27 de Outubro, 2020 | Por admin

A lógica do corpo (Matthew LaPine)

Fazer-se vulnerável é perigoso. É perigoso porque muitos de nós têm lentes teológicas que nos proíbem de ver quem está emocionalmente sobrecarregado como digno de compaixão. Com muita frequência, consideramos ansiedade, depressão ou raiva como motivo de culpa, até que se prove o contrário. Não merecem nossa compaixão, nem mesmo nossa curiosidade. E isso nos previne de os ouvirmos realmente bem.

Quando uma pessoa está sobrecarregada emocionalmente — talvez estirada no chão sem saber qual é a próxima coisa que vai fazer ou dizer —, não há nada tão aterrorizante quanto “a conversa”. A conversa acontece quando a pessoa finalmente toma a coragem de pedir ajuda, de dizer a alguém o que ela está sofrendo.

O resultado repousa sobre a corda de um equilibrista. Quando eu conto minha história, o confidente pode comprá-la ou não. Ganharei um amigo ou ficarei sozinho. Serei são ou louco. Terei boas razões para me sentir desse jeito ou será tudo culpa minha.

O pior é que o resultado parece depender da minha capacidade de contar uma história convincente. Será que eu vou achar as palavras certas? Será que eu vou conseguir fazê-los entender porque eu estou paralisado? E se eu falar do jeito errado?

Com muita frequência, as pessoas em sofrimento se encontram confessando seus sentimentos a uma pessoa que está medindo consigo quão má é a situação — vai ser necessário arrependimento ou terapia? Um caso ruim de ansiedade pode precisar de um terapeuta licenciado ou de ansiolíticos. Um caso mais administrável pode precisar ser exortado a confiar em Deus e em suas promessas.

Ver isso como uma relação de tudo ou nada entre terapia e teologia tende a minimizar ou maximizar a culpa pela emoção. Ou meu corpo está quebrado de alguma forma (visão materialista) ou minha alma precisa lutar contra o pecado da incredulidade (visão cognitivista). As emoções difíceis são neuroquímicas e involuntárias ou cognitivas e escolhidas. Ou estou sofrendo ou estou errado.

Muitas vezes o dilema parte de suposições psicológicas errôneas.

Todos temos suposições psicológicas quer reconheçamos quer não. Por exemplo, os meus sentimentos revelam um estado do meu coração ou a dificuldade das circunstâncias? Ou talvez ambos? O meu coração é apenas minha alma ou meu corpo também é uma fonte de sentimentos? As reais perguntas são: eu conheço minhas suposições e elas são verdadeiras?

Quando os evangélicos falam explicitamente sobre a emoção, tendem a suportar uma visão cognitivista. Mas parece haver uma trégua desconfortável na prática pastoral de muitos evangélicos entre a visão cognitivista e a materialista. As emoções administráveis são mentais e as não administráveis envolvem o corpo. Curar essa trégua traria um avanço ao cuidado pastoral.

Escolhendo as emoções: a visão cognitivista

A teoria cognitiva ensina que nós podemos escolher nossas emoções.¹ Essa escolha é possível porque as emoções são juízos de valor. As emoções expressam o que pensamos e valoramos e, portanto, podem ser verdadeiras ou falsas. Portanto, esses juízos estão abertos à avaliação e à alteração. Se as emoções fossem reações corporais cegas, não seriamos capazes de mudá-las. Isso é voluntarismo emocional; presume-se que eu estou em total controle das minhas emoções.

Digamos que estou esperando para ouvir o parecer do médico sobre a minha radiografia e que estou ansioso. Do ponto de vista cognitivista, minha ansiedade vem da crença de que o diagnóstico do meu doutor me dirá que há uma grande chance da possibilidade que eu quero evitar.

Nas últimas três décadas, muitos pastores e teólogos evangélicos defenderam algo perto de uma teoria cognitiva da emoção. Por exemplo, Brian Borgman, autor de Feelings and Faith [Sentimentos e fé], escreve que as emoções “nos dizem o que acreditamos de verdade, de verdade mesmo.”² De novo, se nossas emoções são ou refletem nossas crenças, essas crenças podem mudar. Borgman sugere: “eu venci a ansiedade ao focar nas consolações, nas promessas, que tu me deste na tua Palavra.”³

Segundo Borgman, eu posso vencer a ansiedade ao me lembrar da promessa de Deus de que ele “nunca me deixará, jamais me desamparará” (Hb 13.5). Eu precisarei lembrar que Mateus 6.28-34 me diz três vezes “não fiqueis ansiosos.” Semelhantemente, Hans Dieter Vetz argumenta que esses mandamentos são “categóricos, sem abrir nenhuma exceção.”4

Observe três características da versão teológica da visão cognitivista, a qual chamarei de voluntarismo emocional. Em primeiro lugar, emoções são juízos ou crenças. Segundo, porque as emoções vêm dos nossos corações, elas podem ser mudadas ao mudarmos a nossa atenção de lugar ou nos confrontarmos. Terceiro, porque a Bíblia ordena e proíbe certas emoções, nós devemos mudar nossas emoções.

