2 de Julho, 2020 | Por admin

Recuperando o paradoxo (Hans Boersma)

Deus é ou transcendente ou imanente. Não se faz uma omelete sem quebrar alguns ovos. Ou é o que estamos inclinados a pensar. E, uma vez que parece óbvio que Deus é Deus, e nós não, geralmente optamos pelo primeiro e ignoramos o último. 

Ou Deus descansou no sétimo dia (Gn 2.2) ou ele nunca parou de trabalhar (Jo 5.17). Aqui também não podemos fazer nossa omelete sem quebrar alguns ovos. Ou é o que estamos inclinados a pensar. E, uma vez que o paradigma de Gênesis parece estabelecer a perspectiva bíblica dominante, geralmente optamos por ele, ignorando o Evangelho de João.

Os dois paradoxos estão conectados, assim como a maneira em que lidamos com eles. 

Vamos começar com o paradoxo exegético: Deus descansa e ainda assim trabalha. Não é um paradoxo que podemos descartar facilmente. Afinal, é o próprio Jesus quem está fazendo a afirmação: “Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também” (Jo 5.17). Para os espectadores, a verdade da segunda parte da declaração era óbvia: Jesus acabara de curar um homem paralítico há 38 anos, junto ao tanque de Betesda. No entanto, foi mais difícil de entender a sua afirmação de que o Pai também continuava trabalhando. Era um dia de sábado, logo, para desmascarar a futilidade da afirmação de Jesus, alguém só precisaria olhar para o Gênesis (Deus “descansou no sétimo dia de todo trabalho que havia realizado”).

A maioria de nós se recusa a aceitar a ideia de que João 5.17 possa contradizer Gênesis 2.2. Tanto a devoção a Jesus quanto às Escrituras impede-nos de fazer esse movimento radical e, assim, precisamos assumir o paradoxo, uma aparente contradição. Para nós, modernos, essa é uma condição extremamente desconfortável. Nossa razão analítica aprova apenas declarações literais, objetivas e proposicionais e não sabe como lidar com as complicações resultantes de complexidades linguísticas, tal como um paradoxo.

Agostinho não padecia dessa limitação moderna. Pelo contrário, ele se regozijava nos paradoxos. Portanto, não surpreende que ele tenha discutido a aparente contradição entre Gênesis 2.2 e João 5.17 em pelo menos quatro ocasiões e tenha oferecido quatro possíveis sentidos para a afirmação de que Deus “descansou” no sétimo dia. Dessas opções, ele rejeitou apenas uma, a saber, a noção maniqueísta de que Deus estaria cansado depois dos seis dias de trabalho pesado.

Irei me limitar à possibilidade mais intrigante oferecida pelo bispo africano. Como pano de fundo, é importante pontuarmos duas coisas. Primeiro, Agostinho estava convencido de que a menção aos seis dias em Gênesis não deveria ser entendida de maneira literalista, como se esse fosse o tempo que Deus levou para criar o mundo —Deus fez em um único ato (“simultaneamente”) tudo o que foi criado nesses seis dias,  —, mas significando simplesmente que Deus criou o mundo em uma ordem perfeita (seis sendo um número perfeito). Portanto, dificilmente Agostinho leu Deus “descansando” como significando que ele fez uma pausa de 24 horas. 

Segundo, Agostinho acreditava que os seis dias de criação não se referiam ao mundo material como o conhecemos, mas a criação dos princípios ou formas racionais seminais do universo (rationes seminales). Tais princípios serviam de uma maneira mediadora: eles eram moldados a partir das ideias ou formas não criadas eternamente existentes no Verbo (“no princípio”), ao passo que funcionavam como forças animadoras que impulsionavam a existência do universo visível material. Em outras palavras, Agostinho sugeriu que os princípios intelectuais criados por Deus nos seis dias (detalhados em Gênesis 1) se desdobraram no mundo material dos sentidos (a respeito do qual lemos em Gênesis 2). 

Agostinho usa a ideia da criação das formas seminais nos primeiros seis dias para explicar o paradoxo de Deus descansando-e-ainda-assim-trabalhando: segundo ele, Deus descansou em relação a criação das formas seminais (explicando, assim, Gênesis 2.2). No entanto, ele continua a trabalhar, orientando providencialmente o desdobramento desses princípios no mundo sensível (compreendendo, assim, João 5.17).

Não sei bem o que pensar do complexo trio de Agostinho de ideias eternas, princípios seminais e criação material. Ele é veemente em sua argumentação em favor de tal estrutura hermenêutica, tentando superar retoricamente qualquer possível leitura literalista de Gênesis que possa contradizê-lo. O que quer que possamos fazer com sua exegese, a explicação de Agostinho faz mais sentido para mim do que uma leitura fundamentalista que acaba com um deus que faz uma pausa após uma semana produtiva (penso também que a maneira como Agostinho resolve o paradoxo de Deus descansando-e-ainda-assim-trabalhando é criativa e instigante). 

Sobretudo, gosto da resolução de Agostinho porque ela destaca, simultaneamente, tanto a transcendência divina quanto sua imanência. De fato, para Agostinho, Deus é transcendente precisamente em sua imanência.

O quero dizer é o seguinte: compreensões modernas da criação têm uma forte inclinação ao maniqueísmo. Quer sejam fundamentalistas (literalista) ou liberais (mitológica), leitores modernos geralmente concordam: a palavra dia deve ser entendida como um período de 24 horas; a realidade criada deve ser o mundo material. Tal abordagem assegura a transcendência (de um certo tipo): Deus como um ser que cria outros seres completamente separados de si mesmo. O resultado é a transcendência à custa da imanência. 

O trio de formas, princípios seminais e criação material de Agostinho preserva tanto a transcendência de Deus quanto sua imanência. Remova as formas e os princípios seminais e um problema duplo emerge: Deus não tem conhecimento prévio do mundo que ele estava prestes a criar (perda da transcendência) e é excluído do mundo que criou (perda da imanência). A leitura de Agostinho da narrativa de Gênesis pode ser complexa, mas faz exatamente que uma teologia cristã da criação deveria fazer, a saber, apoiar a crença de que Deus é transcendente precisamente em sua habilidade de se fazer presente nas e através das coisas criadas. O Deus criador verdadeiramente se sente em casa com as coisas criadas. 

De todo modo, muitas vezes, acaba sendo possível fazer uma omelete sem ter de quebrar os ovos. 

——

Por: Hans Boersma © First Things. Website: https://www.firstthings.com/web-exclusives/2020/02/reclaiming-paradox. Traduzido com permissão do autor. Fonte: “Reclaiming Paradox” First Things.  Publicação online em 11.02.2020.

Original: Recuperando o paradoxo © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Breno Seabra. Revisão: Guilherme Cordeiro Pires

Imagem: Morgane Perraud no Unsplash

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direito, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.