13 de Julho, 2020 | Por admin

Por que precisamos da doutrina da geração eterna (Tyler Wittman)

Para matar cada pardal à vista, tente os seguintes passos: atire neles, destrua seus ninhos, toque tambores para os assustar e balance as árvores em que eles pousam. Eventualmente, eles vão cair mortos de cansaço. É verdade.

É claro, se você matar todos os pardais, talvez acabe matando 45 milhões de pessoas. Então é melhor pensar bem antes.

É só perguntar ao Mao Zedong, que conseguiu isso e muito mais em 1958, como parte da infame “Campanha das quatro pestes”, a qual buscou exterminar da China os mosquitos, ratos, moscas e, estranhamente, os pardais. Estes, pensava-se, enchiam suas barrigas com os cereais que as pessoas necessitavam para a alimentação e comércio. Para a China crescer, os pardais tinham de desaparecer.

Para o azar de Mao, os pardais não são tanto pestes quanto elementos vitais para o ecossistema. Sem os pardais, pestes reais como os gafanhotos floresceram e diminuíram as plantações da China. Junto a certo desmatamento e mau clima (sem mencionar a ideologia ruim), isso levou a uma fome que tomou a nação, ceifando milhões de vidas.

Esse desastre ilustra uma verdade importante: compreender errado a natureza das coisas nos cega a sua realidade, função e significado. E isso sempre traz custo humano. Isso é muito visível na presunção tecnológica de Mao com relação ao mundo natural, e também funciona de modos mais sutis nas atitudes negligentes da igreja com relação a doutrinas antigas que ela não entende mais. Por exemplo, considere a doutrina praticamente desconhecida da geração eterna do Filho pelo Pai.

Nas últimas décadas, os evangélicos suspeitam cada vez mais da ideia que nas infinitas profundezas da vida de Deus, o Pai eternamente gera o Filho — uma doutrina conhecida como “geração eterna”. Um punhado de teólogos populares do século 20 criticou a doutrina, como também diversos teólogos evangélicos low-church* de alto escalão (como Wayne Grudem e William Lane Craig, entre outros). Há diversos mal-entendidos sobre esta doutrina: que ela se baseia num erro exegético ou não tem nenhum amparo bíblico, que diz algo por demais especulativo, que não faz sentido, que resulta em subordinacionismo etc. Tudo isso não seria nenhuma surpresa para teólogos como Agostinho, João de Damasco, Tomas de Aquino, Duns Scotus e, bem, a lista poderia continuar por um bom tempo. As críticas podem ser idiossincráticas, mas são predominantes o suficiente para nos perguntarmos por que elas persistem.

Raciocinando biblicamente sobre a geração eterna

Podemos entender o motivo dos críticos não gostarem da doutrina ao lidarmos com a doutrina em si, ao olharmos de onde ela vem e o que ela quer ou não quer dizer. Dicas para tudo isto estão prontamente disponíveis nas primeiras páginas do Novo Testamente, no Evangelho segundo Mateus.

Mateus abre com uma genealogia longa que prova que Jesus é “filho de Davi, filho de Abraão” (Mt 1.1). Naturalmente, a paternidade é um tema recorrente nesses versos: Abraão foi o pai, ou gerou, Isaque, que gerou Jacó, que gerou Judá e seus irmãos, e (respira fundo) Judá gerou, de Tamar, Farés e Zará, Farés gerou Esrom, e Esrom, como você deve ter entendido já, gerou alguém e assim por diante, até que chegamos em “Jacó gerou José, marido de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo” (Mt 1.16). Você percebeu algo de diferente?

Mateus constrói toda sua genealogia numa série de pais gerando filhos, até que chegamos a José e Jesus. Então somos introduzidos a Maria e o verbo gerar subitamente se torna passivo (lit., “de quem foi gerado Jesus”). Esse detalhe sutil é importante, porque Mateus geralmente usa os verbos passivos para falar circunspectamente da ação de Deus onde um sujeito humano não está claro ou inteiramente ausente. A ausência de José na geração e o uso da “voz passiva divina”, sugerem que a geração de Jesus é algo feito por Deus e que envolve apenas Maria. Daí o nascimento virginal.

