7 de Julho, 2020 | Por admin

Uma biografia de Cristianismo Puro e Simples (George Marsden)

Escrever a biografia de um livro pode parecer uma ideia estranha, mas livros têm as suas vidas próprias e alguns livros moldaram o mundo profundamente. Isso é especialmente verdade para livros religiosos. Reconhecendo esse fato, o editor de livros religiosos da Princeton University Press instituiu uma série de livros chama As vidas de grandes livros religiosos. Até agora, os volumes incluem O livro de Gênesis, O livro de Jó, O livro de Mórmon, O livro tibetano dos mortos, Confissões de Agostinho, a Suma teológica de Tomás de Aquino, as Institutas de João Calvino, entre outros já no prelo. Quando fui solicitado a contribuir nesse projeto, percebi que Cristianismo puro e simples de C.S. Lewis seria uma adição apropriada à série. Mesmo que seja um título relativamente recente e não seja, como muitas outras obras, um texto autoritativo oficial de um movimento religioso, ele pode reivindicar ser uma das mais importantes obras religiosas do século 20.

Uma das características marcantes da vida de Cristianismo puro e simples é que, diferentemente de outros livros de seu tempo, ele é ainda mais popular hoje que na data de sua primeira publicação. Durante os primeiros 15 anos do século 21, ele vendeu mais de 3,5 milhões de cópias, somente em inglês. Foi traduzido para mais de 30 línguas. Já me disseram que, depois da Bíblia, é o livro que mais provavelmente os leitores cristãos chineses já leram.

Isso é ainda mais notável porque o que veio a ser Cristianismo puro e simples não fora planejado inicialmente como um livro. Pelo contrário, começou como se fosse uma breve série de contribuições na rádio BBC durante os dias obscuros da Inglaterra durante o começo da Segunda Guerra Mundial. As apresentações de Lewis foram um sucesso grande o suficiente para a BBC convidá-lo para mais episódios. Eventualmente, ele fez quatro séries assim. Ele colecionou e editou as duas primeiras num pequeno livro, intitulado simplesmente Broadcast Talks [Palestras no rádio]. O livro logo foi publicado também nos Estados Unidos com o título mais atraente: The Case for Christianity [Um argumento em favor do cristianismo]. Lewis subitamente se tornou conhecido com Cartas de um diabo a seu aprendiz, primeiro publicado em versão impressa em 1942. Durante os próximos dois anos, ele publicou as séries três e quatro da BBC, adicionando alguns capítulos novos. Ele intitulou essas novas publicações de Conduta cristã Além da personalidade.

A história de vida do Cristianismo puro e simples tem diversas dimensões fascinantes. Primeiro, há a história de sua origem. O cenário dos dias turbulentos da Segunda Guerra Mundial é peculiarmente dramático e há muito a se dizer sobre a visão de Lewis sobre seu “serviço em tempos de guerra” como apologista do cristianismo tradicional. Além das palestras no rádio, ele estava viajando durante seus finais de semana para acampamentos da aeronáutica inglesa [RAF] para falar sobre o cristianismo a homens cuja expectativa de vida era dramaticamente curta ao lidarem com os bombardeios sobre a Alemanha. Essas experiências forneceram a Lewis um bom entendimento de como se comunicar com pessoas sem muita educação formal, uma capacidade que foi essencial para que um professor de Oxford alcançasse uma audiência ampla com suas palestras no rádio.

Outra parte significativa dessa história tem a ver com a recepção do livro. As palestras de Lewis e os seus livros originais atenderam a uma necessidade premente durante os anos da guerra. Assim, suas obras foram bem recebidas, com algumas notáveis exceções, tanto no Reino Unido quanto nos Estados Unidos. É interessante saber que, nos Estados Unidos, os seus principais leitores vieram das bancadas mais tradicionais das denominações protestantes liberalizadas [mainline] ao invés dos assim chamados fundamentalistas ou evangélicos. Conhecido como um fã de bebidas alcoólicas e do fumo, Lewis não se encaixava bem o molde evangélico americano. Embora gostassem de seu sobrenaturalismo e de sua mensagem abertamente evangélica, alguns levantaram suspeitas com alguns aspectos de sua teologia. Foi somente uma década ou mais depois da morte de Lewis em 1963, quando o interesse dos mais liberais nele estava diminuindo, que ele surgiu como uma figura icônica dentre evangélicos norte-americanos, eventualmente ficando atrás apenas de Billy Graham na hierarquia de seus “santos”.

Um destaque dessa história é a conversão de Charles Colson, condenado à prisão por seu envolvimento no escândalo de Watergate. O livro best-seller de Colson, Nascido de novo, o qual foi publicado em 1976, enfatizou o papel de Cristianismo puro e simples na sua transformação. Desde então, muitos outros testemunhos de conversão, como os de Francis Collins e do multimilionário Thomas S. Monaghan, fundador da Domino’s Pizza, somaram à reputação do livro. Monaghan foi um dos muitos admiradores católicos romanos da obra de Lewis.

