10 de Setembro, 2020 | Por admin

Não nos cansaremos, nem repousaremos (Richard John Neuhaus)

O texto a seguir, descrito por Robert P. George como “o maior discurso pró-vida já feito”, foi proferido por Richard John Neuhaus no fechamento da convenção de 2008 do National Right for Life Committe. -Editor da First Things

Mais uma vez, a convenção é parcialmente uma reunião de veteranos de batalhas passadas e parcialmente um comício jovem daqueles recrutados para as batalhas vindouras. E é isso mesmo que deveria ser. O movimento pró-vida que começou no século 20 fundamentou o movimento pró-vida do século 21. Estamos fazendo isso há muito tempo, e só estamos começando. Tudo o que tem sido e o que vai ser é um prelúdio, e uma antecipação, de uma indômita esperança. Tudo o que têm sido e tudo que será está sob a premissa da promessa do retorno do nosso Senhor em glória quando, como lemos no livro de Apocalipse, “Ele lhes enxugará dos olhos toda lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem lamento, nem dor, porque as primeiras coisas já passaram.” E ele fará novas todas as coisas.

Este é o horizonte da esperança que, de geração entre geração, sustenta a grande causa dos direitos humanos no nosso tempo e sempre — a causa da vida. Nós lutamos, e lutamos sem descanso, pela dignidade da vida humana, de cada pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus, destinada da eternidade para a eternidade — cada pessoa humana, não importa quão fraca ou forte, não importa quão jovem ou velha, não importa se é produtiva ou um fardo, não importa quão bem vinda ou inconveniente. Ninguém é um ninguém; ninguém é indesejado. Todos são benquistos por Deus, e portanto devem ser respeitados, protegidos e cuidados por nós.

Não cansaremos, nem repousaremos, até que cada criança ainda não nascida seja protegida pela lei e bem vinda à vida. Não nos cansaremos, nem repousaremos, até que todos os idosos que correram o curso da vida sejam protegidos contra o desespero e o abandono, protegidos pela lei e pelos laços do amor. Não cansaremos, nem repousaremos, até que cada a moça seja dada a ajuda que precisa para reconhecer o problema da gravidez como o dom da vida. Não cansaremos, nem repousaremos enquanto ficamos de guarda no portão de entrada e saída da vida, e em cada passo no caminho da vida, testemunhando em palavras e obras da dignidade da pessoa humana — de cada pessoa.

Contra as expedições sombrias da cultura da morte, contra as forças em comando de imenso poder e riquezas, contra a perversa doutrina de que a dignidade da mulher depende de ela poder destruir seu filho, contra o que S. Paulo chamou de principados e potestades do presente século, esta convenção renova nossa resolução de que não nos cansaremos, nem repousaremos, até que a cultura da vida seja refletida no direito e vivida na lei do amor.

Tem sido uma longa jornada, e ainda há milhas e milhas para percorrer. Alguns dizem que ela começou com oaconhecida decisão Roe vs Wade de 1973, quando, pelo que o Juiz Byron White chamou de ato cru de poder judicial, a Suprema Corte apagou de todos os livros de todos os cinquenta estados cada lei protegendo os direitos dos nascituros. Mas é mais antigo do que isso. Alguns dizem que começou com a agitação por causa de “lei do aborto liberalizada” nos anos 60, quando foi proposta a nova doutrina que uma mulher não pode estar completa até que tenha o direito de destruir seu filho. Mas é mais antigo do que isso. Vem desde os movimentos de eugenia e de limpeza racial e ideológica, purificando o último século.

Seja liderado por esquerdistas iluminados, tais como Margaret Sanger, ou totalitários brutais, cujos nomes vivem em infâmia, a doutrina e a prática eram de que algumas pessoas estavam barrando o progresso e que, portanto, não eram pessoas, como foi dito, eram “vidas indignas da vida.” Mas é mais antigo até do que isso. Vem desde a instituição da escravidão em que os seres humanos eram declarados como propriedade e comprados e vendidos e usados e descartados segundo o capricho de seus mestres. Vem de muito mais longe.

