17 de Novembro, 2020 | Por admin

Contemplação e evangelização (Rowan Williams)

Na primeira vez que algum Arcebispo da Cantuária se dirigiu ao Sínodo de Bispos de Roma, Rowan Willians explorou a conexão necessária entre contemplação orante e a tarefa da evangelização.

Estou profundamente  honrado pelo convite do Santo Padre para falar nesta reunião, como diz o salmista, Ecce quam bonum et quam jucundum habitare fratres in unum.[1] A reunião de bispos para o bem de todo o povo de Cristo é uma das disciplinas que sustenta a saúde da Igreja de Cristo.

E hoje especialmente não podemos esquecer a grande reunião de fratres in unum que foi o Concílio Vaticano II, o qual fez tanto pela saúde da igreja e ajudou-a a recuperar tanto de sua energia para proclamar as boas novas de Cristo jesus efetivamente em nossa era. Para tantos de minha própria geração, mesmo fora das fronteiras da Igreja Católica Romana, o concílio foi sinal de uma grande promessa, sinal de que a igreja era forte o suficiente para perguntar a si mesma perguntas exigentes sobre se sua cultura e estruturas eram adequadas para a tarefa de compartilhar o evangelho com a mente complexa, por vezes rebelde, sempre incansável, do mundo moderno.

O concílio foi, de variadas formas, uma redescoberta da preocupação evangelística, focada não somente na renovação da própria vida da igreja, mas de sua credibilidade no mundo. Textos como o Lumem Gentium  e Gaudium et Spes trouxeram uma visão nova e alegre sobre como a realidade imutável de Cristo vivendo em seu corpo na terra pelo dom do Espírito Santo pode falar novas palavras a uma sociedade da nossa era, e até mesmo àqueles de outras fés. Não é surpreendente que nos ainda estejamos, cinquenta anos depois, lutando com muitas das mesmas questões e com as implicações do concílio; e entendo que a preocupação do sínodo com a nova evangelização como parte de uma exploração contínua de seu legado.

Mas um de seus aspectos mais importantes para a teologia de Vaticano II foi uma renovação da antropologia cristã. Em lugar de um relato neoescolástico artificial e geralmente forçado de como a natureza e graça se relacionam na constituição dos seres humanos, o concílio construiu sobre os melhores entendimentos de uma teologia que tinha voltado a fontes mais ricas e antigas — a teologia de gênios espirituais como Henri de Lubac, que nos lembrou o que significava para o cristianismo antigo e medieval falar de uma humanidade feita à imagem de Deus e da graça como aperfeiçoando e transfigurando a imagem, coberta há tanto tempo por nossa habitual “desumanidade”. Sob tal luz, proclamar o evangelho é proclamar que finalmente é possível ser propriamente humano: a fé cristã e católica é um “verdadeiro humanismo”, para pegar emprestado uma frase de outro gênio do século passado, Jacques Maritain.

Ainda assim, de Lubac é claro sobre o que isso não significa. Não trocamos a tarefa evangelística por uma campanha de “humanização”. “Humanizar antes de cristianizar? Se tal empreitada suceder, o cristianismo virá tarde demais: seu lugar estará ocupado. E quem pensa que o cristianismo não tem valor de humanização?” Assim de Lubac escreve em sua maravilhosa coletânea de aforismos, Paradoxes of Faith [Paradoxos da Fé]. É a fé em si que molda o trabalho de humanizar e esta empreitada será vazia sem a definição de humanidade dada pelo segundo Adão. A evangelização, velha ou nova, deve ser baseada em uma profunda confiança de que temos um destino humano singular para mostrar e compartilhar com o mundo. Há muitas formas de dizer isso, mas nestas breves constatações quero focar em um aspecto em particular.

Ser completamente humano é ser recriado à imagem da humanidade de Cristo. E essa humanidade é a perfeita “tradução” humana da relação entre o Filho eterno e o Pai eterno, uma relação de amor e autoentrega adoradora, um derramar de vida sobre o Outro. Assim, a humanidade para a qual estamos nos desenvolvendo no Espírito, a humanidade que buscamos compartilhar com o mundo como fruto da obra redentora de Cristo, é uma humanidade contemplativa. S. Edith Stein observou que começamos a entender a teologia quando vemos Deus como o “primeiro teólogo”, o primeiro a falar sobre a realidade da vida divina, porque “todo falar sobre Deus pressupõe o próprio falar de Deus.” De maneira análoga, nós poderíamos dizer que começamos a entender a contemplação quando vemos Deus como o primeiro contemplativo, o paradigma eterno para a atenção abnegada ao Outro que traz não morte, mas vida ao self. Toda contemplação de Deus pressupõe o próprio conhecimento absorto e alegre de Deus sobre si mesmo e sua contemplação de si mesmo na vida trinitária.

