3 de Dezembro, 2021 | Por admin

Como a pornografia nos desumaniza (Matthew Lee Anderson)

“Meu pai costumava dizer que, se não fosse pela pornografia, ele teria se tornado um serial killer”, Christ Offutt certa vez escreveu no The New York Times.

Segundo a história de Offutt, seu pai era tanto um consumidor ávido quanto um criador dessa tenebrosa mídia, que o tornou um dos romancistas pornográficos americanos mais prolíficos da década de 70. Mas ele também secretamente desenhou uma série de quadrinhos pornográfico, que Offutt relata, de maneira desapaixonada: “eventualmente se tornaram 120 livros, totalizando 4.000 páginas, retratando a tortura de mulheres”. Offutt rejeita a história que seu pai tentou lhe vender: “A ideia de que foi o pornô que evitou que ele matasse mulheres foi uma ilusão egoísta que justificou seu impulso de escrever e desenhar retratos de tortura”. Pelo contrário, Offutt pensa que seu pai se convenceu de que precisava de pornô para se salvar porque ele não conseguia aceitar o simples fato de que ele gostava disso.

Teóricos e sociólogos discutem pelos últimos 30 anos se a facilidade do acesso à pornografia torna a violência mais ou menos provável. A questão mais imediata, contudo, é por que alguém interessaria por tal conexão, em primeiro lugar. Não é preciso se posicionar quanto a se o pai de Offutt estava certo sobre os poderes da pornografia para salvá-lo de um caminho assassino. O fato de ele sentir uma profunda conexão entre pornografia e assassinato — entre a retratação de mulheres em poses sexuais gráficas e a destruição violenta de seus corpos — deveria ser suficiente para nos perturbar. Sexo ilícito e violência real podem estar mais conectados do que gostaríamos.

A pornografia mente

A pornografia engana. A sua apresentação sexualizada de pessoas humanas promete ao espectador o que ela não pode dar. Mas como a pornografia mente é difícil de perceber, talvez porque nossos olhos se cegaram por nossa frequente exposição a tal mídia. O consumo desenfreado de pornografia anestesia a mente: se nos entregamos com prazer à falsidade, perdemos a nossa capacidade de separar a verdade da ficção. O pecado tem um efeito crescente. As duas quimeras da confusão e da ignorância preservem o encanto de seus falsos prazeres. É mais fácil para quem afunda num redemoinho de enganos abraçar essa situação como “normal” ao invés de escapar.

A acessibilidade inescapável da pornografia e a corrosiva “pornificação” de todas as outras mídias significam que o desafio mais imediato para os cristãos é redescobrir como é se sentir puro. C.S. Lewis celebremente propôs que mediocridade espiritual é o mesmo que brincar com bolos de lama ao invés de aproveitar o final de semana na praia que Deus no oferece. A nossa situação é mais drástica, todavia: corremos o risco de esquecer o que a praia sequer oferece. O calor do sol que levanta nossos olhos e nossos corações para o céu se escondeu por causa da corrupção infértil de nossas paixões. A pornografia é a única atmosfera que conhecemos: ela coagulou nossos pulmões e não conseguimos parar.

Ouvimos da nossa sociedade que devemos aceitar a pornografia como o “novo normal” — o que é uma mentira extremamente perniciosa e eficaz. Offutt sugere que o segredo de seu pai “nasceu de vergonha e culpa”. Ele evita moralizar sua história, mas ele sutilmente sugere que seu pai gostava de imagens violentes em parte por causa do estigma associado a seu trabalho pornográfico mais “comum”. Caso ele simplesmente aceitasse que gostamos de pornografia — que a pornografia é normal —, tudo daria certo. Essa ideia é bem comum em nossa cultura, para dizer o mínimo, mesmo que Offutt não concorde com ela.

Na verdade, ultrapassamos tanto os limites da sexualidade que “negatividade sexual” é o único pecado que sobrou: qualquer tentativa de encontrar um fundamento moral para a sexualidade além de prazer e consentimento é simplesmente pudico demais, retrógrado demais para ser levado a sério em nossa era esclarecida. A pornografia é inescapável, portanto, ela precisa ser permissível. Não há outro caminho disponível para nós, muito menos um que seja “sobremodo excelente”.