Como o Papa João Paulo o Grande escreveu em sua histórica mensagem Evangelium Vitae, a cultura da morte vem desde aquela fatídica tarde em que Caim abateu seu irmão Abel, e que o Senhor disse a Caim: “Onde está Abel, teu irmão?” E Caim respondeu, “por acaso sou guarda do meu irmão?” E o Senhor disse a Caim, “A voz do sangue do teu irmão está clamando a mim desde a terra.” A voz do sangue de inúmeros irmãos e irmãs clama desde os navios negreiros, dos campos de guerras, dos campos de contração e das câmaras de tortura do passado e do presente. A voz do sangue dos inocentes clama hoje das clínicas de aborto e dos laboratórios biotecnológicos sofisticados do nosso amado pais. Lutar pela cultura da vida tem sido uma jornada bem longa e ainda há milhas e milhas a serem percorridas.

A cultura da morte é uma ideia antes de ser uma obra. Espero que muitos de nós aqui, talvez todos, podem lembrar da primeira vez que encontramos essa ideia pela primeira vez. Para mim, foi nos anos 60, quando eu era pastor de uma paróquia com muitos negros e muitos pobres no centro de Brooklyn, Nova Iorque. Eu tinha lido naquela semana um artigo por Ashley Montagu, da Universidade de Princeton, sobre o que ele chamou de “Uma vida que vale a pena viver”. Ele listou as qualificações de uma vida que valeria a pena viver: boa saúde, uma família estável, segurança econômica, oportunidade educacional, o prospecto de uma carreira satisfatória para realizar a completude do potencial do indivíduo. Estes são alguns dos medidores do que se chama de uma “vida que vale a pena viver”.

Lembro-me vividamente, como se fora ontem, de olhar no domingo seguinte para a congregação da S. João Evangelista e ver todas aquelas faces velhas enrugadas pela dureza suportada e pela injustiça afligida, e ainda assim radiando esperança fulgurante e amor inconquistável. E vi naquele dia as faces jovens das crianças, carentes de muitos, se não de todos, os qualificadores da lista professor Montagu. E me veio, como um relâmpago, um relâmpago que ilumina nosso momento cultural e moral, que o prof. Montagu e os que raciocinam semelhante pensavam que as pessoas da S. João Evangelista — pessoas que eu conhecia e amava como pessoas de fé, ternura, resistência e, pela graça de Deus, de esperança que não se esvai — veio a mim então que, pelo critério dos privilegiados e iluminados, nenhuma dessas pessoas tinha uma vida digna de ser vivida. Nesse momento, eu sabia que um grande mal estava às portas. A cultura da morte é uma ideia antes de ser uma obra.

Nesse momento, eu sabia que eu tinha sido recrutado para a causa da cultura da vida. Ser recrutado para essa causa é ser recrutado de forma vitalícia; não há fim à vista, exceto pelos olhos da fé.

Talvez você também possa especificar este momento em que você foi recrutado. Nesse momento você poderia ter dito: “Sim, é horrível que, somente neste país, 4 mil crianças sejam mortas por dia, mas não tem tanta coisa ruim acontecendo no mundo? Por acaso sou guarda do meu irmão feto?  ” Você poderia ter dito isso, mas não disse. Você poderia ter dito “Sim, a nação que eu amo está traindo seus princípios fundamentais — que cada ser humano recebe de Deus direitos inalienáveis, incluso, e principalmente, o dom da vida. Mas a Suprema Corte falou e sua palavra é a lei sobre esta terra. Que que eu posso fazer?” Você poderia ter dito isso, mas não disse. Esse horror, essa traição, nunca te deixariam. Você soube, naquele exato momento, que estava sendo recrutado para contender pela cultura da vida e tinha sido recrutado por toda a vida.

