21 de Setembro, 2020 | Por admin

Santidade (Rowan Williams)

Se você procurar por “santo” em algum índice remissivo da Bíblia, você lerá partes do Antigo Testamento com uma impressão muito, muito forte de que ser santo tem a ver com ser separado, com estar em território perigoso. Quando Moisés se encontra com Deus na sarça ardente, Deus diz “tira as tuas sandálias. Esta é terra santa.” E quando o povo de Israel vem ao monte Sinai, e ele meio que está reluzindo com relâmpagos e tudo o mais, ele é santo e é muito, muito perigoso, como aquelas torres de energia que tem escrito “Perigo de morte”. Isso é santo no Antigo Testamento, e isso realmente sugere que o que se deve fazer com os lugares e pessoas santas é sair correndo.

Por outro lado, se você vai para o Novo Testamento, à primeira vista, parece haver um contraste. Para começar, Paulo, quando escreve a seus interlocutores, geralmente se refere a eles como: aos santos. E isso pode nos dar um bom lugar para começar, porque não parece, pelo jeito que Paulo usa a palavra em suas cartas, que “santo” significa algo perigoso e estranho, como era no Antigo Testamento. Então, você pode começar a ficar confuso. Talvez uma das passagens mais cruciais para ordenar nosso pensamento sobre isso esteja no Evangelho segundo João. Jesus diz a seus amigos na Última Ceia que ele está prestes a se consagrar, está prestes a se tornar santo, e que ele quer que seus discípulos sejam santos da mesma forma. E isso significa que Jesus está se tornando santo ao dar um passo em direção à sua morte, em direção à sua cruz. E o Novo Testamento deixa bem claro nas passagens que a crucificação é a coisa mais supremamente santa que poderia acontecer, ainda que seja encontrada fora de lugares convencionalmente santos. É uma máquina de execução num lixão fora das muralhas da cidade. A santidade não parece estar separada e protegida ali. A santidade no Novo Testamento é Jesus entrando no meio da bagunça e do sofrimento da natureza humana. Ser santo é estar absolutamente envolvido, não absolutamente separado.

Por isso não há contraste, nenhuma tensão real, entre a santidade e o envolvimento com o mundo. Pelo contrário, o mais santo, que é Jesus, é o mais envolvido no centro da experiência humana. E se realmente entendemos errado tudo isso se pensamos que a santidade deve ser protegida da nossa própria humanidade e da humanidade dos outros: é exatamente o contrário. Agora, isso me faz pensar sobre algo que alguém me disse muitos anos atrás sobre a diferença de ser santo e de ser bom, ou mesmo de ser santarrão. Tem uma ótima frase em uma das novelas de Evelyn Waugh, quando um personagem diz sobre o caráter de outro: “Ela era uma santinha, só não era santa”, querendo dizer que ela era muito, muito irritante. Santinha, bem estrita, bem devota, bem fervorosa, mas de alguma forma o efeito que ela tem nas pessoas à sua volta era fazer com que as pessoas se sentissem piores. As pessoas se sentiam culpadas, inadequadas, e penso que é isso que experimentamos quando encontramos pessoas que pensamos ser boas — elas fazem a gente se sentir pior. Eu tinha um amigo da Irlanda do Norte que comentou sobre um colega nosso: “Ele é tão legal que dá vontade de chutar ele.” Penso que isso diz tudo sobre como a bondade, ou a santarrice, nos faz sentir. Porém, como esse amigo me disse anos atrás, as pessoas santas na verdade fazem você se sentir melhor do que você é. As pessoas boas fazer você se sentir pior, porque a bondade sempre atua como se fosse um exame competitivo. Alguns estão marcando muitos pontos, alguns estão perigando cair, outros estão já na zona de rebaixamento. Mas a pessoa santa, de alguma forma, engrandece o mundo, faz você se sentir mais você, ela te abre e te afirma. Não é uma competição, como se dissesse: “eu tenho algo que você não tem.” O santo diz: “Tem espaço o suficiente no mundo para você e eu ocuparmos juntos.”

