14 de Julho, 2020 | Por admin

Sobre a formação litúrgica (Hans Boersma)



A fé cristã não se resume a proposições sobre Deus. Essa convicção está claramente presente ao longo de toda trilogia recém-concluída de James K. A. Smith, Liturgias Culturais. A trilogia de Smith pode ser lida como uma advertência amigável, mas firme, a seus correligionários reformados, especialmente seus colegas neocalvinistas. Ele deseja lembrá-los de que o intelecto não é tudo e que, ao intelectualizar a fé, eles inadvertidamente abriram a porta para o secularismo.

Cada título deixa claro o objetivo de Smith: Desejando o Reino encoraja os cristãos a passarem de uma apreciação puramente intelectual para uma consideração do aspecto afetivo. Imaginando o Reino sustenta que não é o intelecto, mas a imaginação (conectada aos hábitos e ao corpo) que é primordial. Aguardando o Rei argumenta que os cristãos são chamados não apenas a expressar suas opiniões, mas também a agir de maneiras que estimulem a vida comum em suas comunidades.

O neocalvinismo é uma vertente do cristianismo reformado, com raízes no pensamento do escritor e político holandês Abraham Kuyper, que enfatiza a soberania de Cristo sobre todas as coisas e rejeita a noção de uma racionalidade religiosamente neutra. Para neocalvinistas, toda realidade deve ser entendida de acordo com a “cosmovisão cristã”. Smith adverte contra essa ideia, em parte porque ela pode tornar a fé cristã uma mera abstração. Ele insiste que precisamos combinar os aspectos intelectuais, corporais e afetivos, ao invés de tratar a fé como uma mera questão de crenças corretas. “Ao enfatizar que a adoração é material e visceral, da ordem da imaginação, não pretendo sugerir que ela seria, de alguma forma, incomensurável com afirmações ou proposições”, ele escreve. “Ao enfatizar a prioridade do afetivo, não estou rejeitando o cognitivo”.

Smith está correto em criticar o conceito de “cosmovisão cristã”. A meu ver, no entanto, o problema não é tanto o racionalismo disfarçado da ideia, mas sim sua tendência a enfatizar mais o aspecto histórico e horizontal do que o vertical, bem como sua ênfase na transformação deste mundo através não da oração, adoração e contemplação, mas, acima de tudo, pela ação. Por essa razão, o secularismo é uma ameaça sempre presente na tradição neocalvinista. Embora Smith não aborde esse ponto, podemos perguntar: por que precisamos de análises de cosmovisão, quando temos teologia? A teologia, como a rainha das ciências, já reflete sobre nossas mais profundas e muitas vezes subconscientes convicções. Quando neocalvinistas introduzem análises de cosmovisão, eles tipicamente reduzem a teologia a mais uma área de especialidade acadêmica dentre tantas outras, enquanto os estudos de cosmovisão usurpam o lugar fundacional que a rainha certa vez ocupou. 

A abordagem simpática, porém crítica, de Smith ao intelectualismo neocalvinista se manifesta também em sua teologia pública. Aguardando o Rei: reformando a teologia pública éo melhor dos três volumes, ao meu ver. Nesse último volume, Smith rejeita o intelectualismo no âmbito da teoria política. Ele adverte contra o liberalismo político e seu tratamento característico da esfera política como um “espaço” no qual várias ideias competem no nível argumentativo. Para Smith, tal intelectualismo inviabiliza a busca pelo bem comum:  

Se formos apenas coisas pensantes, ou animais que consomem, disso se segue que nossa autonomia e independência são anteriores a qualquer “nós”. Nesse caso, o social será um tipo de grande ficção, uma nobre mentira, uma invenção derivativa, secundária e “artificial”. Em vez de trabalhar com espírito solidário, movendo-se em comum na direção de um telos compartilhado, nós nos relacionamos apenas como competidores.

De acordo com Smith, inviabilizamos o bem comum quando procuramos apenas expressar nossas visões em público; o que precisamos é um “imaginário social” público (Charles Taylor) formado através de práticas litúrgicas.

Smith não está satisfeito com o “pluralismo direcional” de Richard Mouw e Sander Griffioen, nem com o “pluralismo de princípios” de Jonathan Chaplin. Smith sugere que, quando confrontados com direções ideológicas concorrentes, não podemos evitar a questão sobre qual perspectiva deve oferecer a visão integradora. Ele, portanto, está preocupado com a aceitação tácita do “macroliberalismo, uma falsa neutralidade comunitária que acaba com um tipo de postura de ‘deixa para lá’ que é, em si mesma, uma ‘visão direcional.’”. Mesmo o “pluralismo de princípios” de Chaplin, embora conduza tanto a um Estado neutro quanto a uma afirmação da pluralidade como o fim desejado, trata o Estado como imparcial e neutro. De acordo com Smith, tal abordagem cai na armadilha do “macroliberalismo” ou em uma mera “república procedimental”.

Smith assume uma visão positiva da cristandade e do constantinianismo, falando da cristandade como um “empreendimento missional”, o qual se justificava em suas tentativas de inclinar políticas e rituais públicos em direção ao amor corretamente ordenado. A democracia liberal e o discipulado cristão têm propósitos mutuamente excludentes, ele insiste: o que deveria guiar nosso engajamento político não é a democracia, mas sim nossa identidade religiosa e eclesiástica. Apoiando-se amplamente em Oliver O’Donovan, Smith celebra a democracia liberal apenas na medida em que ela continua a incorporar elementos herdados da cristandade. 