Lewis também angariou alguns apologistas como sucessores que reconhecem a influência de sua obra. Dentre eles estão J.I. Packer, Peter Kreeft (outro católico romano), Francis Collins, Alister McGrath, N.T. Wright, John Piper e Timothy Keller.

Nem todo mundo, é claro, gostou do livro. Assim, a outra parte da história são as críticas que ele recebeu. É interessante notar que o argumento que provavelmente mais foi convincente para algumas pessoas se tornou o mais criticado por outras. Ele é o famoso “trilema” — agora popularmente conhecido como se Jesus foi ou um mentiroso, ou um lunático ou o Senhor. Embora o argumento já existisse anteriormente, ele se tornou associado a Lewis. Os críticos apontam que esse argumento não é tão compacto logicamente, uma vez que podem existir outras explicações, como a hipótese de que os evangelistas atribuíram divindade apenas posteriormente a Jesus. Pode-se, por exemplo, prontamente encontrar sites na internet como “Ateus online: como responder ao argumento de mentiroso, lunático ou Senhor”. Lewis estava ciente de que o argumento não era tão compacto assim. Na verdade, no seu script original para o rádio, ele citava e excluía uma quarta possibilidade, mas deixou isso de lado para a versão impressa, provavelmente porque pensava que o ponto precisaria de maiores explicações. A despeito de críticas, Lewis também possui alguns defensores filosoficamente robustos e bem capazes. E muitos de seus leitores continuam a considerar seus argumentos convincentes.

Um desafio ao escrever esta “biografia” de Cristianismo puro e simples foi encontrar uma forma de ir além das histórias de origem e de recepção, por mais interessantes que fossem. Então, eu escolhi considerar a “vida” do livro como também envolvendo a sua “vitalidade”. O que deu a este livro a sua vitalidade contínua, contribuindo para o crescimento na sua popularidade ao longo dos anos? Qual é a genialidade deste livro? É claro, essas respostas não são nada originais. Em certo sentido, estou destilando o que foi dito por muitos escritos ao refletirem sobre a maravilhosa efetividade de Lewis como apologista. Aqui simplesmente resumirei sete fatores que identifico como elementos da genialidade do livro com esperança de que abrirão o apetite do leitor para mais.

1. Lewis procura verdades atemporais ao invés de modismos culturais. 

Lewis é bem conhecido por sua rejeição do “esnobismo cronológico” ou a ideia de que as últimas ideias da moda provavelmente são as melhores. Pelo contrário, ele manteve que as crenças que mais perduraram provavelmente seriam as verdadeiras. Talvez não seja surpresa, então, que Cristianismo puro e simplesnão seja datado como muitos outros livros do século 20 parecem ser.

2. Lewis usa a natureza humana em comum como o ponto de contato para a sua audiência.

Como um estudioso da literatura, Lewis procurava pelo que era comum à experiência humana. Ele combinou essa expertise com um bom ouvido para escutar seus vizinhos com menos educação formal ou comerciantes. Então, quando veio falar na BBC para praticamente qualquer tipo de pessoa, ele sabia por onde começar — com o nosso senso comum de que existe certo e errado. E, diferentemente do que se podia esperar de um professor universitário, ele conseguia falar em termos simples o suficiente para que qualquer um entendesse. Assim como nas Crônicas de Nárnia, ele sabia como se colocar no lugar de sua audiência.

3. Lewis usa a razão no contexto da experiência, das afeições e da imaginação.

Algumas pessoas relutaram em abrir Cristianismo puro e simples, porque elas pensavam ser um conjunto de argumentos abstratos. De fato, Lewis era perspicaz em seus argumentos e debates. Mas ele sempre revestir os argumentos apresentados no contexto de primeiro recorrer à imaginação da audiência, seus anseios e desejos. Ele usava a razão para remover alguns dos obstáculos modernos à fé. Mas o seu direcionamento se dava à integralidade da pessoa que intuitivamente reconhece que há mais do que a cultura moderna enxerga. Lewis trata do desencanto do mundo moderno e uma das coisas que ele tenta fazer é reencantá-lo com um feitiço, como diz em Peso de glória.

4. Ele é tem o coração de um poeta, usando metáforas e a arte do significado num universo que é vivo.

A primeira ambição de Lewis era ser um poeta e ele nunca perdera a sensibilidade às realidades que eram melhor expressas por meio de imagens e analogias que despertam a imaginação. Mickey Maudlin, o editor de livros religiosos que supervisiona os títulos de Lewis na editora HarperOne, observou que, em Cristianismo puro e simples, como na sua ficção, Lewis convida o leitor a uma jornada imaginativa. Semelhantemente, embora alguns leiam Cristianismo puro e simples “porque as pessoas dizem ser o melhor resumo do que significa ser um cristão e do que os cristãos creem”, Maudlin observa que logo você verá que há muito mais no livro:

