17 de Julho, 2020 | Por admin

Sabedoria e descanso sabático (Tim Keller)

Liderança é mordomia — o cultivo dos recursos que Deus nos confiou para sua glória. O Sábado nos dá ajuda teológica e prática para administrarmos um dos nossos recursos primários — nosso tempo.

Em Efésios 5, Paulo traz um conceito bíblico de sabedoria:

Portanto, estai atentos para que o vosso procedimento não seja de tolos, mas de sábios, aproveitando bem cada oportunidade, porque os dias são maus. Por isso, não sejais insensatos, mas entendei qual é a vontade do Senhor. (Ef 5.15-17)

A Versão King James traduz os versos 15 e 16 como: “Portanto, vede prudentemente como andais, não como tolos, mas como sábios, remindo o tempo, porque os dias são maus.” Viver com sabedoria (ou prudentemente) em grande parte tem a ver com o modo que gastamos nosso tempo.

Então o que esse verso nos diz? Primeiro, a palavra redimir é tirada do meio comercial. Significa, essencialmente, “ganhar uma bolada” no mercado, ou gastar tão sábia e estrategicamente que os retornos são várias vezes o valor do investimento.

Em segundo lugar, a expressão de Paulo “os dias são maus” não quer dizer simplesmente que estamos vivendo em dias ruins. Quando Paulo fala da “presente era perversa” (Gl 1.4, NVI), ele se refere ao tempo entre a primeira e a segunda vinda de Cristo. É a sobreposição entre a antiga era e a era do novo reino, um tempo em que os cristãos estão divulgando o evangelho e testemunhando o reino. Então os cristãos são solenemente obrigados a não gastar tempo. Mordomia do tempo é uma ordem!

No entanto, ao aplicar o princípio de “aproveitar bem cada oportunidade” de uma perspectiva do reino parece ainda mais difícil hoje em dia. Especialmente em metrópoles globais, encontramos mais pressão, menos barreiras e menos estabilidades do que jamais antes. Parte do problema é quão conectado estamos pela tecnologia. Isso faz parte da globalização, que cria pressões econômicas enormes que leva todo mundo ao limite. Os empregadores estão tentando tirar tanta produtividade dos trabalhadores que se exige de muitos de nós ir além do que realmente é certo e justo.

Apesar de a tecnologia e dos ídolos contemporâneos terem criados semanas de trabalho maiores e maiores, “não sejais insensatos, mas entendei qual é a vontade do Senhor.” Discernir a vontade de Deus. Há muito tempo alguém me disse que Deus não te dá mais para fazer num dia do que é realmente possível de fazer, e eu tenho lutado com isso por muitos anos. Podemos sentir que há muito para fazer, mas algumas dessas coisas não são da vontade dele. A pressão vem de você, de seu empregador, dos amigos, dos seus pais, ou de qualquer outra pessoa — mas não de Deus!

Os princípios do Sábado

Um dos princípios fundamentais da Bíblia com respeito a organização do tempo é o Sábado. Se devemos ser uma “cidade alternativa” (Mt 5.14-16), temos que ser diferentes do mundo em como gastamos nosso tempo fora do trabalho; isto é, em como descansamos. Então, o que é o Sábado?

De acordo com a Bíblia, ele é mais do que tirar um dia de folga. Após criar o mundo, Deus olhou e viu que “era muito bom” (Gn 1.31). Deus não apenas cessou seu labor; ele parou e desfrutou do que tinha feito. O que isso significa para nós? Precisamos parar para desfrutarmos de Deus, de sua criação e do fruto do nosso trabalho. O ponto central do Sábado é se alegrar no que Deus fez.

A escritora Judith Shulevitz descreve a dinâmica de trabalho e descanso sabático da seguinte maneira:

Meu humor ia caindo até que, na tarde de sábado, eu ficava calada e morosa. Minha rotina normal, que envolvia brunch com os amigos e contos de aventuras na busca incansável por romance ou sucesso profissional, me fazia sentir incrivelmente cansada. Comecei a passar os sábados sozinha. Depois de um tempo me senti solitária e fiz algo que, depois de ser uma adolescente frustrada com sua educação religiosa, eu jamais imaginaria que ia fazer. Comecei a dar uns pulos na sinagoga mais próxima.

Só foi muito tempo depois que eu comecei a desenvolver uma teoria sobre minha condição. Eu estava sofrendo de falta [de Sábado]. Há ampla evidência de que nosso relacionamento com o trabalho está fora do normal. Nossa sociedade atrela reputação ao sucesso exacerbado; não conseguimos deixar de admirar os workaholics. Deixe-me argumentar, porém, em favor de uma instituição que tem mantido o workaholismo razoavelmente sob controle por milhares de anos.