Uma afirmação central da trilogia é que a formação que recebemos tanto através da educação quanto da adoração tem por objetivo a ação. Como Smith coloca: “Se o fim da adoração é a missão — se somos reunidos para sermos enviados —, então instituições missionais cristãs (igrejas, escolas, colégios e universidades) devem formar agentes.” Tanto a escola quanto a igreja têm por objetivo moldar o caráter das pessoas, de modo que suas ações possam testemunhar do reino de Deus. Para Smith, portanto, igrejas e escolas possuem o mesmo telos. Ambas estão envolvidas na missio Dei, e ambas culminam no envio. 

Tenho minhas dúvidas acerca da recorrente sugestão de que a igreja e a escola possuem o mesmo fim de missão ou de ação. Estudantes e adoradores realmente compartilham do objetivo final da união com Deus, a visão beatífica. Entretanto, a igreja e a escola desempenham papeis diferentes nesse processo e não possuem a formação do caráter como seu objetivo primário. 

O objetivo primário da igreja é essencialmente contemplativo: o próprio Deus. A liturgia eclesiástica se une ao culto celestial, e não há um fim mais elevado que esse. Nas ações que se seguem a adoração, compartilhamos os frutos da contemplação — uma função sacerdotal de conduzir outros seres humanos (e toda a criação) a mesma adoração celestial. No eschaton, apenas a adoração e a contemplação permanecerão — a vida de ação acabará por completo (resistirei criticar diretamente o neocalvinismo, mas uma de suas fraquezas, certamente, é seu foco estar na ação nesse mundo ao invés de na adoração a Deus no porvir). O hábito da adoração forma nosso caráter e nos prepara para o céu: desejamos nos tornar adoradores melhores.

A educação desempenha um papel diferente. Ela também almeja a visão beatífica, mas, enquanto a adoração litúrgica diz respeito à vita contemplativa, a educação é parte da vita ativa. O ensino aborda a visão beatífica apenas indiretamente e seus objetivos imediatos são mais práticos. Certamente, assim como a adoração, a educação envolve formação, mas aqui é o conteúdo das artes liberais que incendeiam nossos estudantes e moldam seus caracteres (juntamente com o modelo inspirador que o caráter do professor proporciona). Em seu segundo volume, Smith responde aos críticos que o acusaram de anti-intelectualismo. Ele assegura ao leitor que ele não está argumentando que deveríamos fechar os laboratórios de física e expandir as capelas. A questão, ele explica, é se a educação trata “simplesmente sobre transmissão de ideias”. Deveríamos focar na formação, uma vez que o fim da educação é a ação cristã. 

Entretanto, parece-me que a educação é primariamente sobre ideias. Estas, por sua vez, conduzem à formação e à ação, ambas orientadas para a contemplação da visão beatífica. Em outras palavras, a formação moral não é o foco mais imediato do currículo educacional, mas sim a consequência de um ensino sólido e intelectualmente rigoroso. Pois, quando a formação moral, em vez do currículo das artes liberais, assume o papel central no ensino, a educação pode facilmente se transformar em uma insípida engenharia social dos desejos dos estudantes. Se a vontade humana deve se harmonizar com a verdade, então uma visão do bem — em última instância, o próprio Deus — deve dirigir e formar os desejos de nossos alunos. A igreja e a escola, portanto, dizem respeito à formação, mas em nenhum dos casos esse é o objetivo principal.

Em muitos sentidos, a crítica de Smith ao intelectualismo é salutar. Proposições e ideias nunca podem tomar o lugar de Deus. Ele está certo em destacar o papel das afeições — particularmente o desejo — em nossa vida com Deus, mas as paixões precisam de orientação e apenas uma mente transfigurada pela visão de Deus pode direcioná-las adequadamente. Na ausência de conversão intelectual, a vontade perde sua orientação e o desejo se torna desordenado. A fé cristã submete nossos desejos ao Deus que é a própria Verdade. A fé não se resume a proposições. Por outro lado, também não se subordina à ação. O fim supremo da fé é a contemplação.

Um foco na contemplação destaca o aspecto mais atrativo do projeto de Smith, a saber, sua visão sacramental agostiniana. Smith propõe um entendimento sacramental do mundo, que implica uma rejeição tanto do naturalismo quando do sobrenaturalismo. Ele entende os sacramentos eclesiásticos como “intensificações particulares de uma presença geral de Deus na criação e com ela” e conclama a uma ontologia participativa que “afirma tanto a bondade da materialidade quanto o fato de que o material o ésomente na medida em que participa em algo maior que o material.” 

Smith anseia não apenas por hábitos externos ou formação, mas pelo próprio Deus. Esse desejo teocêntrico é constantemente afirmado. Em várias ocasiões, Smith deixa isso explícito: “O objetivo da adoração não é a formação; pelo contrário, a formação é um efeito de transbordamento do nosso encontro com o Redentor em louvor, oração, adoração e comunhão.” Adoração, Smith sugere, não é instrumental. O objetivo da adoração é o próprio Deus. Nossa formação moral e intelectual deve nos conformar mais plenamente ao caráter de Deus, a fim de nos tornarmos aptos a eterna adoração celestial.


Por: Hans Boersma. © First Things. Website: https://www.firstthings.com/article/2020/04/formation-for-worship. Traduzido com permissão. Fonte: Formation for Worship. First Things, abril de 2020.

Original: Sobre a formação litúrgica. © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Breno Seabra. Revisão: Guilherme Cordeiro Pires.

Imagem: Unsplash

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direito, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.