Imaginar um mundo que não barateou a sexualidade humana, então, é o primeiro ato de resistência às muitas mentiras que a pornografia conta. Um mundo ou uma vida saturados por pornografia não é inevitável: não há nada no cosmos que diga que ela precisa ser um fator permanente de nossa experiência. Confessar isso e reconhecer nossa responsabilidade ao construir o mundo a nosso redor é tomar os primeiros passos de liberdade. Pela graça de Deus, podemos viver num mundo diferente do que o que agora conhecemos. Que tal pensamento seja tão alheio à maior parte de nossa sociedade revela quão frágil é o regime da pornografia: assim que começamos a contemplar o prospecto de uma vida diferente, todo o fajuto artifício que a torna atrativa cai em ruínas. Encontrar um “caminho sobremodo excelente” começa com lembrar que outra caminho é possível: um pensamento que a indústria pornográfica não quer que ninguém acredite de verdade.

A pornografia pode representar um desvio menos vicioso do que o do assassinato, mas parte dos mesmos impulsos destrutivos e desumanizantes. E comparar os dois desestabiliza nossa aceitação complacente e preguiçosa da pornografia como uma forma benigna e indolor de entretenimento. Isso nos choca porque o uso desenfreado de pornografia nos parece tão natural, tão inevitável. Isso nos assusta porque o mundo da pornografia já é o nosso mundo. O paralelo não é, e não pode ser, verdade. Mas é.

A morte do deslumbramento e a banalização do que importa

“Que o deslumbrar seja comum”, escreveu Shakespeare, “e atendamos à capela agora”. Este verso vem de sua peça Muito barulho por nada, o que é realmente uma história deslumbrante, para dizer o mínimo. Um rapaz acusa erroneamente a sua noiva de adultério e ela desmaia com a calúnia. Ele crê que ela está morta e angustiadamente se arrepende ao ver o seu erro. Tudo se conserta no casamento, onde ele se surpreende ao ver sua noiva viva e é disciplinado por sua oferta de perdão. O frei é aquele que nos instrui a todos sermos amigos do deslumbramento, desde que atendamos à capela para a sua devida formalização. Esse conselho vale a pena.

O caminho para ver como a pornografia nos desumaniza começa aqui, ao pensar sobre a morte do deslumbramento em nossos corações e em nossas vidas. Mas eu não falo sobre o deslumbramento com o sexo — ainda não, pelo menos. A morte do mistério nessa área é apenas mais uma manifestação de uma doença mais comum, uma pornificação de nossos olhos e de nossas mentes que se estende para além do domínio da estimulação sexual. Quer a pornografia seja culpada por esse problema mais geral, ou vice versa, pode ser debatido; meu único interesse é argumentar que o que acontece na pornografia não se limita ao sexo.

Considere por um momento as nossas práticas de ler ou assistir um “conteúdo” que nos entretém ou nos informa. As nossas mentes se acostumaram a estar apressadas e frenéticas, o que mantém nossa atenção estritamente na superfície das coisas. Quaisquer prazeres que podem vir da leitura precisam vir rápido (especialmente quando lemos online) ou desistimos da tarefa. Lemos correndo artigos e capítulos de livros, rapidamente os trocando para consumir o próximo bit de informação. Os nossos olhos pulam de foto em foto enquanto mexemos em nossos celulares na fila do mercado. Vamos de canal em canal, esperando o próximo espetáculo que possa capturar nossa atenção. A nossa vida é a de uma geração superficial, nos belos dizeres de Nicholas Carr. Dificilmente fazemos o esforço necessário para contemplar além do que está em nosso campo imediato de visão, nos empanturrando de superfícies e imagens até que finalmente nos casamos e eventualmente caímos no sono.

Essa cobiça sedenta da visão é conhecida classicamente como curiositas, curiosidade. Curiositas é uma inquietude do espírito e da mente, uma ansiedade instável que busca consumir novos espetáculos. Tais novidades agradáveis nos providenciam estímulos mentais baratos com quase nenhum esforço. Aquela momentânea visita ao Instagram “só para ver o que está acontecendo” nos dá um breve alívio das responsabilidades perante nós. Talvez não nos importemos com o que vamos encontrar; o que importa é que encontramos algo novo e fomos entretidos. A curiosidade fixa a nossa atenção nas “coisas da terra”, as coisas que são vistas, as coisas que podemos dispensar assim que acabarmos. Mas porque tais visões não têm profundidade elas nunca satisfazem. E porque elas são onipresentes elas precisam ficar cada vez mais ousadas. A única forma de prender a atenção do curioso é montar um placo, e sempre se superar a cada apresentação.

