25 de Agosto, 2020 | Por admin

John Webster: um testemunho (Kevin Vanhoozer)

Escrevo esse ensaio por ocasião do que seria o 61º aniversário de John Webster, 20 de junho de 2016 — se ele não tivesse partido diretamente para a glória no mês passado. Escrevo para prestar homenagem a uma pessoa que descrevi, muito antes de sua morte prematura, como o maior teólogo vivo — o melhor teólogo do mundo.

É claro que tais afirmações dizem tanto sobre mim quanto sobre ele, mas continuo a pensar que são, ou melhor, eram verdadeiras. Seu falecimento, no entanto, não foi notado pela maioria dos cristãos: não houve qualquer menção de sua morte no Christianity Today, por exemplo. Então, quem foi John Webster, por que os evangélicos deveriam prestar atenção e qual o significado de sua sinfônica teologia sistemática inacabada?

Teologia teológica: uma vocação, não uma carreira

Antes de ser indicado para a prestigiosa Cátedra Lady Margaret em Divindade na Universidade de Oxford, a qual ele manteve de 1995-2003, John Webster ocupou cargos no St. John’s College, Durham e Wycliffe College em Toronto (todos colégios teológicos anglicanos). Após seu período em Oxford, Webster se mudou para Universidade de Aberdeen, onde permaneceu até 2013, quando assumiu seu último cargo na Universidade de St. Andrews. Entretanto, esses movimentos institucionais são apenas pequenos deslocamentos comparados às transformações que ele operou em sua concepção da própria teologia.

Podemos discernir três fases do trabalho de Webster como teólogo: inicial, média e tardia. Em seus estudos de graduação em teologia em Cambridge, Webster se concentrou em identificar, analisar e responder a certos problemas, particularmente o “problema da modernidade”. Seu foco consistia em encontrar a linguagem, método e esquema conceitual corretos no qual o discurso sobre Deus pudesse ser considerado inteligível. 

Nesse período inicial, Webster buscou respostas fora da teologia. Ele permaneceu em Cambridge para seu doutorado e escreveu sobre a teologia de Eberhard Jüngel, um teólogo alemão que procurou combinar o melhor de Rudolf Bultmann e Karl Barth. 

Foi durante seu período no Canadá (1986-1995) que ele se estabeleceu como um dos principais intérpretes da teologia de Karl Barth, publicando inúmeras monografias importantes e editando o Cambridge Companion to Karl Barth. Barth o ajudou a compreender que o único ponto de partida possível da teologia é a auto-comunicação trinitária de Deus. Foi também nesse período “médio” que John se tornou familiarizado com a escola de Yale, a qual concentrava-se corretamente na narrativa bíblica, mas tendia a enfatizar mais a recepção da igreja dessa narrativa do que a primazia autoral de Deus.

A indicação de John para Oxford e o subsequente retorno a Inglaterra em 1996 marcam o começo de seu período “tardio”. Sua palestra inaugural “Teologia teológica” estabeleceu o tom que que dominaria cada vez mais seu trabalho durante os próximos vinte anos. Semelhantemente à palestra inaugural de Alvin Plantinga na Universidade de Notre Dame, “Advice to Christian Philosophers” (1984) [Conselho aos filósofos cristãos], na qual Plantinga encoraja filósofos cristãos a confiantemente começarem suas pesquisas a partir da fé cristã e a desenvolver suas próprias agendas, Webster aconselhou os teólogos cristãos a deixarem a teologia ser teológica e a abordarem suas tarefas com alegria, humildade e confiança na Escritura e na tradição, além de rememorar que o trabalho teológico só é possível porque Deus age no intelecto humano através de sua Palavra reveladora e de seu Espírito redentor.

Foi durante esse curto período “tardio” que John, junto com Colin Gunton, fundou o que seria o principal jornal de sua disciplina, o International Journal of Systematic Theology (IJST), editou o The Oxford Handbook of Systematic Theology (2009) e escreveu o que considero como seus trabalhos mais significativos. Isso inclui as monografias Holiness (2003) e Holy Scripture (2003), bem como várias coleções de ensaios inovadores: Word and Church (2001), Confessing God (2005), The Domain of the Word (2012) e a obra de dois volumes God without Measure (2015), para a qual escrevi o seguinte endosso: “God without Measure é uma obra madura de reavivamento teológico. Embora muitos desses ensaios sejam, em si mesmo, joias preciosas, quando lidos em conjunto eles revelam o auge do trabalho de uma mente teológica de primeira classe e o desenvolvimento de uma concepção consistente da tarefa da teologia sistemática, direcionada as questões da teologia primeira: a vida de Deus em si mesmo e sua relação com o mundo.”

