, abaixo a cabeça e apenas continuo. Quando dou de cara com meus próprios limites, ou quando me deparo com a dor ou o medo, quer seja na escuridão mais densa ou nas lutas diárias e ordinárias deste mundo quebrado, geralmente reajo com autoproteção, com raiva, ou arranjando um monte de coisas para fazer ou me distrair.

Quero aprender as habilidades e hábitos de abraçar a fraqueza. Quero aprender a encarar a perda, a senti-la e trazê-la a Cristo em oração, silêncio e gemidos. Quero aprender a admitir perante Deus, os outros e mim mesma minhas necessidades e limitações, sem me esconder ou dar desculpas.

Mas nessa mistura estranha de cristianismo e estoicismo em que estamos submersos, me pego tentando evitar a vulnerabilidade — tentando ser perfeitamente forte e segura — enquanto ao mesmo tempo sigo ao Cristo da cruz. Muitos anos atrás, numa quarta-feira de cinzas, me ajoelhei na igreja para receber as cinzas ao lado de uma garotinha que talvez tinha 9 ou 10 anos. Nosso pastor marcava nossas testas com cinzas, fazendo o formato de uma cruz, uma lembrança de nossa esmagadora fraqueza, um sinal de que toda nossa vaidade e realizações acabarão numa sepultura. Então ouvi minha vizinha virar para sua mãe e sussurrar “A minha cruz está bonita?”

Eu ri. Era uma pergunta absurda. Ela tinha um borrão preto na testa. Claro que não estava bonito. Mas eu também ri porque vi meu coração naquela pergunta. Quero caminhar esse caminho da cruz e ainda assim parecer que estou bem: eu sou forte, competente, tenho tudo na minha vida indo mais ou menos bem. Quero evitar a vergonha da minha fraqueza, do fato de que estou quebrada, com meus pecados mais vergonhosos e difíceis de administrar ainda presente. Quero andar com Jesus, mas também quero parecer bonita.

Mas a mensagem do evangelho é humilhante para aqueles que querem ser fortes. Cristo veio para os enfermos, os fracos, os vergonhosos. O caminho da cruz é um caminho de fraqueza, necessidade e profunda vulnerabilidade. No ensaio de Marva Dawn The Tarbernacling of God and a Theology of Weakness [O tabernacular de Deus e uma teologia da fraqueza], Dawn nos lembra que:

Ainda que Cristo tenha efetuado expiação por nós por seu sofrimento e morte, o Senhor efetua o testemunho para o mundo através da nossa fraqueza. De fato, Deus usa mais da nossa fraqueza do que da nossa força. Assim como as potestades extrapolaram seus limites e viraram deuses, o nosso poder pode se tornar rival de Deus. Como os Salmos e Isaías nos ensinam, Deus não nos tira das nossas tribulações, mas nos consola em meio a elas e “troca” nossa força perante elas. Por nossa união com Cristo no poder do Espírito, na nossa fraqueza demonstramos a glória de Deus.

Cristãos também acreditam que esse caminho da cruz, de forma misteriosa, mas real, também é um caminho de alegria. Essas semanas difíceis me tornaram mais fraca, mas, pela obra do Espírito, elas, assim espero, podem me tornar mais viva, mais capaz de demonstrar a glória de Deus enquanto minha força se esvai. Claro, os borrões nas nossas testas, esse pecado e morte, esse evangelho humilhante, não são muito bonitos. Mas somos amados pelo nosso Criador e, portanto, levados da cruz para a ressurreição.

Não há esperança real no estoicismo, em só aguentar e respirar fundo até um dia morrer. Em Cristo, a esperança nasce da fraqueza e da necessidade. À medida que Deus me guia pelo sofrimento e pela alegria, sejam grandes ou pequenos — essas coisas que não me matam —, minha oração é que seja uma escola de amor, um caminho para aprender a verdadeira vulnerabilidade, aprender a imitar a Deus como filhos amados que receberam amor e que podem ser vulneráveis o suficiente para dá-lo também.  

Por: Tish Harrison Warren. © ArtHouseAmericaBlog. Website: https://www.arthouseamerica.com/blog/that-which-does-not-kill-you-the-gospel-of-weakness-vulnerab.html. Traduzido com permissão. Fonte: That Which Does Not Kill You: The Gospel of Weakness, Vulnerability, and Hope

Original: O que não te mata: o evangelho da fraqueza, vulnerabilidade e esperança © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Arthur Guanaes. Revisão: Guilherme Cordeiro Pires.O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direito, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.