A maioria das pessoas erroneamente acredita que tudo o que você precisa para parar de trabalhar é não trabalhar. Os inventores do Sábado entenderam que era muito mais difícil que isso. Você não reduz o ritmo casual e automaticamente. É por isso que os Sábados puritanos e judaicos eram tão pesadamente intencionais. As regras não existem para torturarem os fiéis. Elas foram feitas para comunicar a ideia de que interromper o incessante ciclo de trabalho requer um ato extenuante de vontade, o qual deve ser fortalecido tanto pelo hábito quanto pela expectativa social.[1]

Na Bíblia, o descanso sabático significa cessar regularmente do trabalho e desfrutar de seus resultados. Isso produz equilíbrio: “Seis dias trabalharás e farás o teu trabalho; mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR teu Deus” (Êx 20.9-10). Embora o descanso sabático dure bem menos que o trabalho, é um freio necessário para que o resto do seu trabalho seja bom e benéfico.

Deus libertou seu povo da escravidão no Egito e, em Deuteronômio 5.12-15, Deus liga o sábado à liberdade da escravidão. Qualquer um que trabalhe demais, na verdade, é um escravo. Qualquer um que não pode descansar do trabalho é um escravo — da necessidade do sucesso, da cultura materialista, dos empregadores exploradores, das expectativas dos pais, ou de todos esses. Esses senhores de escravos se aproveitarão de você caso você não seja disciplinado na prática do descanso sabático. O sábado é uma declaração de liberdade.

Portanto, o sábado é maior que o repouso externo para o corpo; trata do descanso interno para a alma. Precisamos descansar da ansiedade e do peso do excesso de trabalho, o que, na verdade, se reduz a uma tentativa de justificarmos a nós mesmos — para ganhar o dinheiro, ou o reconhecimento, ou a reputação que julgamos merecer. Evitar o excesso de trabalho requer um profundo descanso na obra salvífica completa de Cristo (Hb 4.1-10). Somente assim podemos “nos afastar” regularmente do nosso trabalho vocacional e descansar.

O sábado é a chave para alcançar esse equilíbrio, e Jesus se identifica como o Senhor do sábado (Mc 2.27-28) — o Senhor do descanso! Jesus nos conclama: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma” (Mt 11.20-29). Uma das grandes bênçãos do evangelho é que ele lhe dará um descanso que ninguém mais dará.

Sábado na prática

Em termos práticos, como descobrimos quando tempo precisamos para o descanso sabático e como gastamos esse tempo? A seguir estão algumas sugestões e orientações, de forma alguma exaustivas.

Qual é a quantidade ideal de descanso?

Os dez mandamentos exigem um dia (vinte e quatro horas) por semana. Quando Deus deu esses mandamentos, os hebreus vinham trabalhando do nascer ao pôr do sol, mas a bênção do sábado era parar de trabalhar no pôr do sol da sexta e descansar até o pôr do sol do sábado.

Se você olhar para a Escritura, não há nada que diga que você tem que se confinar a quarenta ou cinquenta horas de trabalho semanal. Sugiro que, para estar dentro das barreiras bíblicas, você precisaria ter pelo menos um dia completo de folga e o equivalente a meio dia de folga durante a semana.

Por exemplo, se o seu trabalho e deslocamento toma quase todos os seus dias da semana, mas você tem o final de semana todo de folga, com participação na igreja aos domingos, provavelmente esse é um sábado suficiente. Ou se você tem um dia inteiro de folga na semana, e talvez três noites livres depois das 18h, você consegue viver uma vida bem equilibrada. Isso ainda permite muitas horas de trabalho durante a semana.

O que conta como descanso?

Claro que “aproveitar bem cada oportunidade” não é simples. Nunca foi. Sim, duas horas de oração com Deus produzirão muito mais fruto espiritual do que filme antigo de sessão da tarde; ainda assim, devemos ter tempo de recreação! O descanso mental faz parte de uma dieta balanceada de corpo e alma, então a oração não pode tomar o lugar da recreação, do exercício físico, e assim por diante. O sábado engloba diversos tipos de descanso, como argumento abaixo.

