21 de Dezembro, 2021 | Por admin

Confie, corra e descanse (Jordan Raynor)

“Não digam, pois, em seu coração: ‘A minha capacidade e a força das minhas mãos ajuntaram para mim toda esta riqueza’. Mas, lembrem-se do Senhor, o seu Deus, pois é ele que dá a vocês a capacidade de produzir riqueza, confirmando a aliança que jurou aos seus antepassados, conforme hoje se vê” (Deuteronômio 8:17-18, NVI).

“Correria” deve ser um dos jargões mais populares na cultura de startup atualmente. Investidores (aqueles tipo do Shark Tank) pressionam os empreendedores a “correr” mais para gerar vendas. Todo mundo parece estar correndo com o seu “freela” ao lado de seu trabalho regular. Mas o que a Bíblia diz sobre a nossa correria? Por um lado, a Escritura claramente celebra o trabalho duro. Colossenses 3.23 ordena: “Tudo o que fizerem, façam de todo o coração, como para o Senhor, e não para os homens”. Mas, embora os cristãos possam concordar com a celebração cultural do trabalho duro, também precisamos lidar com a verdade bíblica de que é Deus, e não nossa correria, que produz resultados (Dt 8.17-18). Como cristãos, precisamos abraçar a tensão entre trabalho duro e confiar em Deus a fim de encontrar verdadeiro descanso. 

Josué 6 oferece um exemplo excelente do que seria abraçar bem esta tensão. Embora os israelitas estejam sendo levados por Josué à Terra Prometida, eles chegam a um grande impasse: a aparentemente impenetrável cidade de Jericó. Como Josué 6.2 relata, “Saiba que entreguei nas suas mãos Jericó, seu rei e seus homens de guerra”, mas, em vez de dar a Josué e aos israelitas uma força e uma destreza sobre-humanas para conquistarem Jericó sozinhos, Deus exigiu que colocassem uma quantia insondável de confiança nele. Deus instruiu Josué a conduzir os israelitas numa marcha de sete dias ao redor de Jericó, concluindo com um grito ensurdecedor contra as muralhas da cidade.

Como tantas outras vezes na história, Deus escolheu usar “as coisas tolas do mundo para envergonhar as sábias”. Ao invés de permitir que Josué e os israelitas vencessem a batalha com sua própria força, Deus fez um plano para garantir que somente ele teria a glória. Antes de dar a vitória aos israelitas, Deus pediu que eles confiassem nele para prover. Sem piscar, Josué fez exatamente isso. Os israelitas confiaram no plano de Deus. Então, eles correram: marchando, soprando suas trombetas e gritando até que a muralha de Jericó ruiu.

É claro, não foi a marcha, o grito e o correr dos israelitas que derrubaram a muralha de Jericó. Foi Deus. E é exatamente isso que eu acho que Deus quer que os israelitas e nós vejamos. O nosso trabalho duro é bom! Mas crer que nossa correria é a responsável por resultados em nosso trabalho deve ser como os israelitas acreditarem que foi o grito deles que destruiu uma fortaleza impenetrável. 

Como Josué e os israelitas nos mostram, não deveríamos buscar resolver a tensão entre confiar e correr; na verdade, devemos abraçá-la. Essas ideias não se contradizem, elas se casam. Mas, como Salomão disse em Provérbios 16, há uma sequência entre confiar e correr que honra ao Senhor e nos dá verdadeiro descanso. É esta passagem que veremos a seguir.

O que Salomão tem a dizer sobre confiar em Deus em nosso trabalho

“Consagre ao Senhor tudo o que você faz, e os seus planos serão bem-sucedidos” (Provérbios 16.3, NVI)

Por toda a Escritura, lemos que é Deus, e não nós, que produz os resultados por meio de nosso trabalho. Por exemplo, 1Crônicas 29.12 diz: “A riqueza e a honra vêm de ti; tu dominas sobre todas as coisas”. Numa era em que qualquer um pode começar uma empresa, escrever um livro ou gravar um podcast, pode ser tentador pensar que é a nossa correria que produzirá resultados por meio de nossos esforços. Como veremos a seguir, Deus ordena que trabalhemos e usa nosso trabalho duro para produzir resultados por meio de nós. Mas, ao começarmos uma nova empreitada, precisamos começar por reconhecer o fato indisputável de que os resultados se devem, em última instância, ao Senhor.

Em Provérbios 16, Salomão traça uma sequência de confiar, correr e descansar que deveria marcar toda empreitada que cristãos lançam. No terceiro versículo da passagem, o homem mais sábio que já viveu ordena: “Consagre ao Senhor tudo o que você faz, e os seus planos serão bem-sucedidos”. Então, antes de corrermos, devemos consagrar nosso trabalho ao Senhor. Como seria isso, na prática?

Para começar, decoraríamos versículos assim para nos lembrar continuamente de que é Deus, e não nós, que produz os resultados. Em segundo lugar, nós consagramos o nosso trabalho ao Senhor quando oramos e verbalizamos nossa confiança nele. Finalmente, além de verbalizar nossa confiança em Deus para nós e para Deus, é importante verbalizarmos essa confiança aos que estão ao nosso redor. Numa cultura que celebra a capacidade de “andar com as próprias pernas”, nós cristãos seremos separados do mundo quando explicitamente reconhecermos que é Deus, e não nós, que é responsável por produzir resultados por meio de nosso trabalho.