Então, se estou tendo “a conversa” com um amigo que tem a posição cognitivista, que postura padrão ele terá com relação a minha ansiedade? Ele provavelmente me pressionará para que eu alinhe minhas emoções à “verdade”, assumindo que a ansiedade em si é um ato pecaminoso. Outras circunstâncias externas não importam, porque o problema está no meu coração, não em minhas circunstâncias. Eu sou o problema.

Essa abordagem pode funcionar para formas relativamente triviais de aflição emocional (a terapia cognitiva é muito eficiente para diversos casos). Para casos significativos de aflição ou trauma emocional, pode causar grande dano. O voluntarismo emocional deixa a pessoa traumatizada sozinha e envergonhada.

A abordagem possui três problemas. Primeiro, as emoções nunca são meros juízos, mas envolvem o corpo todo. O clima geral do corpo importa para uma tempestade emocional acontecer ou não. Segundo, as emoções são menos ações e mais algo que acontece conosco (paixões); nossas ações, mentais ou não, nem sempre mudam diretamente nossas emoções porque nossos juízos são inconscientes e automáticos. Terceiro, para mudarmos nossas emoções, precisamos saber quanto tempo levará. Eu tenho uma obrigação moral de mudar minhas emoções nos próximos quinze minutos ou nos próximos dois anos?

Emoções corpóreas: a visão materialista

Geralmente as pessoas que sofrem de certa aflição emocional deixam a igreja quando os líderes eclesiásticos os rotulam como “emocionalmente imaturos”. Esses líderes confundem instabilidade emocional com imaturidade emocional. Assume-se que a pessoa deveria ter controle sobre suas emoções. Os que estão sofrendo reagem num reflexo a isso: eu não sou o problema, minhas circunstâncias que são.

Muitas vezes eles abraçam o lado oposto do dilema, a visão materialista da emoção. De acordo com essa visão, as emoções negativas que causam o sofrimento são uma doença ou uma disfunção trazidas pelo estresse. Se a primeira visão restringe as emoções ao coração (alma), então a segunda as restringe às circunstancias e ao corpo.

Uma perspectiva secular das emoções tende a vê-las como uma reação corpórea, como “funções biológicas do sistema nervoso.”5 As emoções dizem respeito à saúde, não à moralidade. As emoções sinalizam disfunção, desequilíbrio ou relações sociais insalubres. Por serem completamente involuntárias, são amorais. Elas simplesmente acontecem conosco; não as desejamos.

Observe as características da visão materialista. Primeiro, as emoções são eventos corporais. Segundo, emoções são reações ao nosso ambiente segundo a tintura do nosso corpo particular. Terceiro, as emoções são amorais e relacionadas à saúde, mental e física. O problema não está no meu coração, mas fora de mim e com meu corpo.

Agora suponha: estou tendo “a conversa” com um amigo que suporta a visão materialista, que postura padrão ele terá com relação à minha ansiedade? Ele adotará uma postura muito mais empática. Provavelmente ouvirá ativa e atentamente, sem julgamentos. Empatia é terapia, de acordo com essa abordagem. E ele poderá sugerir passos ativos para que eu administre bem meu estresse.

A pessoa que sofre considerará essa abordagem profundamente consoladora. A aflição emocional produz alienação e vergonha, que são debilitantes. A empatia comunica que você não está maluco ou sozinho. Na superfície, essa abordagem é mais humana.

Entretanto, a longo prazo, a abordagem materialista comete o erro oposto de assumir que nossos problemas emocionais estão inteiramente fora de nós, sendo uma combinação de genética e ambiente. A vereda que leva à cura geralmente caminha pelos passos da responsabilidade pessoal e de uma revisão significativa de nosso modo de ver e agir no mundo. Por exemplo, os Doze Passos dos Alcóolicos Anônimos inclui um “destemido inventário moral”, admitindo a “natureza exata de nossas falhas” e o propósito de se corrigir onde errou.6

Uma psicologia tomista: a lógica corporificada

Então como resolvemos o paradoxo dos sentimentos? É possível reconciliar as melhores propostas de cada uma das duas abordagens. Observar a criação e a tradição cristã ajuda a reavaliar nossas suposições para uma leitura mais rica do texto bíblico.

A Bíblia vê os seres humanos como pessoas que estão “cultivando” os seus corpos, no sentido agrícola da palavra. As pessoas são como árvores (Gn 2—3; Sl 1), cultivados para a frutificação e a confiança em Deus e seus dons. Então, seguindo essa analogia, podemos escolher nossas emoções da mesma forma que um fazendeiro do Goiás pode escolher plantar pequi.

Tomás de Aquino defendia uma visão das emoções que as considera como corporificadas e significativas. Para Aquino, emoções são paixões. As paixões acontecem conosco e são apenas parcialmente voluntárias. Elas são responsivas aos rápidos juízos da percepção. Então, se eu vejo um graveto que parece uma cobra, meu corpo reage com medo antes mesmo de eu ter registrado o que de fato existe ali. As nossas emoções corporificam uma espécie de inteligência ou lógica.