1. Tenha um tempo de pura inatividade

A maioria das pessoas precisa de um tempo na semana que não seja planejado e estruturado, em que elas podem fazer o que der na telha. Se o tempo do seu sábado está ocupado e cheio de atividades agendadas de “recreação” e ministério, ele não vai bastar. Deve haver uma interrupção de atividade e esforço. Essa pausa no ciclo de trabalho é análoga à prática de Israel de deixar o campo sem ser semeado a cada dezessete anos para que produzisse qualquer coisa que ali nascesse (Lv 25.1-7). O solo descansava para que a plantação em excesso não acabasse com seus nutrientes e destruísse sua capacidade de continuar produzindo. O que nascesse no solo, nasceu. Você precisa de um tempo não agendado como esse a cada semana para deixar nascer — na sua mente e coração — o que nascer.

2. Tenha um tempo para atividade avocacional

Uma avocação é algo que não passa de prazer para você, mas que requer certa intencionalidade e estrutura o seu descanso sabático. Em muitos casos, uma avocação é algo que os outros fazem para “trabalhar’, o que é análogo a ocasionalmente plantar uma colheita diferente no campo para restaurar seus nutrientes e fazer o solo mais fértil para sua colheita normal. Inclui estes elementos:

  • Você precisa de um pouco de descanso contemplativo. Oração e adoração são uma parte crítica do descanso sabático, de qualquer perspectiva. Tempo regular para a devoção, leitura das escrituras e ouvir a Deus formam a base para o descanso externo e fornecem tempo longe dos esforços mais exaustivos da vida.
  • Você precisa de um pouco de descanso recreacional. Os puritanos e outros eram corretamente céticos com recreações que exigissem gastar muito dinheiro, tempo e esforço, porque estes tipos de recreações cansam as pessoas. Seja cuidadoso para que a recreação realmente te renove.
  • Você precisa de um pouco de descanso estético. Abra-se às obras da criação de Deus que te refresquem e energizem, e que você ache bonito. Pode ser algo ao ar livre. Pode ser arte — música, teatro, arte visual. Deus olhou para o mundo e disse que ele era bom, então o descanso estético é necessário para participar plenamente do sábado de Deus.

3. Considere se você é introvertido ou extrovertido.

Quando estiver planejando seu descanso sabático, se pergunte o que realmente te “recarrega”. Esse autoconhecimento pode te ajudar a determinar quão relacional seu sábado deveria ser. Os introvertidos tendem a gastar energia quando estão fora com pessoas e recarregar suas baterias quando estão sozinhos. Os extrovertidos tendem a gastar energia em atividades solitárias e recarregam suas baterias ao sair com pessoas. Se você for um verdadeiro introvertido, seja cuidadoso para não concentrar todas as suas atividades relacionais no tempo de descanso. Seria cansativo demais. Por outro lado, construir relacionamentos pode ser uma das melhores coisas que um verdadeiro extrovertido poderia fazer. Não tente imitar os ritmos sabáticos dos introvertidos se você for um extrovertido, e vice versa! Reconheça que algumas atividades avocacionais te levam à solitude, enquanto outras podem te levar à companhia.

4. Tempo em família não conta necessariamente como tempo sabático.

Faça um autoexame realista de como o “tempo em família” te afeta. O tempo em família é importante, mas os pais precisam ser cuidadosos para que não deixem que todo o tempo regular do sábado seja tomado por responsabilidades parentais. (Os introvertidos em especial precisam de um tempo longe das crianças!) Manter tudo isso equilibrado pode ser virtualmente impossível quando as crianças são muito pequenas, mas isso também passará.

5. Honre tanto os ritmos micro e macro em suas temporadas de descanso.

Os ciclos sabáticos de Israel de descanso-trabalho incluíam não só os sábados, mas também os anos sabáticos e até um ano do Jubileu a cada quarenta e nove anos (Lv 25.8-11). Essa sabedoria é crucial para os trabalhadores no nosso mundo contemporâneo. É possível pegar voluntariamente uma temporada de trabalho que exija muita energia, longas horas e tempo sabático semanal insuficiente. Um médico novo deve trabalhar por muitas horas no programa de residência, por exemplo, e muitas outras carreiras (como em finanças, governo e direito) semelhantemente demandam algum período inicial de trabalho pesado e intenso. Fundar a sua empresa ou buscar um projeto maior como começar um filme exigirão algo similar. Nessas situações voe terá que vigiar para que não justificar pouco tempo sabático dizendo que “é só nessa fase” — enquanto na verdade essa fase nunca acaba.

Se você deve entrar numa temporada como essa, ela não deve durar mais do que dois ou três anos, no máximo. Preste contas disso a alguém, ou você ficará preso num estilo de vida “subsabático” e será consumido. Durante esse tempo “subsabático” não deixe que os ritmos de oração, estudo bíblico e adoração morram. Seja criativo, mas inclua-os.