Quando penso em pessoas em minha própria vida que considero santas, pessoas que realmente fizeram um impacto, penso que é isso que vem mais profundamente de todas elas. Essas pessoas me fizeram sentir melhor, e não pior, sobre mim mesmo. Agora, você pode entender errado — não são pessoas que me fizeram sentir complacente comigo mesmo, mas pessoas que me fizeram sentir que está tudo certo, que podemos começar por aqui. O mundo é grande o suficiente e Deus é grande o suficiente. A real santidade de alguma forma traz à minha vida esse sentido de abrir-se para a oportunidade, de mudar as coisas. Não é sobre eu me sentir inadequado. Pelo contrário, de alguma forma eu me sinto mais eu mesmo. Eu tenho uma teoria que comecei a elaborar das primeiras vezes que me encontrei com o Arcebispo Desmond Tutu; uma teoria que há dois tipos de egoístas no mundo. Há egoístas que estão tão apaixonados por si mesmos que não encontram lugar para ninguém mais, e há egoístas que estão tão apaixonados por si mesmos que ficam bem felizes que todo mundo também sinta o mesmo por ele. E Desmond, um grande extrovertido, ama ser Desmond Tutu. Não há dúvida quanto a isso. E o efeito disso não me faz sentir meio paralisado ou diminuído. Me faz pensar que, bem, talvez na verdade eu poderia amar Rowan Williams como o Desmond ama o Desmond Tutu. 

Este é um aspecto da santidade e é por isso que na igreja católica romana um dos critérios que é usado para tornar alguém santo é que tal pessoa produziu alegria àqueles a seu redor. E um dos argumentos contra a canonização do cardeal Newman, o que está em processo agora na igreja católica romana [na época da escrita original do texto], é que ele na verdade estava bastante triste a maior parte do tempo. Agora, eu não poderia comentar a esse respeito, mas é uma discussão importante. Uma pessoa que queremos chamar de santa, tem o efeito de iluminar e engrandecer as coisas? Essa talvez seja a coisa mais importante sobre a vida santa, e alguém que conheceu o cardeal Newman escreveu em uma de suas cartas — há uns 120 anos — sobre o contraste entre Newman, devoto, espiritual, e erudito, mas você saía de sua presença se sentindo um tanto mal — em contraste com um sacerdote que ele conhecera em Paris, um sacerdote que era, em muitas maneiras, uma figura um tanto complexa, um homem um tanto depressivo que tivera diversas crises, que tinha sofrido bastante fisicamente e gasto boa parte de seu tempo num sofá numa sala escura com um pano sobre seus olhos por causa de sua enxaqueca. E quando você passava dez minutos com ele, você saía se sentindo maravilhado, e, diz o escritor em sua carta, “é isso que eu chamo de santidade.” De alguém que tinha passado por tudo aqui e simplesmente reluza, e você saia de lá se sentindo melhor. 

E isto foi posto muito bem por alguém que citou um grande sacerdote anglicano de mais ou menos cinquenta anos atrás. Ela descreveu seu primeiro encontro com esse sacerdote e disse que à medida que ela falava com ele, a paisagem mudava. Havia uma nova luz. Para mim essa sempre me marcou como uma brilhante definição do como é conhecer uma pessoa santa. A paisagem muda — há uma nova luz sobre ela. Então uma pessoa santa faz você ver coisas em si mesmo e à sua volta como você não tinha visto antes. Ou seja, aumenta-se o mundo ao invés de o diminuir, e é por isso que dizemos que Jesus é o mais santo, porque ele, mais que todos, muda a paisagem e lança uma nova luz sobre tudo. Você não pode olhar para nada da mesma forma depois. Como disse Paulo na segunda carta aos Coríntios, quando estamos em Jesus Cristo há uma nova criação, nada parece igual.