Porém, como veremos a seguir, confiar é apenas uma peça do quebra-cabeças. A fim de sermos instrumentos efeitos nas mãos de quem nos chamou, devemos correr atrás em nossa vocação.

Levante e corra

“Em seu coração o homem planeja o seu caminho, mas o Senhor determina os seus passos” (Provérbios 16.9, NVI)

Estamos explorando a tensão que precisamos abraçar como cristãos em nosso trabalho: entre confiar em Deus e correr para fazer as coisas acontecerem em nossa vocação. Como vimos anteriormente, Salomão estabelece uma sequência para orientar nosso pensamento aqui, começando com a consagração de nosso trabalho ao Senhor (Provérbios 16.3). No versículo nono do mesmo capítulo, Salomão nos exorta a correr, dizendo: “Em seu coração o homem planeja o seu caminho, mas o Senhor determina os seus passos”.

Sim, Deus nos chamou para confiarmos nele, mas ele também graciosamente nos deu nossas mentes para planejarmos e executarmos. Depois de consagrarmos nosso trabalho ao Senhor, somos chamados a correr, a trabalhar “de todo o coração, como para o Senhor” (Colossenses 3.23).

Muitas vezes, temo dizer que nós cristãos focamos demais em ou confiar ou correr. Alguns cristãos usam a ideia de “esperar no Senhor” como uma desculpa para uma preguiça antibíblica, enquanto outros correm tanto que acabam perdendo saúde física, espiritual e emocional. A beleza de Provérbios 16.9 é que o texto claramente abençoa a tensão entre essas duas verdades. Sim, precisamos reconhecer que “o Senhor determina” os nossos passos, mas também é bom e legítimo “planejar o nosso caminho”, montar, construir, desenvolver, estruturar, pintar, inovar, escrever, promover e vender.

O nosso trabalho é uma das formas primárias pelas quais amamos nosso próximo e servimos ao mundo. Lembre-se, o trablaho existia antes da queda no Jardim do Éden. O trabalho é um bem intrínseco planejado por Deus para revelar seu caráter, amor e para servir ao próximo. Por causa disso, a ambição em nosso trabalho como motivação de nossa correria pode ser boa. Mas, como veremos a seguir, é somente quando nossa correria é acompanhada por confiar em Deus que encontramos verdadeiro descanso.

A cura da inquietude

“A sorte é lançada no colo, mas a decisão vem do Senhor” (Provérbios 16.33, NVI)

Vimos que confiar é o ato difícil, mas simples, de reconhecer que não somos responsáveis por produzir resultados por meio de nosso trabalho — Deus é o responsável. Depois de darmos esse primeiro passo tão importante, é certo correr, suando com nossos talentos dados por Deus para cumprir nossa vocação. Mas como sabemos que estamos tanto confiando quanto correndo? Correr é fácil de saber. Basta olhar a caixa de entrada de nosso email, nossas listas de afazeres e nossas mentes agitadas. Mas como sabemos que estamos verdadeiramente confiando em Deus, ao invés de nós mesmos, para produzir os resultados? Talvez o melhor indício é se estamos descansando ou não. 

Descanso é o que todos restamos buscando. Não demora muito para perceber que descanso significa mais do que passar mais tempo fora do escritório. Com a linha entre trabalho e lar cada vez mais tênue, pode parecer impossível se desconectar física e mentalmente das demandas da produtividade incessante. Mesmo quando estamos em casa, checamos nossas mensagens, email, Instagram, agenda, etc. É o que sempre fazemos. Estamos inquietos. 

Como podemos encontrar o descanso que tão desesperadamente ansiamos? Santo Agostinho dá a resposta: “os nossos corações estão inquietos, até encontrarem descanso em ti”. Nós não teremos descanso até que repousemos em Cristo somente. Isso significa que, embora certamente devamos correr, precisamos primeiro confiar no Deus que, ao longo da história, foi fiel para prover para o seu povo. Se podemos confiar no caráter de Deus e guardar bem os talentos que ele nos deu, podemos descansar sabendo que os resultados estão nas mãos dele, que ele está no controle e está fazendo tudo cooperar para nosso bem. Nas palavras de Salomão em Provérbios 16.33: “A sorte é lançada no colo, mas a decisão vem do Senhor”.

Esse é o único caminho para o verdadeiro e profundo descanso comportamental, mental e espiritual, e começa com nossa submissão à arte pintada por Deus do sábado. Nas palavras de Timothy Keller: “Podemos pensar no sábado como um ato de confiança. Deus fez o sábado para nos lembrar de que ele está trabalhando e descansando. Praticar o sábado é uma forma disciplinada e fiel de lembrar que não somos quem mantém o mundo de pé, quem provê para a família, nem mesmo quem faz os projetos de trabalho andarem”.

Por que é tão importante gerir bem a tensão entre confiar e correr? Porque, no final das contas, quando confiamos em nossa correria do que em Deus, estamos ou tentando ser Deus ou roubar a glória dele, e de todo modo estamos inquietos. Cristão, anime-se! Esses mandamentos bíblicos não estão em conflito entre si. Você foi chamado a confiar em Deus e trabalhar duro. E, quando abraçamos essa tensão, podemos descansar bem sabendo que estamos na parceria correta com Aquele que nos chamou.


Por: Jordan Raynor. Website: https://jordanraynor.com/twbw/#carpenter. © Jordan Raynor, 2021. Traduzido com permissão. Fonte: Trust, hustle and rest

Original: Confia, corra e descanse. © The Pilgrim. Website:  thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Guilherme Cordeiro Pires.

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