Conselho a teólogos cristãos: um testemunho pessoal

Várias pessoas já escreveram belos tributos ao trabalho de John. Além disso, alguns dos seus alunos, colegas e amigos (entre os quais tenho a sorte de me incluir) o homenagearam com um Festschrift intitulado, apropriadamente, Theological Theology: Essays in Honor of John Webster (T&T Clark). O livro inclui um pequeno relato biográfico (“John”, por Ivor Davidson), uma lista das publicações de John e uma ótimo introdução por um de seus ex alunos de doutorado, Darren Sarisky (também um ex-aluno da Trinity Evangelical Divinity School). A estes, gostaria de acrescentar algumas poucas palavras de testemunho pessoal. 

Conheci John em 1985. Eu estava finalizando meus estudos de doutorado em Cambridge; ele já havia terminado os seus e estava lecionando em um colégio teológico evangelical anglicano (St. John’s). Naquela época, ele ainda não era John Webster (e eu ainda não era Kevin Vanhoozer), embora ele já tivesse escrito um pequeno opúsculo para InterVarsity sobre a teologia de Bultman. Não me lembro do porque o visitei, mas passamos uma agradável tarde juntos. Não tivemos contato até anos mais tardes, em 1997, quando ambos retornamos ao Reino Unido para ocupar nossos respectivos cargos em Oxford e Edimburgo, ocasião em que me juntei ao conselho editorial do IJST.

O nome de John não aparece em meu Is There a Meaning in this Text? [Há um significado neste texto?] (1998). Já em The Drama of Doctrine [O Drama da Doutrina] (2005) ele está em toda parte. Para minha surpresa, o índice contém mais referências a Webster do que a Wolterstorff, Ricoeur e até mesmo Calvino! O que aconteceu? Olhando em retrospecto, hoje consigo ver o porquê. Eu havia descoberto um companheiro de jornada. Como John, eu também estava procurando uma alternativa ao criticismo árido — uma saída do pântano metodológico da modernidade para a Terra Prometida da dogmática e da doxologia, onde eu poderia usar a linguagem para falar adequadamente sobre Deus e louvá-lo. Particularmente, me deparei com o ensaio de John sobre “A localização dogmática do cânon” (reimpresso em Word and Church [Palavra e Igreja]). Nesse ensaio, Webster reestabelece o cânon, e o sola scriptura, a seu lugar magisterial sobre a igreja, em contraste com os pós-liberais que corriam o risco de reduzir a Escritura a seu uso eclesiástico tradicional. Admirei a ousadia do ensaio, sua argumentação clara e sua abordagem rigorosamente teológica. Sustentando e direcionando vários dos meus próprios movimentos teológicos, está o forte braço protestante de John Webster.

O ensaio de John me lembrou do famoso texto de Plantinga, mas com uma diferença importante: ele não estava encorajando filósofos, mas teólogos a confiarem nos recursos de sua própria disciplina — as Escrituras acima de tudo, mas também as grandes obras dogmáticas do passado. Aqui estava a teologia teológica em ação, olhando para o conteúdo e para a tradição da própria teologia cristã em busca de direção, em vez de seguir as últimas modas hermenêuticas e epistemológicas. Por fim, também foi desse ensaio que tirei a epígrafe latina para meu livro The Drama of DoctrineTheologia non est habitus demonstrativus, sed exhibitivus (“A Teologia não é um hábito de demonstração, mas de exposição”). Isso resume a mudança que tanto eu quanto John buscávamos fazer: de ver a teologia como um problema crítico a ser resolvido (“demonstrado”) para vê-la como um assunto a ser dramaticamente exposto, em discurso inteligente e ação amorosa. Quando perguntei a John a fonte da frase em latim, a fim de fornecer a documentação necessária para a publicação, ele respondeu timidamente: “Eu inventei”.

Também posso testemunhar do que seus ex alunos de doutorado experimentaram: John era notavelmente generoso com seu tempo. Embora nunca tenha sido seu aluno, aprendi com ele. Pelos últimos quinze anos, tanto seus ensaios publicados quanto suas tutorias informais (e-mails) me orientaram de maneira crucial em meu próprio trabalho como pesquisador. De agora em diante, será mais difícil velejar sem seu farol. 

Quando o Carl F. H. Henry Center for Theological Understanding recebeu recursos para a realização do Kantzer Lectures in Revealed Theology, sugeri imediatamente John Webster como a melhor pessoa para inaugurar a conferência. Ele aceitou e em 2007 proferiu seis palestras contundentes sobre “Perfection and Presence: God with Us, According to the Christian Confession” [Perfeição e Presença: Deus conosco segundo a confissão cristã]. Aqui estava Webster em pleno vigor e florescimento de sua fase tardia, fundamentando todo seu pensamento na perfeição da vida de Deus em si mesmo como Pai, Filho e Espírito. John, no entanto, ficou insatisfeito com as palestras e continuou a reelaborá-las (um volume revisado ainda pode ser publicado). Um lembrete significativo de como é difícil falar apropriadamente da perfeição de Deus. 