Então, estamos começando a pintar a imagem, espero, da santidade. Ela não é uma forma especial de ser bom. Porque, de alguma maneira, não é sobre competir para ver quão bons somos. É sobre aumentar o mundo, sobre se envolver no mundo. Uma pessoa santa é alguém que não tem medo de estar nos pontos difíceis no centro do que significa ser humano. E uma pessoa santa é alguém que no meio de tudo isso faz você ver uma pessoa nova. E penso que isso tudo, no fim das contas, se resume a algo terrivelmente simples e terrivelmente difícil: as pessoas santas, por mais que gostem de serem elas mesmas, simplesmente não estão obcessivamente interessadas em si mesmas. Elas permitem que você veja o mundo, não elas. Elas permitem que você veja Deus, não elas. Você não sai pensando “Olha só, aí está um sujeito memorável”, mas sim “Aí está um mundo memorável e um Deus memorável”, e até “Que pessoa memorável que eu também sou.” E isso é transformador. 

Penso que esta é a prova de fogo para identificar onde está a santidade. E a coisa horrivelmente difícil, é claro, é que você não pode fazer isso só tentando, porque se você sentar e dizer “Tudo bem, vou parar completamente de ser egoísta e autoconsciente; a cada 20 minutos vou checar se estou sendo autoconsciente e egoísta; a cada 20 minutos vou pensar… ei, espera aí”, e esse é o problema — esse é o pulo do gato da santidade cristã: ela acontece quando você não está pensando sobre você, o que deve ser a explicação de por que não há livros de autoajuda sobre santidade. Há livros de autoajuda sobre emagrecer, há livros de autoajuda sobre ser um líder efetivo, há livros de autoajuda sobre ser um bom cozinheiro, mas não há livros de autoajuda sobre como ser um santo. Eu ficaria muito suspeito se visse um, porque a santidade se dá pela extraordinariedade do Deus em que você está interessado, e isso que te capacita a refletir para outras pessoas. 

Então aqui está o pulo do gato: se você quer ser santo, pare de pensar nisso. Se você quer ser santo, olhe para Deus. Se você quer ser santo, desfrute do mundo de Deus, entre nele o máximo que puder em amor e serviço. E quem sabe um dia alguém dirá de você: “Sabe, quando eu o conheci, a paisagem parecia diferente.” E a parte do “quem sabe” é importante — não podemos planejar isso, não podemos nos organizar para isso. E eu penso que o que vale para indivíduos vale para a própria igreja. Com frequência as pessoas vêm com esses planos maravilhosos para fazer da igreja um lugar mais santo, o que geralmente significa garantir que algumas pessoas não entrem, ou que algumas que estão dentro saiam. Uma igreja santa é uma igreja cheia de pessoas que são mais ou menos como eu no meu melhor, e quando a igreja tenta se tornar santa desse jeito, ela quase sempre acaba numa grande bagunça. Exclusiva, ansiosa e autoconsciente.  Estou realmente sendo consciente o suficiente, pura o suficiente?  Eles estão sendo puros o suficiente? Claro que não! Enquanto a igreja santa é uma igreja tomada pelo fervor da extraordinariedade de Deus, uma igreja que quer falar da beleza e do esplendor de Deus, e quer mostrar o amor abnegado, que se esquece de si, de Deus ao estar envolvida no centro da humanidade, ao estar onde as pessoas são mais humanas.

