13 de Julho, 2020 | Por admin

Arquitetura de pescador (Hans Boersma)

Eu nasci em Urk, uma pequena cidade de pescadores na Holanda. Urk era uma ilha próxima a costa, famosa por seus kotters: pequenos barcos de pesca que representavam iconicamente a vida e a cultura singulares daquela pequena cidade reformada. Um dique foi construído em 1939, conectando a ilha ao continente. O projeto sem precedentes de restituição de terras que se seguiu durante e após a Segunda Guerra Mundial incorporou Urk em um pôlder muito maior e a integrou ao resto do país. A indústria de pesca não desapareceu, mas é uma sombra pálida do que era antes. 

Minha família deixou Urk quando eu tinha três anos. Eventualmente, meu pai me levaria para visitar a cidade. Como pastor reformado, de tempos em tempos ele era convidado para pregar em nossa cidade natal. Ao chegar à igreja da cidade, ele me colocava na primeira fila, onde eu admirava o modelo de um kottersuspenso no teto, bem em frente ao púlpito. Só mais tarde me dei conta da ironia de contemplar um kotter ao invés de um crucifixo. O kotter era a única imagem que conseguiria ganhar legitimidade nesta igreja reformada holandesa.

Meu pai era profundamente consciente da unidade entre natural e sobrenatural. Ele me explicou que o barco de pesca não era apenas um símbolo da herança econômica e cultural da cidade, mas também uma representação em miniatura da igreja. A igreja, dizia, é um barco de pesca, como aqueles dos Evangelhos, o povo de Deus correspondendo aos discípulos e o ministro falando as palavras de Cristo para eles. É no schipda igreja — nave em português (do latim navis, barco) — que os fiéis têm o seu lugar.

Não é meu propósito defender (ou menosprezar) a iconografia kotter da igreja reformada holandesa. Vamos simplesmente dizer que ela é poderosa. 

Por mais nítida que seja a ruptura arquitetônica (e litúrgica) introduzida pela Reforma Protestante no século 16, a imagem do kotter — assim como a arquitetura histórica das igrejas reformadas em geral — estava deliberadamente conectada à herança patrística e medieval. Comparados aos construtores de igrejas contemporâneos (é impossível chamá-los de arquitetos), os reformadores não passariam de iconoclastas amadores. Foi apenas recentemente que os evangélicos romperam definitivamente, em termos de arquitetura, com a igreja de todos os tempos e lugares.

Tudo isso me veio a memória enquanto lia o livro de São Máximo, o Confessor, On the Ecclesiastical Mystagogy, recentemente traduzido pelo teólogo evangélico Jonathan Armstrong e publicado pela editora ortodoxa oriental St. Vladimir’s Seminary Press. O teólogo monástico do século 7º foi um firme defensor da unidade de natural e sobrenatural e ele reconhecia que suas convicções metafísicas tinham implicações arquitetônicas. 

Ao longo do livro, Máximo explica como natural e sobrenatural estão conectados. Ele discute a relação entre os reinos sensível e inteligível do cosmo, entre o corpo e a alma no ser humano, entre o Antigo e o Novo Testamento nas Escrituras e — crucial para nosso tópico — entre a nave e o santuário na igreja.

Como platonista cristão, Máximo era plenamente consciente de que o reino sensível e inteligível não são a mesma coisa. Ele também estava convencido de que o último é ainda mais importante que o primeiro. Em nenhum momento, porém, Máximo rejeitou o corpo em favor da alma. Fazer isso o obrigaria a igualmente desprezar a nave em favor do santuário. Máximo jamais faria isso. 

Para São Máximo, a igreja é uma representação (typos) e um ícone (eikon) do próprio cosmos. Assim como unidade e diversidade caracterizam o mundo, assim também o edifício da igreja consiste de duas partes: nave e santuário. Ele insiste que, embora haja diferenças entre as duas partes, elas não estão completamente separadas: “A nave é o santuário em potência, uma vez que é o relacionamento com seu fim que torna o ambiente santo; por sua vez, o santuário é a nave em ato, pois possui os princípios de seu próprio sacramento, os quais permanecem os mesmo nas duas partes.” O fim da nave é o santuário, e o santuário (com o altar) é a origem do rito mistagógico da igreja.

Máximo utiliza os termos calcedônios “inconfundível” e “indivisível” para chamar a atenção para a unidade e diversidade da arquitetura da igreja. Sem aludir explicitamente à cristologia, ele parece afirmar que o mistério da unidade arquitetônica da igreja é um reflexo da unidade da própria Encarnação. Máximo se recusou a tratar a arquitetura eclesiástica como um empreendimento neutro e provavelmente ficaria chocado diante da afirmação de que uma academia tem um valor espiritual semelhante (ou até maior) ao de uma igreja gótica.

Máximo era um realista metafísico. Ele acreditava que o nível mais baixo da realidade (coisas sensíveis, corpo, Antigo Testamento, nave da igreja) é moldado pelo nível superior (coisas inteligíveis, alma, Novo Testamento, santuário da igreja). Na visão de Máximo, o edifício da igreja deve consistir em nave e santuário, pois a igreja deve ser projetada de acordo com a estrutura calcedônia de cosmos — inconfundível e indivisível.

O argumento de Máximo parece extremamente antiquado no clima filosófico atual. Talvez gostemos da arquitetura eclesial tradicionalista por sua adesão nostálgica a estilos de construção antigos e antiquados. Mas, no fundo, estamos convencidos de que o elo entre nave e santuário não passa de uma racionalização teológica fantasiosa sobre uma construção arquitetônica — cuja origem se reduz simplesmente aos juízos estéticos ou pragmáticos subjetivos do arquiteto. Na visão moderna, os edifícios das igrejas são construções neutras de pura natura, desprovidas de importância metafísica (na verdade, é claro, não há neutralidade em construir uma igreja como academia ou teatro). A recuperação de uma arquitetura eclesiástica profunda depende da recuperação de uma metafísica realista.

Eu não tenho certeza do que Máximo pensaria da iconografia kotter. Certamente, no entanto, ele teria reconhecido que é apenas a bordo de naves que podemos alcançar a segurança do porto. 


Por: Hans Boersma. © First Things. Website: https://www.firstthings.com/web-exclusives/2020/01/fishy-architecture. Traduzido com permissão. Fonte: Fishy Architecture. First Things, 9 de janeiro de 2020.

Original: Arquitetura de pescador. © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Breno Seabra. Revisão: Guilherme Cordeiro Pires.

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direito, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.

Imagem: Unsplash