Apostasia e Graça: encontrando Deus no Silêncio

Gabriel Pacheco

Gabriel Pacheco

imagem de montanhas e um templo no Japão

17 jun. de 2022

|

7 minutos de leitura

Este texto contém spoilers de Silêncio – tanto o livro de Shusaku Endo quando o filme Martin Scorsese. Mas eu te garanto que eles não irão estragar a sua experiência. Filme bom não depende de surpresa para manter sua qualidade narrativa.

Nessa ânsia cognitivista de reduzir a realidade a teorias, somos tentados a decifrar a transcendência e colocá-la em palavras. Nem preciso entrar em uma longa argumentação para provar que isso não passa de ilusão utópica. Deus não cabe em sua caixinha! No entanto, embora o raciocínio lógico não dê conta do recado, a nossa imaginação surge como possibilidade de expressão. Sim: através da estética, somos capazes não de explicar a realidade divina — óbvio —, mas de alcançar um vislumbre do que ela nos provoca.

Diante da glória, ficamos sem palavras. E é através da experiência estética, não da lógica, que Silêncio tenta nos apresentar as verdades eternas. A obra não é fácil de ser assistida: é devastadora. Para alguns, é uma ofensa imperdoável, quase do tamanho daquela provocada por Scorsese em A Última Tentação de Cristo, que levou um grupo de cristãos a incendiar um cinema. Em Silêncio, somos confrontados por duas realidades dolorosas: o martírio e a apostasia. Não sei qual dos dois é pior. O filme também não sabe.

  • A relutância de Kichijiro

Na história, somos introduzidos à aventura dos padres Rodrigues e Garupe, dois missionários portugueses em direção ao Japão do século XVI. Este não é qualquer fascículo irrelevante do panorama japonês, mas um período de extrema perseguição aos cristãos. O exército budista ia até as vilas, identificava os crentes e obrigava-os a pisar na fumi-ê, uma placa de bronze com imagens de Cristo ou Maria. Caso pisassem, eram libertos, pois, supostamente, teriam negado a sua fé. Se não, eram mortos de formas brutais na frente de seus familiares e vizinhos.

Estava circulando pelos mosteiros o rumor de que o professor de Rodrigues e Garupe, padre Ferreira, havia apostatado. Incrédulos, seus dois alunos decidem ir até o Japão para averiguar se essa história era verdadeira. Aproximando-se do país, são introduzidos a Kichijiro, alguém que, na mentalidade de Rodrigues, se encaixaria perfeitamente na descrição do Salmo 22:6: “sou verme e não homem”. O japonês torna-se, então, o guia rumo à terra desconhecida.

O que os padres vão descobrir, com o passar dos dias, é que Kichijiro é um traidor: de sua fé e de seus amigos. Ele havia pisado na fumi–ê, mas sua família não pisou. Assistiu, então, o fogo consumir seus pais e irmãos. Depois dessa experiência traumática, buscava um sacerdote com quem pudesse fazer a confissão e se redimir. A presença dos padres na vila era a sua salvação! Mas, logo depois, os guardas aparecem, forçam-no a pisar na placa, e Kichijiro pisa.

Ele foge, mas reencontra Rodrigues e roga pelo seu perdão, que é concedido. O padre, no entanto, o considerava uma criatura miserável, e chega a orar aos céus:

Senhor, como podes amar alguém como ele?

Rodrigues tinha, em seu imaginário, a concepção de que estava naquela ilha para sofrer. Ele veio em missão, e estava disposto a dar todo o seu sangue por amor ao seu querido Cristo, conteúdo dos seus sonhos e reflexões. Ele chega ao ponto de, ao ver o seu reflexo na água, enxergar o rosto de Nosso Senhor sobre o seu. E então é capturado. Como? Kichijiro o havia denunciado. Um padre valia 300 moedas de prata. “Senhor, fostes vendido por muito menos”, Rodrigues pondera.

  • Ore de olhos abertos

Quando o padre é preso (ele e Garupe estavam separados já há algum tempo), somos introduzidos a uma profunda reflexão sobre a graça. Na prisão, encontra finalmente o seu antigo professor, padre Ferreira — que agora não era mais padre, mas um monge budista. Rodrigues, escandalizado, não entende o motivo daquilo. E, em muito sofrimento, passam horas conversando.