Ser contemplativo como Cristo o é significa estar aberto para toda a plenitude que o Pai deseja derramar sobre nossos corações. Se aquietarmos nossas mentes para receber, silenciando nossas fantasias sobre Deus e nós mesmos, finalmente estaremos prontos para começar a crescer. E a face que precisamos mostrar para nosso mundo é a face de uma humanidade de infindo crescimento em amor, uma humanidade tão deleitada e dedicada à glória do que contemplamos que está preparada para embarcar numa jornada sem fim para encontrar nosso caminho mais profundamente nela, no coração da vida trinitária. S. Paulo fala (em 2Coríntios 3.18) de como “com o rosto descoberto, refletindo como um espelho a glória do Senhor” somos transfigurados em uma radiância cada vez maior. Tal face é a que buscamos mostrar ao nosso próximo.

E buscamos isso não porque estamos à procura de alguma “experiência religiosa” privada, que nos fará sentir seguros e santos. Buscamos isso porque neste contemplar da luz de Deus em Cristo, contemplar que se esquece de si mesmo, nós aprendemos a como olhar para o outro e para toda a criação de Deus. Na igreja primitiva, havia um entendimento claro de que precisamos avançar do autoconhecimento e da autocontemplação, que nos ensinam a disciplinar nossos instintos e desejos avarentos, para a “contemplação natural”, que percebia e venerava a sabedoria de Deus na ordem do mundo e que nos permitia ver a realidade criada como ela realmente era na visão de Deus — ao invés de o que ela era nos termos de como nós podíamos usá-la ou dominá-la. E daí a graça nos levaria à verdadeira “teologia”, o vislumbrar silencioso de Deus que é o objetivo de todo nosso discipulado.

Nessa perspectiva, a contemplação está muito longe de ser apenas um tipo de coisa que o cristão faz: é a chave para a oração, a liturgia, a arte e a estética, a chave para a essência de uma humanidade renovada que é capaz de ver o mundo e outros sujeitos no mundo com liberdade — liberdade dos hábitos autocentrados e gananciosos e do entendimento destorcido que vem deles. Em termos mais claro, a contemplação é a única resposta, no final das contas, para o irreal e insano mundo que nossos sistemas financeiros, nossa cultura publicitária e nossas emoções não examinadas nos encorajam a habitar. Aprender a prática contemplativa é aprender o que precisamos para que vivamos verdadeira, honesta e amavelmente. É uma questão profundamente revolucionária.

Em sua autobiografia Thomas Merton descreve uma experiência que ocorre não muito depois de ele entrar no mosteiro onde passou o resto de sua vida. Ele pegou uma gripe e ficou confinado na enfermaria por dias e, diz, sentiu uma “alegria secreta” pela oportunidade que isso lhe deu para orar — e “para fazer tudo que ele queria fazer, sem ter que correr para todo canto tendo que responder aos sinos.” Ele acaba reconhecendo que essa atitude revela que:

“Todos os meus maus hábitos […] haviam se esgueirado comigo para dentro do monastério e tinham recebido as vestes religiosas juntamente comigo: gula espiritual, sensualidade espiritual, orgulho espiritual.”

Em outras palavras, ele estava tentando viver a vida cristã com o equipamento emocional de alguém ainda profundamente envolvido com a busca pela satisfação individual. É um aviso poderoso: temos que ser cuidadosos em nossa evangelização para não apenas persuadir as pessoas a aplicarem a Deus e à vida do espírito todos os seus desejos por drama, empolgação e autocongratulação que tantas vezes temos em nossas vidas.

Isto foi expresso ainda mais fortemente algumas décadas atrás pelo estudioso da religião americano Jacob Needleman, num livro desafiador e controverso chamado Lost Christianity [Cristianismo perdido]: as palavras do evangelho, ele diz, são referidas a seres humanos que “ainda não existem”. Isto é, responder de uma maneira que doa a própria vida ao que o evangelho requer de nós significa transformar todo o nosso ser, nossos sentimentos, pensamentos e imaginações. Ser convertido para a fé não significa apenas adquirir um novo grupo de crenças, mas tornar-se uma nova pessoa, uma pessoa em comunhão com Deus e os outros, por meio de Jesus Cristo.

A contemplação é um elemento intrínseco desse processo de transformação. Aprender a olhar para Deus sem me importar com minha própria satisfação instantânea, aprender a escrutinar e a relativizar os desejos e fantasias que surgem em mim — isso permite que Deus seja Deus e, portanto, permite que a oração de Cristo, a relação de Deus com o próprio Deus, tome vida dentro de mim. Invocar o Espírito Santo é apenas uma matéria de chamar a terceira pessoa da Trindade para entrar no meu espírito e trazer a claridade que preciso para ver onde estou escravizado aos meus desejos e fantasias, e me dar paciência e quietude à medida que a luz e o amor de Deus penetram minha vida interior.