Porém, fica mais interessante ainda, porque Mateus se recusa a dizer que José é o pai de Jesus. De fato, somente uma vez no evangelho Jesus é chamado de “filho” de José e isso vem das pessoas em sua cidade natal que o rejeitaram (Mt 13.55). Quando os magos vêm visitá-lo, lemos que “quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e, prostrando-se, o adoraram” (Mt 2.11). Deixando de lado o fato que a adoração só é devida a Deus (Mt 4.10), o que vemos aqui é que eles reconhecem Maria como mãe, mas não se faz nenhuma menção a José.

Isso se encaixa com como Mateus se refere a José com relação a Jesus. Quando está fugindo para o Egito para escapar do assassino Herodes, o Senhor diz a José o que ele deve fazer com “a criança e sua mãe” (Mt 2.13, 14, 20, 21). Depois que Herodes morre, o Senhor diz novamente para José “toma o menino e sua mãe e vai para a terra de Israel” (Mt 2.20).

A pergunta sobre o pai de Jesus paira sobre estes capítulos introdutórios, criando uma tensão narrativa. Se não é José, quem é? A resposta vem no batismo de Jesus: “E viu o céu se abrir e o Espírito de Deus descer como uma pomba, vindo sobre ele. E uma voz do céu disse: Este é o meu Filho amado, de quem me agrado” (Mt 3.16-17). Quando Jesus finalmente é chamado de “Filho”, é pelo próprio Senhor (cf. Mt.2.15). Isso se encaixa no padrão maior do evangelho de Mateus em que Jesus se refere a Deus como Pai. Joshua Leim destaca tudo isso e concorda que isso contribui para a identificação de Mateus de Deus em termos da relação Pai-Filho, o que não exclui o Espírito Santo.[i]

Agora podemos ver como essa evidência contribui para a doutrina da geração eterna. Quem ler com atenção as páginas de abertura do Novo Testamento tem de admitir que tem algo curioso acontecendo tanto com essa linguagem de “geração” e quanto com quem é o pai de Jesus. Mateus não só afirma o nascimento virginal, mas também sugere que a forma como Jesus é “filho” não pode ser reduzida a relações humanas nem com Maria, nem com José. Seus opositores judeus entenderam claramente que, quando Jesus “dizia que Deus era seu Pai”, ele estava “fazendo-se igual a Deus” (Jo 5.18).

É fácil sentir a força dessas características inusitadas nos empurrando na mesma direção, a algum tipo de explicação coerente de quem Jesus é como Filho e de quem Deus é como Pai. Maria de fato é a mãe de Jesus, porque ele foi gerado de seu ventre e recebe sua natureza humana dela, mas José não tem nenhuma relação semelhante com Jesus, pois a “geração” que caracteriza sua relação filial com seu Pai celestial está oculta a nós e não é visível. Naturalmente, então, Jesus é o “Deus unigênito, que está no seio do Pai” — o Pai a quem ninguém jamais viu ou pode ver (Jo 1.18). Mateus nem fala dela, muito menos a vê, mas apenas aponta para esta misteriosa relação.

Pensando a geração eterna teologicamente

Em face de evidências como estas, a igreja reconheceu que, nas infinitas profundezas da vida de Deus, de alguma maneira, “assim como o Pai tem vida em si mesmo, assim também concedeu ao Filho ter vida em si mesmo” (Jo 5.26). Em razão da sua geração, o Filho “é o resplendor da sua glória e a representação exata do seu Ser” (Hb 1.3). Como Mateus, podemos falar apenas circunspectamente sobre o Filho sendo gerado pelo Pai. De acordo com Gregório de Nazianzo, “a geração de Deus deve receber o tributo de nosso reverente silêncio.”[ii]

Mas como honramos uma verdade tão difícil pelo silêncio, especialmente quando a igreja sempre julgou necessário desenvolver a verdade contra as heresias? A maioria dos teólogos se dedicou a escrever sobre o que a geração eterna não é, ao invés de falar diretamente como o Pai gera o Filho. Mediante uma serie de negações cuidadosas, a doutrina foi articulada indiretamente.

