17 de Junho, 2020 | Por admin

O sinal dos tempos (Hans Boersma)

O Vaticano II foi o concílio dos “sinais dos tempos”. Os documentos conciliares usam a expressão quatro vezes. O decreto Unitatis redintegratio aplaude os esforços ecumênicos e exorta os fiéis católicos “a que, reconhecendo os sinais dos tempos, cooperem diligentemente na empreitada ecumênica.” A introdução à constituição pastoral Gaudium et spes explica que a Igreja tem a responsabilidade de “investigar a todo o momento os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho.” A declaração Dignitatis humanae descreve o crescente reconhecimento global da liberdade religiosa enquanto direito civil como um “alegre sinal dos nossos tempos”. E o decreto Presbyterorum ordinis insiste que os padres levem em consideração os desejos, experiências e competências dos leigos para que, juntamente com eles, saibam reconhecer os “sinais dos tempos”.

Talvez não devamos dar tanta importância ao uso repetido da expressão. O modo como os documentos conciliares a utilizam é relativamente inócuo (embora eu deva admitir que tenho dúvidas sobre a abordagem apressada e sem detalhamento sobre o “direito civil” da “liberdade religiosa”). E, de uma maneira positiva, os documentos do Vaticano II dizem muito sobre a centralidade de Cristo na interpretação das realidades criadas e históricas. 

Ainda assim, o uso de “sinais dos tempos” pelo concílio não ocorre isoladamente. Marie-Dominique Chenu, o medievalista e ativista social da escola dominicana de Le Saulchoir, usou frequentemente a expressão nos anos anteriores ao concílio. Chenu considerou crucial a atenção aos sinais dos tempos. Ele via esses sinais como indicadores positivos da humanização progressiva da sociedade, que ele acreditava permitir aos cristãos reconhecerem pontos de contato (pierres d’attente) nos valores seculares.

Chenu avaliou positivamente o secularismo dessacralizante que acreditava ter sua origem no século 12. O desejo de Chenu de pensar e agir em sintonia com os sinais dos tempos era fundamentado em uma avaliação otimista da modernidade, juntamente com uma afirmação da autonomia da esfera da natureza e uma celebração da consciência histórica moderna. Chenu acreditava ser importante estar do lado certo da história.

Três características se destacam no entendimento de Chenu sobre os sinais dos tempos. Primeiro, existem muitos desses sinais que podemos identificar. Segundo, é importante procurá-los e identificá-los, presumivelmente porque eles permitem que a igreja esteja sincronizada com a sociedade moderna. E, terceiro, os sinais dos tempos são avaliados de uma maneira uniformemente positiva: eles são aspectos da modernidade que a igreja deveria aplaudir e abraçar.

Quando Jesus fala sobre os sinais dos tempos, ele está respondendo ao pedido dos fariseus e saduceus por “um sinal vindo do céu” (Mateus 16.1). Jesus critica essa busca por sinais: “Uma geração má e adúltera pede um sinal” (16.4; 12.39). Ele repreende seus interlocutores, os quais são capazes de interpretar o céu (aqui Jesus apresenta sua própria versão do provérbio “À noite céu vermelho, deleite do marinheiro; de manhã céu vermelho, toma cuidado, marinheiro”), mas não conseguem interpretar os “sinais dos tempos”. Jesus parece sugerir que não há necessidade de atender ao pedido por um sinal, pois há inúmeros “sinais dos tempos” —os quais os fariseus e saduceus falham em interpretar adequadamente.

Como Erasmo Leiva-Merikakis destaca em suas meditações sobre Mateus (Fire of Mercy, Heart of the Word), “Jesus havia acabado de realizar sinal após sinal, curando os aleijados, despertando admiração em imaginações desfalecidas, saciando a fome dos carentes, preenchendo almas até o êxtase da plenitude e capturando a atenção dos cronicamente perturbados ao trazer todos a si como o Coração do Mundo.”

Exatamente isso! Cada ação ou palavra de Jesus é um sinal dos tempos e o grande sinal é o sinal de Jonas, cuja permanência de três dias na barriga do peixe foi um sinal do mistério pascal (16.4). Por que procurar por sinais quando Cristo, o Ursakrament, torna o céu presente na terra em tudo que faz? Mais uma vez, como coloca Leiva-Merikakis, os homens que testavam Jesus “falham em reconhecer que a pessoa de Jesus é, em si mesmo, o vivo e incomparável Sinal do Céu, pois ele é a Face de Deus visível aos olhos mortais.”

Para ser honesto, não está inteiramente claro que Jesus tem em mente suas próprias ações quando fala dos “sinais dos tempos” (embora o uso do termo kairos para “tempo” lembre os eventos singulares do ministério encarnado de Cristo). E pode se destacar que, no Evangelho de Lucas, Jesus não fala sobre interpretar os “sinais dos tempos”, mas sim sobre interpretar “o tempo presente”: “Hipócritas, sabeis discernir a face da terra e do céu; como não sabeis então discernir este tempo?” (Lucas 12.56). Será que São Lucas tem em mente uma avaliação positiva de alguns aspectos da cultura circundante (secular) que poderiam, talvez, apontar para o evangelho?

O problema é que, em Lucas, Jesus havia acabado de falar sobre o juízo que ele traria: “Vim lançar fogo na terra; e que mais quero, se já está aceso? (Lucas 12.49). Ele adverte que a razão para sua vinda não é trazer paz, mas divisão (12.51). No lecionário anglicano, as leituras que acompanham essa passagem de Lucas 12 no décimo domingo depois de Pentecostes (18 de agosto de em 2019) são Jeremias 23.23-29 e Salmo 82. Ambos os textos falam sobre o conselho celestial divino. Jeremias insiste que os falsos profetas não permaneceram no conselho do Senhor (23.18, 22) e, portanto, quando pregram a paz estavam apenas compartilhando seus próprios sonhos. Em contraste, é a mensagem de condenação de Jeremias que constitui um “oráculo de Yahweh” (a expressão ocorre nove vezes em 23.23-32). Semelhantemente, no Salmo 82, Deus convoca os “deuses” e juízes ao seu divino conselho, repreendendo-os por seus fracassos em proporcionar justiça aos fracos e aos órfãos. 

Tanto Jeremias 23 quanto Salmo 82 nos dizem que apenas quando olharmos para a realidade a partir da sala do trono de Deus, do conselho divino, seremos capazes de interpretar o mundo a nossa volta e compreender o tempo presente. Ambas as passagens sugerem que é a sala do trono de Deus que dá sentido ao tempo presente. É a palavra eterna de Deus, encarnada em Cristo, que nos permite compreender o momento histórico. Estar do lado certo da história não é tratar realidades naturais como autônomas ou desenvolvimentos históricos como inevitáveis. Estar do lado certo da história é habitar na presença de Cristo.    

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Por: Hans Boersma © First Things. Website: https://www.firstthings.com/web-exclusives/2019/08/the-sign-of-the-times. Traduzido com permissão. Fonte: “The Sign of the Times” First Things. Publicação online em 23.08.19

Original: O sinal dos tempos © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Breno Seabra. Revisão: Guilherme Cordeiro Pires

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direito, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.

Imagem:  Laura Vinck no Unsplash