A última vez que encontrei John foi em abril de 2011. Ele veio a Wheaton, onde eu ensinava na época, para ler um artigo: “On the Theology of the Intellectual Life” [Sobre a teologia da vida intelectual] (em God without Measure, vol. 2). Tive o privilégio de apresentá-lo e entrevistá-lo por mais ou menos uma hora, para o benefício de nossos estudantes de teologia. Aludindo ao papel tradicional da teologia como rainha das ciências, apresentei John como “o mais proeminente príncipe inglês da rainha.” Eu também tinha dezessete perguntas preparadas. Irei me limitar a reproduzir apenas uma de suas respostas. Perguntei: “Como você aborda a tarefa do comentário teológico da Bíblia?” (estava me referindo ao seu comentário de Efésios que estava para ser publicado). O que me impressionou foi a ordem em que John relacionou os três contextos mais importantes para tal tarefa: ele considerou como menos importante o contexto histórico do autor individual; em seguida veio o contexto canônico; mas ele deu a importância primordial à economia da revelação, o contexto no qual Deus fala à igreja.

A importância de Webster para o futuro da teologia evangélica

OQJWF? O que John Webster faria? Me faço essa pergunta frequentemente. Ela é importante porque acredito firmemente que, para a teologia evangélica florescer, ela deve fazer teologia como John Webster começou a fazer, tanto em estilo quanto em conteúdo. 

Estilo

Em sua breve autobiografia, “Discovering Dogmatics” [Descobrindo a dogmática], Webster relata como ele encontrou sua voz teológica. Como Webster em sua fase inicial, evangélicos tem gastado bastante tempo — até demais — limpando a garganta (ou seja, trabalhando em metodologia) ou tossindo nervosamente e fazendo comentários sem relevância (ou seja, sobre coisas que todos concordam). Evangélicos tem passado muito tempo em uma postura defensiva, lutando para vencer a batalha com a modernidade e a pós-modernidade em seus próprios termos e territórios. Como Webster, evangélicos precisam aprender a não se preocupar excessivamente com a opinião popular e a se preocupar mais em dar um testemunho alegre e verdadeiro do evangelho.

Webster aprendeu “que uma dogmática cristã positiva é uma ciência edificante, alegre e sábia.” Em vez de limpar nossas gargantas (metodologia), ou defender a legitimidade de nosso discurso (apologética), teólogos evangélicos devem se debruçar sobre a importante tarefa de explicar o evangelho de Deus e o Deus do evangelho, com confiança, diligência, inteligência e alegria. Em resumo: evangélicos devem se engajar em maneiras virtuosas de reflexão teológica: “um exercício da mente regenerada acerca do evangelho de Jesus Cristo que está no coração da vocação e existência da Igreja.”

Conteúdo  

Quanto ao conteúdo da dogmática, Webster insiste que a tarefa principal da teologia é afirmar a veracidade e a utilidade do testemunho não só da Escritura, mas também dos grandes credos e confissões cristãs. Eventualmente, ele percebeu que o que faltara em sua formação teológica primária era simplesmente catequese: formação na doutrina cristã. Teologia teológica é a alegre tarefa de testemunhar da verdade do evangelho: “a norma da adoração, confissão e ação da Igreja […] e de seu entendimento da natureza e realidade humana.”

John aprendeu a fazer teologia de maneira positiva. De fato, que Deus não apenas nos conhece, mas cuida de nós a ponto de assumir a natureza humana, leva o teólogo a fazer “afirmações extraordinárias”: declarações sobre o que o Deus que tem vida perfeita em si fez quando ele esteve “entre nós” em Jesus Cristo e como ele morreu “por nós” na cruz. 

John nos deixou com um grande tesouro de “afirmações extraordinárias” — testemunhos teológicos do ser e da obra do único Deus verdadeiro. Sou profundamente grato pelos vários ensaios exemplares que exibem as descrições amorosas, paciente e inteligentes de Deus e do evangelho, aos quais todos os teólogos evangélicos devem aspirar.  


Por: Kevin Vanhoozer. Copyright © 2016 por Carl F. Henry Center for Theological Understanding. Fonte: John Webster: a testimonial

Original: John Webster: um testemunho. © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Breno Seabra. Revisão: Guilherme Cordeiro Pires.

Imagem: Carl F. Henry Center for Theological Understanding

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direito, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.