Só quando isso começa acontecer que sou liberto de tratar os dons de Deus como outro conjunto qualquer de coisas que adquiro para me fazer feliz, ou para dominar as outras pessoas. À medida que esse processo se desenrola, mais livre me encontro — para pegar emprestado a frase de Santo Agostinho — para “amar os seres humanos de uma forma humana”, para amá-los não pelo que podem prometer a mim, amá-los como se estivessem lá para prover para mim segurança e conforto duradouros, mas como frágeis criaturas também sustentadas no amor de Deus. Eu descubro como ver outras pessoas e coisas pelo que elas são em relação a Deus e não a mim. É aqui que a verdadeira justiça, assim como o verdadeiro amor, tem suas raízes.

A face humana que os cristãos querem mostrar para o mundo é uma face marcada por tal justiça e amor e, assim, uma face formada pela contemplação, pelas disciplinas do silêncio, de desapegar o self dos objetos que o escravizam e dos instintos não examinados que podem o enganar. Se a evangelização é sobre mostrar ao mundo a face humana “descoberta” que reflete a face do Filho voltada para o Pai, ela deve ter um sério comprometimento com promover e nutrir tal oração e prática.

Não deveria ser necessário dizer que isso não quer de forma alguma argumentar que a transformação “interna” é mais importante do que a ação pela justiça. Antes, é insistir que a clareza e energia que precisamos para fazer justiça exige que abramos espaço para a verdade, para que a realidade de Deus venha à tona. De outra forma, nossa busca por justiça ou paz se torna outro exercício da vontade humana, minada pela ilusão do self humano. Os dois chamados são inseparáveis, o chamado à “oração e à ação justa”, como põe o mártir protestante Dietrich Bonhoeffer, ao escrever na cela de sua prisão em 1944. A verdadeira oração purifica a motivação e a verdadeira justiça é a obra necessária de compartilhar e libertar nos outros a humanidade que descobrimos em nosso encontro contemplativo.

Aqueles que sabem ou se importam pouco com as instituições e hierarquias da igreja hoje em dia geralmente se sentem atraídos e desafiados pelas que exibem parte disso. São as comunidades religiosas novas e renovadas que mais vão em direção àqueles que nunca creram ou abandonaram a fé, tendo-a como vazia e velha. Quando a história cristã de nossa era for escrita, especialmente no que diz respeito à Europa e América do Norte, veremos quão central e vital foi o testemunho de lugares como Taizé e Bose, mas também de mais comunidades tradicionais que se tornaram pontos focais da exploração de uma humanidade mais ampla e profunda do que o hábito social encoraja.

E as grandes redes espirituais, Santo Egídio, os Focolares, a Comunhão e Libertação — esses também mostram o mesmo fenômeno; estes abrem espaço para uma visão humana mais profunda, porque em seus vários caminhos todos eles ofertam uma disciplina pessoal e vida comum que é sobre deixar a realidade de Jesus toma vida em nós.

E, como esses exemplos mostram, a atração e o desafio de que estamos falando pode gerar comprometimentos e entusiasmos por diversas linhas confessionais históricas. Nós nos acostumamos a falar sobre a importância imperativa do “ecumenismo espiritual” de nossos dias; mas isso não deve ser sobre de alguma forma contrastar o espiritual com o institucional, nem de trocar comprometimentos específicos por um senso geral de companheirismo cristão. Se nós temos um entendimento robusto e rico do que a palavra espiritual quer dizer, fundamentados sobre percepções escriturísticas como a da passagem de 2Coríntios que citei mais cedo, devemos entender o ecumenismo espiritual como a busca compartilhada de nutrir e sustentar as disciplinas de contemplação na esperança de desvelar a face da nova humanidade. E quanto mais nos mantivermos longes uns dos outros, menos convincente será essa face.

Citei o movimento dos Focolares: você se lembrará que o imperativo básico da espiritualidade de Chiara Lubich era “tornar-se um” — um com o Cristo crucificado e abandonado, um por ele com o Pai, um com todos os chamados a essa unidade e assim um com as mais profundas necessidades do mundo.

“Aqueles que vivem em unidade […] vivem ao permitirem a si mesmos adentrarem sempre mais em Deus. Eles crescem sempre para mais perto de Deus […] e o mais próximo que eles chegam dele, mais próximo chegam ao coração de seus irmãos e irmãs.”