Tentar mudar diretamente nossa forma de pensar pode afetar nossa percepção e nossas paixões, mas isso ocorre apenas de forma indireta e incompleta, porque o pensamento é consciente enquanto os julgamentos perceptivos são inconscientes. Pensar com o objetivo de corrigir nossas emoções pode ajudar ou não. Porque a percepção difere da reflexão racional, não importa o quanto eu pense “isso não é uma cobra”, isso não prevenirá a reação da próxima vez. Mas talvez aprender sobre cobras e sobre como manuseá-las possa ajudar.

Enquanto temos a responsabilidade de governar nossos corpos e emoções, essa responsabilidade tem dois limites significativos. De um lado, somos capacitados apenas na proporção do que recebemos na graça comum de capacidades humanas funcionais, na graça salvadora de Deus em Cristo e nos dons do Espírito. De outro, nossas expectativas de integridade são modificadas pela futilidade a que nossos corpos foram submetidos pela maldição do pecado.

A Bíblia nos diz que “o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos habita em vós” e que ele “há de dar vida também aos vossos corpos mortais, pelo seu Espírito, que em vós habita” (Rm 8.11). O Espírito pode vivificar nossos corpos total e completamente agora mesmo.

E ainda assim esperamos com paciência pela redenção de nossos corpos. Nossos corpos estão sob o domínio da maldição do solo e o Espírito nos ajuda em nossas fraquezas (Rm 8.18-27). Nesses corpos, devemos esperar com paciência pela colheita da ressurreição (1Co 15.42-44, Tg 5.7). A ajuda e a esperança necessárias já nos foram dadas, mas o sofrimento ainda não foi removido.

Então, para retornar à “conversa”, que postura padrão assumirão os que têm uma visão tomista em relação à minha ansiedade? Primeiro, os ouvintes serão compassivamente curiosos sobre as dinâmicas internas e externas de qualquer dor humana. Eles tentarão imaginar como é ser alguém que sofre ao fazer perguntas empáticas sobre as circunstâncias e os sentimentos envolvidos.

Em segundo lugar, esses ouvintes praticarão a paciência. “Mas, se esperamos o que não vemos, com paciência o aguardamos” (Rm 8.25). O sofrimento significativo, como o trauma, pode trazer um dano à pessoa que só será curado com o tempo. Se administrarmos nossa emoções como um fazendeiro de Goiás administra seu campo, a tempestade e as enchentes podem causar um dano duradouro. A cura do trauma pode levar anos.

Terceiro, eles se sentirão livres para cuidar dos outros com ferramentas tanto da graça comum quanto da salvadora. Não somos corpos, nem almas, mas almas corporificadas. Os meios de graça para a cura e a santificação incluem Palavra e sacramento, práticas individuais e comunitárias, tudo mediado pela presença do Espírito de Deus. Mas há também meios de graça como descanso e comida, atividade física e contato com a natureza, medicação e toque físico. Esses instrumentos também mediam o amor cuidadoso de Deus. Em alguns momentos, o toque físico pode comunicar o amor cultivador de Deus melhor que as palavras.

Temos uma obrigação de estender bondade aos irmãos e irmãs em Cristo que estão sofrendo. A Bíblia diz: “Recusar a piedade a um amigo é abandonar o temor do Todo-poderoso” (Jó 6.14-15, BAVM) e “Levai os fardos uns dos outros e assim estareis cumprindo a lei de Cristo” (Gl 6.2). Porém, à parte do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, não temos nenhum poder para estender tal bondade e suportar tais fardos. Devemos o fazer na vinha e sob os cuidados do divino jardineiro. Nossa vida está somente em Cristo e tudo que ministramos são sua vida e seus dons.

Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. […] Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós. O ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira; assim também vós, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira; vós sois os ramos. Quem permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.
João 15.1, 4-5


  1. O filósofo Robert Solomon foi um pioneiro da visão cognitivists. Ver “Emotions and Choice,” The Review of Metaphysics 27 no. 1. Setembro de 1973, p. 20-41. 
  2. Brain Borgman, Feelings and Faith, p. 128. 
  3. Borgman, Feelings and Faith, p. 130. 
  4. Hans Dieter Betz, The Sermon on the Mount, Hermeneia. Minneapolis: Augsburg Fortress, 1995, p. 469. 
  5. Joseph LeDoux, The Emotional Brain: The Mysterious Underpinnings of Emotional Life. New York: Simon & Schuster, 1996, p. 12.
  6. O vício se relaciona intimamente à saúde mental porque é uma forma doentia de lidar com a aflição mental. Os adictos são normalmente diagnosticados com algum transtorno mental.

Por: Mathew LaPine. © Mere Orthodoxy. Website: https://mereorthodoxy.com/the-logic-of-the-body/. Traduzido com permissão. Fonte: The Logic of the Body.

Original: A lógica do corpo (Mathew LaPine) © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Arthur Guanaes. Revisão: Guilherme Cordeiro Pires.

Imagem:  Unsplash

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