Uma sociedade animada por esse tipo de curiosidade terá dois sentimentos compatíveis e paradoxais.

Primeiro, ela tentará ver atrás da cortina e expor segredos sórdidos e sujos. A curiosidade almeja expor o que não deve ser conhecido. A imensa fascinação de nossa sociedade com os mínimos detalhes das vidas de celebridades — vidas que nunca teremos — pode parecer benigna. Mas o voyeurismo que leva alguém a vislumbrar em concupiscência pela janela opera segundo a mesma lógica, só que numa chave sexual. Nós buscaremos nossos espetáculos onde quer que possamos encontrá-los — e quanto mais secreto, melhor.

Segundo, a curiosidade diminui o tamanho de nosso estômago para aventuras mais sérias. “Vídeos fofos de gato não importam de verdade” dizemos — e é por isso que nossos interesse neles é danoso. A curiosidade presta atenção apenas à superfície. Ela não pode aguentar a matéria, a substância ou a profundidade diante de nós. A curiosidade está contente com a imagem; mas a atenção amorosa precisa de corpos. O curioso não tem a paciência necessária para uma consideração consistente, muito menos a abertura para a imersão total do deslumbramento arrebatador.

É fácil ver o espírito da curiositas em ação na pornografia. O pornô oferece o tipo mais encantador de espetáculo. Apresentações de indivíduos engajados em atos secretos de grande importância podem ser vistas, gozadas e descartadas sem investimento ou dor da parte do espectador. A qualidade rápida e dispensável da pornografia se adequa e alimenta a inquietude de quem a vê. Ela o leva a continuar navegando e caçando por aquela visão ou aquela cena que pode instantaneamente despertar suas imaginações. Tudo que importa é a superfície — e quanto mais provocante, melhor.

Não há espaço dentro da curiositas para o temor reverencial, para uma concepção de que há alguns mistérios que não são nossos para desvendar. A objeção cristã à pornografia não é motivada por um medo da sexualidade ou pela “negatividade sexual”, mas por um senso santificado de deslumbramento com a beleza do ser humano, plenamente vivo e plenamente revelado. E tais tesouros maravilhosos desejam ser secretos — o ocultamento é o habitat nativo da glória. Mas nossa curiosa sociedade há muito abandonou sua relutância de profanar os lugares santíssimos: o corpo em sua apresentação sexual agora é meramente mais um divertimento trivial feito para a satisfação de interesses momentâneos e passageiros, não deixando marca permanente na alma ou na sociedade. O sexo não importa mais — é por isso que ele não será mais divertido. Porque a comédia, a normalidade e a esquisitice mundana do sexo extraem sua energia e sua vida da contemplação encantada que nos tenta a nos ajoelhar em humildade casta perante a glória de outro ser humano. Não sendo mais sagrado, o sexo virou nada.

Obscenidades e a modéstia do desejo

Reflita por um momento em uma obscenidade. Conhecemos bem as opções. Tais palavras têm poder porque elas expõem violentamente o que normalmente está oculto. Efésios 5.12 sugere que é “vergonhoso até mesmo mencionar as coisas que eles fazem às escondidas”. A obscenidade pega tais questões e monta uma cena com elas, forçando o olhar de nossa mente entrar nas trevas do santo lugar. Quando a reverência morre, tais palavras perdem a sua força. A aceitação disseminada em nossas cultura de certas palavras pode ser explicada dessa forma.

A restrição de Efésios 5.12, contudo, expõe um problema para escrever sobre pornografia, um problema que também explica como a pornografia mente. Como cristãos, temos o dever de criticar a pornografia sem despertar os desejos ilícitos em si. Se formos explícitos demais, caímos no mesmo tipo de obscenidades que estamos denunciando — um problema em que pastores “fale a quem doer” às vezes caem.

Uma ambiguidade estratégica em questões de sexualidade é essencial para proteger o amor. Quem está apaixonado às vezes fica tão envolto nas suas brincadeiras com a pessoa amada que não percebem as paixões que se formam entre eles. Mas depois que o amor surge ele se deleita em preservar um cerne oculto conhecido apenas pelo casal. A primeira vez que casais contam suas histórias de noivado é um exemplo paradigmático. Normalmente há uma lacuna na história entre depois que ela diz “sim” que se preenche pelo altamente sugestivo “e depois falamos umas coisas uns pro outro”. Eles querem dizer, é claro, que eles beijaram intensa e furiosamente. E não podia ser diferente. Mas os amantes se deleitam em falar elusivamente sobre suas expressões mais íntimas. Nomeá-las diretamente acaba com a graça da brincadeira. Cantares é um livro carregado eroticamente precisamente porque não é um manual de sexo; ele esconde a intimidade sexual onde ela pertence: atrás do véu de metáforas, alusões e analogias.