O hábito contemplativo desnuda uma superioridade impensada com relação a outros crentes batizados e a presunção de que eu não tenho nada a aprender com eles. À medida em que o hábito da contemplação nos ajuda a abordar toda experiência como um presente, sempre devemos nos perguntar o que este irmão ou irmã tem para compartilhar conosco — mesmo o irmão ou irmã que está de algum modo separado de nós ou do que nós supomos ser a plenitude da comunhão. Quam bonum et quam jucundum

Na prática isso parece sugerir que, seja lá qual iniciativa estejam sendo tomadas para alcançar de novas formas os cristãos desviados ou o público pós-cristão, deverá haver um sério trabalho com relação a quanto dessa busca será fundamentada sobre alguma prática ecumênica compartilhada de contemplação. Além da forma impressionante em que Taizé desenvolveu ima cultura litúrgica “internacional”, acessível para uma grande variedade de pessoas, uma rede como a World Community for Christian Meditation (WCCM), com suas fortes raízes e afiliações beneditinas, tem oferecido novas possibilidades aqui.

Ademais, essa comunidade tem trabalhado duro para tornar a prática contemplativa acessível para crianças e jovens, e isso precisa receber o maior encorajamento possível. Tendo visto isso em primeira mão — em escolas anglicanas na Grã-Bretanha — quão ternamente as crianças respondem ao convite oferecido pela meditação nessa tradição, acredito que seu potencial para introduzir jovens às profundezas de nossa fé é realmente muito grande. E para aqueles que se distanciaram da prática regular da fé sacramental, os ritmos e práticas de Taizé ou da WCCM geralmente são um caminho de volta a esse lar e centro sacramental. 

O que as pessoas de todas as eras reconhecem nessas práticas é a possibilidade, falando de forma simples, de viver mais humanamente — viver com menos ganância inquieta, viver com espaço para a quietude, viver na expectativa de aprender, e, acima de tudo, viver com a ciência de que há uma alegria sólida e durável a ser descoberta nas disciplinas abnegadas, a qual é bem diferente da gratificação neste ou naquele momento.

A menos que nossa evangelização possa abrir portas para tudo isso, ela correrá o risco de tentar sustentar a fé com base num grupo de hábitos humanos não transformados. O resultado comum disso é que a igreja vem a se parecer infelizmente com instituições puramente humanas — ansiosa, ocupada, competitiva e controladora. Num sentido muito importante, a verdadeira empreitada da evangelização sempre será uma re-evangelização de nós mesmos como cristãos também, uma redescoberta de por que nossa fé é diferente, transfiguradora — uma descoberta de nossa própria nova humanidade.

E é claro isso acontece de forma mais efetiva quando não estamos nos planejando ou lutando para isso. Voltando a de Lubac: “Aquele que melhor responderá as necessidades de seu tempo é alguém que em primeiro lugar nunca buscou respondê-las”.“O homem que busca sinceridade, ao invés de buscar a verdade em abnegação, é como o homem que busca ser desapegado ao invés de entregar-se e abrir-se ao amor.”

O inimigo de toda proclamação do evangelho é a autoconsciência e, por definição, não podemos superá-la nos tornando mais autoconscientes. Precisamos retornar a S. Paulo e nos perguntar “Para onde estamos olhando?” Será que olhamos ansiosamente para os problemas do nosso dia, para as variações da infidelidade ou para a ameaça da fé e moral, para a fraqueza da instituição? Ou estamos buscando olhar para Jesus, para a face desvelada da imagem de Deus, em cuja luz vemos a imagem mais refletida em nós mesmos e em nosso próximo?

Isso simplesmente nos lembra que a evangelização sempre flui de outra coisa — da jornada do discípulo à maturidade em Cristo, uma jornada não guiada pelo ego ambicioso, mas que resulta de promover e invocar o Espírito para perto de nós. Em nossas considerações de como fazer novamente o evangelho de Cristo atraente para os homens e mulheres de nossa era, espero que nunca percamos de vista o que o torna atraente para nós mesmos, a cada um de nós em nossos diversos ministérios.

Então os desejo alegria nessas discussões — não apenas clareza e efetividade no planejamento, mas alegria na promessa da visão da face de Cristo, e no antecipação do cumprimento da alegria em comunhão uns com os outros aqui e agora.


Por: Rowan Williams. © Rowan Williams, 2012. Website: https://www.abc.net.au/religion/contemplation-and-evangelisation/10100254. Traduzido com permissão. Fonte: “Contemplation and evangelisation.”

Original: Contemplação e evangelização. © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Arthur Guanaes. Revisão: Guilherme Cordeiro Pires.

Imagem:  Unsplash

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores diretos, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.


[1] N. do T.: “Como é bom e agradável os irmãos viverem em união!” Sl 133.1.