Então, uma vez que a Escritura nos diz que Deus é o Criador de todas as coisas a partir do nada, que é imutável, incomensurável, simples e eterno, então a igreja sempre entendeu a geração do Filho pelo Pai de uma maneira “digna de Deus”. Isso significa “sem paixão, partição, divisão ou temporalidade”.[iii] O ponto é que “aquele cujo ser não é igual ao nosso também tem um modo diferente de gerar.”[iv] Inevitavelmente, é misterioso para nós. Se não for misterioso, então estamos falando sobre outra coisa.

O que a “geração eterna” significa, basicamente, é que a relação Pai-Filho é caracterizada por uma perfeita identidade do ser — a qual transcende qualquer identidade entre pais e filhos terrenos. John Owen resume a ideia: “toda a essência do Pai é comunicada ao Filho como uma existência pessoal numa mesma essência, sem multiplicação ou divisão dela, continuando a mesma única essência em número.”[v] O Filho é, portanto, Luz de Luz; verdadeiro Deus de verdadeiro Deus; gerado, não feito; de uma essência com o Pai; existindo a partir do Pai, mas nunca depois ou apartedele.

É difícil exagerar a importância dessa geralmente mal compreendida e controversa doutrina para todo o edifício da fé cristã. Tudo, desde a distinção Criador-criatura até a natureza e perfeição da salvação, depende de alguma maneira desta verdade. Por essa razão, ela é relevante pastoralmente. No seu batismo, descobrimos que Jesus já é o Filho de Deus num sentido único e próprio que precede a história de sua obediência até a morte na cruz. Afinal, Deus enviou seu Filho e não alguém ou algo que se tornaria seu Filho (Gl 4.4.; Rm 8.32). Jesus não tem de conquistar sua filiação ou o prazer do Pai porque isso já é dele naturalmente.

O evangelho nos diz que, pela graça de Deus, participamos dessa filiação e prazer. Também não podemos merecer qualquer um destes, mas meramente os recebemos como dons da adoção mediante o Filho e por seu Espírito Santo (1 Jo 3.1; Rm 8.12-17). Porque o Filho é eternamente Filho e, portanto, o Pai eternamente Pai, quando somos trazidos para compartilharmos da relação do Filho com o Pai, somos recebidos na própria “família de Deus” (Ef 2.19). Deus nos “abençoou no Amado” e, desse modo, nossa salvação é tão forte quanto a relação do Filho com seu Pai (Ef 1.6). A nossa identidade como filhos está segura no Filho — por isso é eterna.

Habitando a fé

Por que alguém acharia isso um problema? Com o risco de trivializar o assunto, não podemos ignorar o que os teólogos antigos chamavam de habitus. O habitus da teologia é a disposição ou o temperamento dado por Deus para receber, confessar e viver de acordo com o ensino divino. Isso inclui várias coisas: reverência a Deus e à sua vontade (cf. os Dez Mandamentos e a Oração do Senhor); disposição de ser ensinado pela Escritura; gratidão a Deus pela sabedoria de seus santos, especialmente quando nosso próprio juízo se torna idiossincrático demais; e uma percepção de que crescer em entendimento vem mais do arrependimento e da oração do que da perspicácia filosófica, porque a finalidade da teologia é comunhão com o Deus que “habita em luz inacessível” (1Tm 6.16).