A pornografia revela a inclinação natural do amor pela privacidade. Mas, ao fazê-lo, ela apenas pode retratar distorções do que é real. A pornografia é um caso exemplar do “paradoxo do observador”, que diz que o sujeito sob observação é inconscientemente influenciado pela presença de um terceiro. O paradoxo do observador mostra que a publicidade muda um evento: performar diante de uma audiência é um ato diferente do que fazê-lo em privado. O verdadeiro caráter do amor só pode ser conhecido por aqueles que o experimentam em primeira mão. Ver um ato de amor de fora não nos permite ver o que pensamos estar vendo: se o amor está realmente presente, ele só pode ser sentido e conhecido dentro dos rostos e dos corpos daqueles que participam. Até os pornógrafos entendem isso, por isso que o pornô de realidade virtual e robôs de sexo estão no futuro (próximo) de nossa sociedade: eles prometem simular o caráter face-a-face do desejo sexual melhor que a tela de um computador.

E podemos desenvolver esse ponto: o que acontece dentro de um quarto inobservado é necessariamente diferente para o próprio casal do que quando uma câmera está presente. O caráter face-a-face do desejo não foi feito para ser exibido, mas usufruído. Amantes que filmam sua própria atividade sexual para seu gozo privado posterior permitem que a estrutura e a lógica da pornografia determinem a sua própria união — mesmo se forem casados. E eles não gravam o seu amor, mas apenas uma imitação sutilmente distorcida dele, na medida em que introduzem uma disposição de sua parte para serem vistos pelo lado de fora — mesmo se forem os únicos que estão assistindo. Essa mímica pode parecer, superficialmente, pura exibição de intimidade matrimonial. Mas quando vamos para além da superfície fica claro que uniões matrimonias podem se render ao pornográfico, mesmo se não produzirem ou virem pornografia comercial.

Portanto, a pornografia mente ao imitar os prazeres e os sacrifícios do amor, e os destrói no processo. Mas a morte pode imitar a vida convincentemente por apenas um tempo. Estamos avançando rápido até a pornografia destruir triunfantemente o romance que outrora guardava e preservava nossos relacionamentos. Ao tornar o mistério central da sexualidade humana numa exibição pública, a  pornografia mina as regras e as convenções que tanto honram o sexo quanto tornam o pecado possível. Quando o prazer sexual assume o trono de nossos corações, romance é a inevitável vítima. Romance e casamento exigem esforço demais, enquanto o sexo e a pornografia estão a um clique. Os finais felizes de Hollywood podem ter nos feito acreditar rápido demais que o casamento é simples e sem esforço — mas eles também eram uma das últimas fortalezas contra a degradação banal do sexo. A mente pornificada não pode resistir com o adorno das preliminares, muito menos com a busca paciente e constante do cônjuge. Embora tais fardos deem mais significado ao ato, eles tomam tempo e energia para serem sustentados. Por que se importar, desde que os prazeres fáceis da pornografia estão a mão?

Objetificação e pornô

O sexo industrializado lucra com orgasmos, o que significa que eles precisam ser baratos. E assim a indústria manufatura prazeres com custos tão pequenos ao produtor ou ao consumidor quanto possível. Tempo é dinheiro: o pai de Offutt “escreveu” seus “romances” em pouco menos que três  dias. E a mão de obra é abundante. Mulheres no pornô são extremamente descartáveis; elas têm “durabilidade” de apenas alguns poucos anos, se é que elas sobrevivem para além da primeira exposição. E as mulheres reais logo se tornarão irrelevantes para o processo, de qualquer forma. O pornô criado por imagens de computação gráfica será barato e fácil de produzir, torando um pornô “sem vítimas” uma possibilidade real.

Mas é com os orgasmos da audiência — e não dos atores — que dão dinheiro aos pornógrafos. O homem que vê pornografia se torna ele próprio o produto: a indústria busca o prazer dele, a satisfação dele importa mais do que tudo. Os homens e as mulheres que atuam diante de uma audiência se tornam os objetos da gratificação de sua audiência; mas a ironia amarga e avassaladora da indústria pornográfica é que, ao buscar tal prazer, a audiência objetifica a si mesma ao se tornar um produto numa transação comercial. O pornô corrompe todos envolvidos nele, mas os principais afetados são os seus clientes — pois eles são os tapados que não percebem que o jogo está com cartas marcadas contra eles.