Por isso, ser santo certamente é não ser egoísta — não no sentido de ter uma política sobre como não se tornar egoísta —, mas ao ser tão interessado por Deus e pelo mundo que você realmente não tem muito tempo para gastar consigo mesmo. E somos chamados a isso, e somos todos, no Espírito de Jesus, capacitados para isso, porque o Espírito de Jesus é o Espírito que constantemente renova em nós a habilidade de orar com integridade e convicção; orar a Deus intimamente, como a um pai. Em 2 Coríntios de novo, “Mas o Senhor, que é o Espírito, desvela nossas faces e mostra a glória que está ao redor”. O Espírito está descascando as camadas de ilusão e autojustificação para que possamos ver as coisas como realmente são. E gosto de pensar ocasionalmente também que uma pessoa realmente santa é como um grande artista ou músico, ou poeta. Eles nos fazem ver o que, de outra forma, íamos passar batido: a dimensão e profundidade do mundo de uma maneira que, de outro modo, não observaríamos. Nem todo artista é santo, de forma alguma. Alguns deles são uns bestas egoístas — artistas, poetas e outros. Mas de alguma maneira em seu trabalho eles esquecem de si mesmos o suficiente para que algo tome vida, algo venha à tona. E o santo é alguém que decidiu fazer de sua vida esse tipo de obra de arte — de deixar algo vir à tona, de deixar algo maior aparecer, uma nova luz e uma nova paisagem.

Começamos, então, no caminho da santidade, por duas coisas muito simples — simples aqui significando difícil: olhar —para Jesus, para como Deus é, para o evangelho, para tudo que isso significa — e explorar — onde estão os seres humanos, quais são suas necessidades, e o que eles foram chamados a fazer, como você pode ajudá-los a se tornar mais humanos. Essas duas coisas, olhar e explorar o mundo humano à sua volta, são as únicas coisas que poderiam servir de base para um conselho de autoajuda sobre ser santo, o que, como eu disse, não funciona. 

Mas comecemos aqui, e quem sabe? Isso, penso eu, nos leva um pouco mais longe em direção ao que penso ser a real ideia bíblica de santidade. A santidade de Jesus, que vai ao centro do sofrimento e tormento da humanidade, e ao mesmo tempo muda a paisagem com a nova criação. E só para eu não deixar vocês com a impressão de que o Antigo e o Novo Testamento dizem coisas completamente diferentes, suponho que no Antigo Testamento há o senso de perigo de imaginar como o mundo pode realmente ser se Deus estiver por perto. Uma das imagens mais poderosas do Antigo Testamento é quando Salomão dedica o novo templo e ora para que a presença do Senhor o encha, e nos é dito que a presença de Deus é como uma densa e sufocante nuvem que desce sobre o templo, de forma que os sacerdotes do templo não podem continuar ali dentro. Que imagem! Quando Salomão finaliza esse grande culto de dedicação do templo,  desce a glória de Deus e os sacerdotes saem correndo do templo porque a glória de Deus é tamanha que eles não conseguem nem respirar. Agora, o perigo tem a ver com o quão diferente isso é, o quanto nós temos de mudar para poder lidar com isso. Penso que nesse sentido podemos ver a conexão, e é por isso que as pessoas têm falado sobre a glória de Deus na face de Jesus Cristo como sendo de alguns pontos de vista uma realidade amedrontadora, por causa do quanto que teríamos de mudar, do quanto que teríamos de nos modificar para podermos viver com ele. Na igreja ortodoxa oriental, na festa da transfiguração, uma das orações é uma ação de graças a Jesus, por ter revelado sua glória aos apóstolos no santo monte somente na quantidade que eles poderiam suportar. E por mais que eles pudessem suportar, ainda é um caminho longo, pois a santidade que em um sentido nos dá vida e aumenta nossa alegria, também é aterrorizante, e por isso precisa de conversão.


Adaptação de discurso proferido pelo Dr. Rowan Williams em 2012 numa palestra para jovens em Christchurch, Nova Zelândia.

Por: Rowan Williams. © Rowan Williams, 2012. Website: http://aoc2013.brix.fatbeehive.com/articles.php/2689/archbishop-reflects-on-holiness-with-young-adults-in-christchurch. Traduzido com permissão. Fonte: “Archbishop reflects on holiness with young adults in Christchurch”

Original: Santidade. © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Arthur Guanaes. Revisão: Guilherme Cordeiro Pires.

Imagem:  Unsplash

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