habitus é cultivado pela graça do Espírito Santo à medida que lemos a Palavra de Deus na comunhão dos santos, caracterizada pelo padrão batismal de morrer pelo pecado e viver para Deus. Ele nos incita às práticas e padrões intelectuais que nos conduzem à teologia dogmática: que apreciam o mistério, resistem a vãs curiosidades, e que não tratam a teologia como “mais um assunto como qualquer outro”.[vi]

Quando teólogos sem um habitus bem desenvolvido tentam instruir a igreja, geralmente, o resultado é um erro. Afinal, um ornitólogo pode nos dizer o significado ecológico dos pardais e nos ajudar a ver o que outros não podem, porque ele está equipado com certo habitus. Como qualquer disposição ou habilidade, o habitus teológico pode ser malformado ou confundido com o habitus de outro assunto.

Quando isso acontece, temos dificuldade de perceber os mistérios e de ser bons despenseiros deles (1Co 4.1). Nossos olhos ficam míopes e lutamos para ver os ensinos divinos como são. Perdemos de vista o propósito, função e significado do trato de Deus para conosco, então os dispersamos como pestes. E o vazio que eles deixam sempre será preenchido com problemas reais, como a história do declínio da teologia trinitária ao longo do século 20 nos atesta.

No entanto, assim como nenhum pardal cai no chão sem a permissão do nosso Pai, assim também nenhuma doutrina é negligenciada sem a paciente iluminação e instrução do Espírito. Porque nosso Pai celestial se deleita em nos dar coisas boas, ainda temos pardais. E boas doutrinas também.

Para se aprofundar

BASÍLIO.  Against Eunomius. Trad. Mark Delcogliano e Andrew Radde-Gallwitz. Fathers of the Church 122. Washington, DC: Catholic University of America Press, 2011.

DAVIDSON, Ivor, “Salvation’s Destiny: Heirs of God,” In: DAVIDSON, Ivor e RAE, Murray (ed.)  God of Salvation: Soteriology in Theological Perspective.  London: Routledge, 2010.

GREGÓRIO NAZIANZENO. On God and Christ: The Five Theological Orations and Two Letters to Cledonius. Trad. Frederick Williams e Lionel Wickham. Popular Patristics Series 23. Yonkers, NY: St Vladimir’s Seminary Press, 2002.

SANDERS, Fred e SWAIN, Scott R. (ed.), Retrieving Eternal Generation. Grand Rapids: Zondervan: 2017.

WEBSTER, John. “Eternal Generation,” In: God Without Measure: Working Papers in Systematic Theology, vol. 1, God and the Works of God. Bloomsbury, 2016.

CRAIG, William Lane. “Is the Son Begotten in His Divine Nature?” TheoLogica 3.1. 2019: 22-32.


Por: Tyler Wittman. © Mere Orthodoxy. Website: https://mereorthodoxy.com/eternal-generation/. Traduzido com permissão. Fonte: Why We Need the Doctrine of Eternal Generation. Mere Orthodoxy. 9 de junho de 2020.

Original: Por que precisamos da doutrina da geração eterna. © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Arthur Guanaes. Revisão: Guilherme Cordeiro Pires.

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direito, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.

Imagem: Wikimedia Commons


* N. do T.: Também chamado de baixa igreja, linhas protestantes de prática pouco litúrgica e sacramental.

[i] LEIM, Joshua E. Matthew’s Theological Grammar: The Father and the Son. Wissenschaftliche Untersuchungen zum Neuen Testament 2/402. Tübingen: Mohr-Siebeck, 2015. 

[ii] GREGÓRIO NAZIANZENO, Or. 29.8, In: On God and Christ: The Five Theological Orations and Two Letters to Cledonius. PPS 23. St Vladimir’s Seminary Press, 2002. 

[iii] BASÍLIO. Contra Eunômio, 2.16. 

[iv] GREGÓRIO NAZIANZENO, Or. 29.4. 

[v] OWEN, John. Vindiciae Evangelicae, In: The Works of John Owen, vol. 12, p. 237.

[vi] GREGÓRIO NAZIANZENO, Or. 27.3