Aprenda com os outros

Tão logo as comunidades cristãs começaram a definir regras específicas para o que todo mundo poderia ou não fazer no sábado (como viajar, assistir televisão, ou recreação, por exemplo), começamos a cair no legalismo. Observar o descanso sabático juntamente a sua comunidade pode ser benéfico, mas mantenha em mente que as pessoas diferem grandemente em seu temperamento e situação.

Pode ser útil achar outros cristãos no seu campo de trabalho e perguntá-los como lidam com a necessidade de descanso, lazer e restauração. Pergunte sobre seus ritmos semanais e sazonais. Você provavelmente descobrirá algumas ideias que serão bem úteis. Se puder, junte essas pessoas para que compartilhem suas ideias uns com os outros.

Vivemos num mundo caído e alguns empregadores exploram seus empregados. Lidar com essas situações podem ser difíceis, mas ser parte de uma comunidade de cristãos sábios no seu campo pode te ajudar a corretamente abordar sua situação de trabalho e suas alternativas.

“Injetando” sábado em nossas vidas de trabalho

 O que tenho observado é que, à medida que você desenvolve o fundamento e o descanso interior do sábado, ele não só te fará mais disciplinado quanto a tirar folga, mas também te levará a ser menos frenético e obcecado em seu trabalho. Isso talvez seja uma das mais importantes aplicações do sábado, em que podemos realmente agir como contracultura, e é assim que funciona.

Associadas às leis do sábado estavam as “leis de colheita”, como em Levítico 19.9, em que os donos do campo não poderiam “colher totalmente nos cantos”. Eles tinham de deixar uma porcentagem dos produtos do seu campo para que os pobres viessem e colhessem. O sábado, então, é a limitação deliberada de produtividade como uma forma de confiar em Deus, de ser um bom mordomo de si mesmo e de declarar a liberdade da escravidão do nosso trabalho.

Em termos concretos, essa é a coisa mais difícil de fazer porque vem do coração. Pessoalmente, isso significa deliberadamente ter metas menores para certos dias ou semanas, ao invés de colher “totalmente nos cantos do campo”.

Em metrópoles globais, muitas pessoas são sovinas com seu dinheiro e ainda assim doam livremente seus corpos. Em contrapartida, nós cristãos somos sovinas com nosso corpo e generosos com nosso dinheiro. Assim, muitas pessoas estarão dispostas a hipotecar suas almas para o trabalho, mas, num certo ponto, os cristãos terão de dizer “Eu estou disposto a ter uma meta menor, não ser tão acelerado, e até arriscar alcançar menos, porque eu tenho de tirar o sábado de folga. No fim das contas, eu não preciso ser incrivelmente bem-sucedido. Posso escolher esse caminho de liberdade por causa do descanso interior que recebi de Jesus Cristo pelo que ele tem feito por mim.”

Você tem que realmente injetar esse descanso sabático em seu pensamento e em sua vida de trabalho. Alguns universos profissionais são institucionalmente estruturados para o excesso de trabalho. Às vezes você tem que “ralar” nos estágios primários da sua carreira quando você está numa temporada de trabalho duro (como mencionei previamente) ou está tentando ganhar alguma credibilidade no seu campo de atuação. Quando você estiver com mais estabilidade, você poderá moderar sua carga de trabalho. No entanto, em algum ponto, mesmo se isso não acontecer, você terá que confiar em Deus e honrar a Jesus — que é o Senhor do sábado — ao praticar o sábado e arriscar “ficar para trás” em sua carreira.

Talvez aconteça que você fique para trás, e ainda assim recupere sua sanidade. Ou talvez Deus permitirá que você avance na sua carreira apesar de sua prática do sábado e do “princípio de colheita”. Mas isso cabe a ele.

Conclusão

O propósito do sábado não é simplesmente recuperar as energias a fim de produzir mais, nem é a busca por prazer. O propósito do sábado é desfrutar de Deus, da vida em geral, do que você tem alcançado no mundo pela graça dele e da liberdade que você tem no evangelho — a liberdade da escravidão de cada objeto material ou expectativa humana. O sábado é um sinal de esperança que temos do mundo vindouro.


Por: Timothy Keller. Copyright © 2007 por Timothy Keller, © 2011 por Redeemer City to City. Fonte: Wisdom and Sabbath Rest. Esse artigo foi adaptado de uma seção de treinamento de líderes na Redeemer Presbyterian Church em 2007.

Original: Sabedoria e descanso sabático. © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Arthur Guanaes. Revisão: Guilherme Cordeiro Pires.

Imagem: Unsplash

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direito, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.


[1] Paráfrase de Judith Shulevitz, “Bring Back the Sabbath,” The New York Times Magazine, 2 émar. 2003