Onde está o espectador de pornografia quando ele vê uma cena e por que o excita? Normalmente, o desejo sexual busca reciprocidade: a excitação acontece quando somos atraídos não apenas a uma pessoa bonita, mas quando notamos que tal pessoa está recebendo e retornando nosso interesse. Nós desejamos ser desejados e o desejo sexual é o nosso reconhecimento corporal de que somos desejados numa forma semelhantemente corporal. A pornografia comercializa a esperança de que seremos desejados: acreditamos que a mulher olhando de volta para nós nos quer, que ela é “nossa” da forma que uma esposa um dia poderia ser (muitas dessas afirmações são melhor desenvolvidas em Desejo sexual de Roger Scruton). 

Logo, quem vê pornografia se coloca imaginativamente dentro da cena. Há uma espécie de “empatia” acontecendo nessa observação, uma autoidentificação que acontece entre nós e os personagens retratados. A audiência de Rei Lear sente toda a angústia dele ao se enxergar nos erros de Lear e no seu próprio declínio à medida que esclarece seus próprios desafios.  Mas essa identificação empática significa que ver nunca é neutro: observar enrosca nossas vontades ao nos apresentar um ponto de vista e exigir que o aceitemos ou o rejeitemos. Se temos prazer quando os personagens na ficção erram, então realmente estamos errando. A autoidentificação entre o espectador e o personagem é o que torna a pornografia chamativa e o que a torna ruim: imaginar-nos nesses cenários é um ato com carga moral, na medida em que nossas vontades afirmam os atos enquanto eles acontecem. A pornografia é nada menos que banal moralmente.

Mas essa identificação do eu com o que estamos vendo revela a cobiça cara, irrestrita e narcisista no coração do mundo pornográfico. As mulheres que nos olham das telas não simplesmente nos querem, mas desejam também as versões mais fantásticas e delirantes de nossos egos. Para montar a ficção que elas desejam, precisamos (ao menos instantaneamente) pensar que somos desejáveis. Tal desejo irracional e infundado somente sobrevive ao se alimentar de quem mente — assim a apresentação de uma mulher aumenta para duas e daí nasce o harém.

Por trás da pornografia está a suposição de que o mero fato de desejarmos uma mulher nos torna dignos dela. Assim, não sendo presos por nenhum tipo de norma, o desejo deve prosseguir sem fim. Não é surpresa que o sexo industrializado, fácil-e-barato da pornografia tem respondido e evocado uma cobiça sexual quase irrestrita, que nos permite sermos deuses e deusas dentro da segurança de nossas fantasias. É por razões profundas e importantes que o Decálogo usa a linguagem econômica de “cobiçar” para descrever a maldade de desejos sexuais errôneos.

A imaginação empática de si numa cena pornográfica, contudo, converte os outros participantes em meros objetos e instrumentos de nossa própria satisfação. Para que servem todos os outros personagens na cena? Para nada senão nosso bel-prazer. A pornografia reduz a conversa e o relacionamento de um desvelamento íntimo de nossa pessoalidade para uma etapa irritante no caminho expresso para o prazer sexual. Histórias elaboradas e sofisticadas funcionam como pouco mais do que preliminares estendidas para o pornográficos. E todos os participantes desaparecem quando a nossa recompensa chega. Clicamos numa nova página, desligamos o robô sexual para almoçar, fugimos furtivamente da prostituta e voltamos a nossas vidas “reais”. Os cenários são diferentes; a lógica é a mesma. Em cada caso, a mulher é nada mais que um instrumento para nossos prazeres fantásticos — ela é uma ferramenta que descartamos assim que encontramos um dispositivo mais satisfatório. As pessoas na pornografia não são mais insubstituíveis que garfos de plástico — se quebrar ou não servir mais, troque por outro e nenhuma ofensa será (abertamente) feita.