A contenda entre a cultura da vida e a da morte não é uma batalha de nossa escolha. Não somos nós que impusemos sobre a nação a lógica letal de que os seres humanos não têm direitos que somos obrigados a respeitar se eles forem demasiadamente pequenos, fracos, dependentes ou penosos. Essa lógica letal, reforçada pela lei, foi imposta por uma elite arrogante que por quase quarenta anos tem nos dito para superarmos, para nos acostumarmos com isso.

Mas “nós, o povo”, que somos o soberano político dessa democracia constitucional, não superamos, e não nos acostumamos a isso, nem nunca, nunca mesmo, concordaremos que a cultura da morte é a imutável lei vigente.

“Nós, o povo” não ratificamos, nem vamos ratificar, a lógica letal de Roe vs Wade. Aquela notória decisão de 1973 é o evento moral e político que mais teve consequências da metade do século passado na história da nossa nação. Ele produziu um realinhamento dramático das forças políticas e morais, lideradas por católicos e evangélicos juntos, e unidos por cidadãos inumeráveis que sabem que como respondemos ao horrores define quem somos como indivíduos e como povo. Nossos oponentes, outrora tão confiantes, agora estão na defensiva. Tendo perdido o argumento com o povo americano, eles agora se viram desesperadamente para os mandantes nas cortes. Sem serem mais capazes de se apresentarem como a onda do futuro, eles observam desfalecidos enquanto uma nova geração se retrai em horror da sangria que é a indústria do aborto, tão arrogantemente imposta pelos juízes além da regra da lei.

Nós não sabemos, nós não precisamos saber, como a batalha pela dignidade da pessoa humana será resolvida. Deus sabe e isso basta. Como Madre Teresa de Calcutá e os inúmeros santos nos ensinaram, nossa tarefa não é ser bem sucedido, mas ser fiel. Ainda assim, na fidelidade está a esperança do sucesso. Somos os mais fortes porque não estamos sob os fardos das desilusões. Nós sabemos que, num mundo pecaminoso, muito aquém do prometido Reino de Deus, sempre haverá grandes males. Os principados e potestades continuarão a bradar, mas não vão prevalecer. 

Em meio às invasoras trevas da cultura da morte, temos ouvido a voz daquele que disse “no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo; eu venci o mundo.” Porque ele venceu, nós venceremos. Nós não sabemos quando; não sabemos como. Deus sabe e isso basta. Sabemos que nossa causa é justa, confiamos na fidelidade de sua promessa, e portanto não nos cansaremos, nem repousaremos.

Se, nessa grande peleja entre a cultura da vida e da morte, fomos recrutados muitos anos atrás ou mesmo ontem, fomos recrutados para toda a vida. Sairemos dessa convenção renovados em nossa resolução de lutar o bom combate. Sairemos dessa convenção confiantes nas palavras do profeta Isaías, que “os que esperam no SENHOR renovarão suas forças; subirão com asas como águias; correrão e não se cansarão; andarão e não se fatigarão.”

A jornada tem sido longa, e ainda há milhas e milhas para percorrer. Mas dessa convenção se proclamará a cada bairro, cada templo, cada escritório parlamentar, cada prefeitura, cada distrito deste amado país — desta convenção se proclamará que, até que cada ser humano feito à imagem e semelhança de Deus seja protegido pela lei e protegido em toda sua vida, não nos cansaremos, nem repousaremos. E assim venceremos o grande desafio dos direitos humanos do nosso tempo e de todos os tempos.


Por: Richard John Neuhaus. © First Things. Website: https://www.firstthings.com/web-exclusives/2008/07/we-shall-not-weary-we-shall-not-rest. Traduzido com permissão. Fonte: We Shall Not Weary, We Shall Not Rest.

Original: Não nos cansaremos, nem repousaremos. © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Arthur Guanaes. Revisão: Guilherme Cordeiro Pires.

Imagem: Unsplash

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