O que você descobre é que há uma identificação de uma bússola moral que você não tinha percebido existir, a qual diz que você não está no caminho certo; a história de como Deus enviou Jesus como uma invasão ao mundo para começar uma revolução; que as doutrinas, na verdade, são mapas que lhe mostram suas escolhas e lhe guiam adiante na jornada; e que tudo isso de Deus, Jesus e igreja colocam uma pergunta a você, afinal: você admitirá a sua necessidade, receberá o auxílio de Deus e começará o processo de aperfeiçoamento, de se tornar um pequeno Cristo, de modo que você possa embarcar em outras aventuras com Deus no seu reino celestial, o mundo que você foi criado para habitar? [i]

Essas sensibilidades poéticas sublinham o ponto anterior de que, embora Lewis apele à razão, ele o faz no contexto do estímulo à imaginação. Assim como nas histórias de Nárnia, ele convida seus leitores a ver que a narrativa de suas vidas está envolta, ao vivo, num drama cósmico muito maior. Eles são convidados a se verem imaginativamente como dentro de um drama cósmico real em que um Deus amoroso, mas perigoso, nos convida a nos reinventar.

5. O seu assunto é o cristianismo “puro e simples”.

 Esse ponto, que ele elabora em seu prefácio de 1952, está intimamente relacionado a sua profunda consciência histórica. Por “cristianismo puro e simples”, ele queria dizer as crenças que os cristãos ao longo das eras compartilharam, crenças que existiram “muito antes de eu nascer, independentes da minha vontade”. Ao contrário daqueles que pensavam que um cristianismo sem as questões controversas seria meramente um mínimo denominador comum “genérico e mórbido”, ele estava confiante de que as perenes crenças comuns eram, na verdade, substanciais e poderosas.

O conceito de “cristianismo puro e simples” como algo que une cristãos de todos os tipos pode ter ainda mais ressonância no século 21 do que nos tempos de Lewis. Hoje, as lealdades denominacionais se enfraqueceram e a maior parte dos cristãos, como incentivava Lewis, está disposto a dar um olhar generoso a outras tradições. Protestantes e católicos romanos, por exemplo, estão muito mais prontos a reconhecer suas semelhanças do que há duas gerações atrás. E, como é ilustrado pelas variadas sociedades que carregam o seu nome ou as organizações que descrevem suas visões como “cristianismo puro e simples”, C.S. Lewis é um dos baluartes que cristãos de diversas comunhões têm em comum.

6. “Cristianismo puro e simples” não é “graça barata”. Cristianismo “puro e simples” não é cristianismo mínimo. 

Ele não oferece “graça barata”, para usar o termo de Dietrich Bonhoeffer. Não é fácil ou “seguro”. Pelo contrário, os leitores descobrem que eles estão sendo atraídos para um entendimento do cristianismo que será extremamente exigente deles pessoalmente. Pede-se deles que abdiquem do seu próprio “eu” como entidade soberana e experimentem Cristo vivendo neles. “Para sermos novas pessoas, precisamos perder o que chamamos de ‘eu’. É preciso ir para fora de nós mesmos e para dentro de Cristo.”[ii] Assim, parte do apelo de Cristianismo puro e simples se trata da jornada a que Lewis convida seus leitores: ela é gratificante, porque é exigente.

7. Finalmente, o apelo duradouro de Cristianismo puro e simples se baseia na luminosidade da mensagem do próprio evangelho.

Num ensaio sobre crítica literária (C.S. Lewis e E.M.W. Tillyard, The Personal Heresy: A Controversy), Lewis observou que o poeta não poderia convidar o leitor a olhar para o poeta, mas simples apontava o leitor: “olha isto”. Lewis foi bem-sucedido em apontar o leitor ao seu tema. Como outros já observaram, ele não apenas formula seus argumentos; pelo contrário, ele se porta como um amigável parceiro de jornada. Para desenvolver melhor essa metáfora: é como um parceiro de escalada que é um cientista experiente e aponta todos os tipos de flora e florezinhas e formações rochosas que você perderia caso estivesse sozinho. Quando você vê as maravilhas, você realmente se impressiona com o seu guia enquanto intermediário, mas, particularmente se esse guia te levar para um dos cumes de montanha com as paisagens mais deslumbrantes que você já viu, a beleza dos próprios objetos capturará a sua atenção. Você está profundamente grato a seu guia, mas ele não faz parte da essência de seu encontro inenarrável com tal beleza. Assim, Lewis aponta seus leitores para a visão do cristianismo não mais como uma série de ensinos abstratos, mas sim como algo que pode ser experimentado e usufruído como a realidade mais básica e mais bela de todas.


Por: George Marsden © Knowing & Doing. Website: https://www.cslewisinstitute.org/webfm_send/5791. Fonte: “A Biography of Mere Christianity” Knowing & Doing, n.3, 2017.  

Original: Uma biografia de cristianismo puro e simples © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Guilherme Cordeiro. Revisão: Arthur Guanaes

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direito, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.


[i] MAUDLIN, Mickey. “The Perennial Appeal of C.S. Lewis,” Apresentação no festival  C.S. Lewis em Petoskey, MI, outubro de 2012. Agradeço a Maudlin pelo esboço de sua palestra.

[ii] LEWIS, C.S.  Cristianismo puro e simples. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2017.