A pornografia não é ruim porque ela causa adultério. Pelo contrário, ela é ruim porque o usuário age como se cometesse adultério. A pornografia é estimulante porque nos imaginamos em atos sexuais que não envolvem nossos cônjuges. O uso da pornografia significa que o cônjuge é fungível ou substituível com relação à atividade sexual, uma atividade central para o formato e o significado do casamento. E isso é verdade mesmo se não percebermos o que estamos fazendo. É possível cometer grandes erros sem saber, ou sequer tencioná-los. O casamento é a união de apenas duas pessoas e mais ninguém — a pornografia substitui um membro, reduzindo-o de um parceiro igual a um instrumento de gratificação pessoal.

Pessoalizando o mundo

A pornografia é matar com o coração. Isso é forte demais? Ou precisamos usar tal linguagem para nos acordar do sono de injustiça em que vivemos? Talvez, se nossos olhos forem capazes de romper a neblina de poluição da nossa sociedade pornificada, veremos como a mão lenta e firme da Morte está operando ao nosso redor. Talvez acordaremos para o terror daqueles que sabiam o que era santidade. Talvez reconheçamos a profanação do templo do Deus vivo de que somos cúmplices todos os dias e oraremos pedindo misericórdia ao Senhor.

Reduzir a pessoa humana a um instrumento para nosso prazer é desejar em nossos corações que elas não existam simplesmente como pessoas. Se acreditamos que seres humanos podem ser substituídos por robôs sexuais ou pornografia de realidade virtual, de que eles servem, exatamente? Pessoas são centros independentes de agência, com suas próprias vontades, mentes e faculdades racionais. Elas não podem ser trocadas, como se fossem figurinhas, com base em uma nos dar mais prazer sexual que outra. Fazê-lo viola a natureza de sua humanidade. A pornografia, repito, é uma forma de matar dentro do coração.

É por isso que, eventualmente, a pornografia obscurece ou viola os rostos das mulheres que são atraídas para ela. É dos olhos e da boca que fluem as palavras, as músicas, os poemas e todas as marcas que tornam humanos mistérios. Mas, à medida que a pornografia progride, a pessoa é apagada. O lugar de sua presença pessoal é reduzido a um receptáculo de nossas fantasias projetadas. Scruton escreveu: “Na pornografia, o rosto não tem papel a desempenhar a não ser se sujeitar ao império do corpo”. 

Contra tal violência, só podemos responder como Shakespeare: “O mundo precisa ter pessoas!” A pornografia despessoaliza o mundo. Eu mencionei que ela depende da pretensão de que os outros seres humanos são instrumentos de nosso prazer. Mas tornar as pessoas em ferramentas nos permite fingir que não temos obrigações com elas, que elas não têm reivindicações sobre nós. Não há contraste mais agudo a tal vida do que bebês, que mostram alegremente quão flagrante é sua indiferença aos prazeres de seus pais. Os pais amam esses seres humaninhos em parte porque eles são pacotes pequeninos e adoráveis de obrigações. Uma sexualidade apropriadamente ordenada dará frutos — em filhos, sim, mas também em ser empoderada pelo Espírito para alegremente receber outros pacotes humanos de necessidades em nossas vidas, mesmo se não formos casados. O mundo precisa ter pessoas — precisamos ser pessoas no mundo, servindo uns aos outros. A pornografia é um obstáculo a isso.

“Que o deslumbrar seja comum e atendamos à capela agora”. Pela confissão e pelo arrependimento, pela renovação e pelo perdão, pela maneira que tratamos uns aos outros — uma maneira da qual todosparticipamos — e, acima de tudo, pela esperança do evangelho. Fomos restaurados como pessoas na palavra da graça, libertodas da escravidão à “inevitabilidade” de nossos pecados. Na cruz de Cristo, toda vida humana encontra um valor inestimável. Cristo morreu por todos (2Co 5.14-15)! Como então não encontraremos uns aos outros com uma reverência casta e santa, com um temor e tremor santificados que são marca de nossa salvação? As vidas daqueles que fazem e consomem pornografia carregam a marca, a imagem de Jesus Cristo. Quando finalmente os vermos como são, com os olhos claros da pureza, provaremos ou adoração por sua majestade ou angústia por sua corrupção. Que tal deslumbrar seja comum: nele está a fonte de nossa esperança.


Por: Matthew Lee Anderson. Website: https://www.thegospelcoalition.org/article/pornography-human-humane/ © Matthew Lee Anderson, 2019. Traduzido com permissão. Excerto do livro WALKER, Andrew & MOORE, Russell (eds.) The gospel and pornography. B&H Books, 2017.

Original: Como a pornografia nos desumaniza. © The Pilgrim. Website:  thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Guilherme Cordeiro Pires.

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direito, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.

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