Em um momento do filme, o padre escuta um rosnado e pede para os guardas calarem o cachorro que estava fazendo o barulho, mas Ferreira o mostra: “não é um animal, são os cristãos dependurados de cabeça para baixo na fossa. Um pequeno corte era feito em seus pescoços para que, com o sangue descendo, não morressem tão rápido. E o monge fala, então, o que para mim é um dos pontos mais marcantes de toda a obra:

Quer orar? Ore. Mas ore de olhos abertos.

Isso porque, até o momento, tudo o que Rodrigues havia contemplado fora feito de olhos fechados. Ele não estava olhando para a realidade ao seu redor. Ele mesmo não sofrera martírio. Pelo contrário, fora, em todos os momentos, muito bem tratado pelos guardas budistas, mesmo sendo um prisioneiro. Os cristãos japoneses, no entanto, sofriam profundamente, e Rodrigues era incapaz de olhar para fora de si.


"Silêncio não é sobre o silêncio de Deus. É sobre a voz de Deus em meio ao sofrimento e ao silêncio."


Rodrigues fica refletindo em sua cela, solitário, até que escuta:

Padre, padre, eu vim confessar.

Era Kichijiro. O padre, com muito desgosto, o absolve e, pouco tempo depois, o traidor pisa na placa novamente. Judas. Esse não tem salvação.

Vale destacar que, até esse momento, o filme não teve quase nenhuma trilha sonora, representando o silêncio na alma de Rodrigues. É então que ele é levado para pisar na fumi-ê. Diante da placa, escuta:

Venha. Está tudo bem. Pode pisar em mim. Eu entendo a sua dor. Eu nasci nesse mundo para compartilhar da dor dos homens. Eu carreguei esta cruz por sua dor. A sua vida está comigo agora. Pise.

E Rodrigues, atordoado de sofrimento e angústia, pisa em Jesus.

Um bom tempo se passa, e o padre não é mais padre, é monge. E, no mosteiro, quem aparece? Isso mesmo, Kichijiro novamente. E ele vem para confessar. Mas agora Rodrigues não o pode fazer. Não é mais sacerdote. Ele também traiu a sua fé. Mas o japonês implora e o ex-padre o perdoa. Ao meu ver, Kichijiro obteve o seu perdão celestial lá atrás, na primeira confissão. Mas, agora, ele estava em busca do perdão do Padre, que até então não havia sido concedido. Só agora, quando Rodrigues se vê na mesma posição de Kichijiro, que ele é capaz de perdoá-lo verdadeiramente. E assim o faz.

  • A voz de Deus

Silêncio é um filme difícil de assistir porque nós não aceitamos ver o nosso herói se tornar um apóstata. A primeira vez em que assisti, fiquei boquiaberto por alguns minutos. Só depois, lendo o livro, que fui entender uma nova perspectiva. Silêncio é uma obra misteriosa, afinal, como Scorsese escreveu,

(...) é a história de um homem que aprende — tão dolorosamente — que o amor divino e mais misterioso do que imagina.

Só que a dor que o livro e o filme trazem não atinge somente o personagem, mas também a nós. Quando lemos, Endo nos convida a julgar Kichijiro da mesma forma que Rodrigues faz. Temos a tendência de construir heróis e vilões em nosso imaginário, mas, como afirma Makoto Fujimura,

(...) ao fazer isso, nós caímos na falsa dicotomia de ver a fé apenas em termos de vitória e fracasso, o que nos leva a ignorar e descartar o fraco.

O cristianismo não tem a ver com performance, mas nós insistimos nisso o tempo todo. Não é sobre ser o melhor: é sobre Cristo, que foi o melhor. E a nossa fé contempla a graça. O fundamento dela é a graça. É por isso que Endo se chama de Kichijiro em várias de suas palestras. O personagem representa os “filhos de fé fraca”. Não somos os heróis, apesar da nossa tendência de nos vermos assim. Fomos os vilões e, agora, aqueles que estão seguindo o herói, mas que ainda erram pelo caminho. Rodrigues se via como Cristo: o mártir, o seu reflexo, as 300 moedas de prata… E, com isso, enxergava Kichijiro como Judas. Mas não é esse o caminho.

Silêncio não é sobre o silêncio de Deus. É sobre a voz de Deus em meio ao sofrimento e ao silêncio.

Arte e Fé

Makoto Fujimura

Arte e Fé

R$34,90

Original: Escrito por Gabriel Pacheco

Imagem de Unsplash

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Revisão: Maurício Avoletta Júnior

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direitos, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.


Gabriel Pacheco

Gabriel Pacheco

Co-fundador e diretor criativo do Efeito Prisma. Designer e membro da Igreja Central, em Belo Horizonte.


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