Um coração avivado pelo sofrimento

Gustavo Arnoni

Gustavo Arnoni

27 abr. de 2022

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7 minutos de leitura

Senhor, tu me enganaste, e eu fui enganado; foste mais forte do que eu e prevaleceste. Sou ridicularizado o dia inteiro; todos zombam de mim. Sempre que falo, é para gritar que há violência e destruição. Por isso a palavra do Senhor trouxe-me insulto e censura o tempo todo. Mas, se eu digo: "Não o mencionarei nem mais falarei em seu nome", é como se um fogo ardesse em meu coração, um fogo dentro de mim. Estou exausto tentando contê-lo; já não posso mais! (Jeremias 20.7-9)

Dias atrás recebi uma mensagem de um amigo. Ele me contou que a luta que enfrentamos com nosso filho serviu de gatilho para um sofrimento que estava escondido em seu coração. Meses atrás, ele perdeu sua sobrinha, com 3 anos de idade. A mãe da criança, sua irmã, entrou imediatamente no processo de luto. Como ela possuía outra filha, de 4 anos, ele precisou atenuar o impacto da perda na família e cuidar da menina. Passaram-se os meses e, conforme sua família começou a se recuperar, ele começou a, finalmente, vivenciar o luto. O processo do luto foi acompanhado por uma profunda crise de fé.

Uma criança de 3 anos falecer por leucemia? Por que, Deus?

É uma dor que poucos de nós conseguimos projetar. Eu não consegui oferecer uma resposta ao seu luto.

Por mais tentador que seja desenvolver fórmulas cristãs para lidar com a morte, o fato é que cada pessoa vivencia o luto e a dor de forma particular. O vício evangélico de querer responder a tudo com frases prontas pode massacrar a pessoa que está sofrendo. A morte é uma ruptura, uma violência contra a existência, um inimigo que só pode ser derrotado com a morte do filho de Deus. Portanto, sugerir uma digestão fácil é uma violência contra o enlutado. O próprio Cristo lidou com os efeitos da morte chorando no túmulo de seu amigo (João 11:33-35).

Uma das coisas que recordei a esse meu amigo, foram as profundas brigas com Deus que tive no processo de adoecimento e piora do meu filho. Para mim, parecia inadmissível o criador dos céus e da terra, dono da vida, permitir que uma criança chegasse a um estado de desnutrição severa devido ao pouco caso do instituto de assistência médica ao qual estamos vinculados.

Me lembro um dia, andando de moto em alguma avenida, que eu gritava e chorava intensamente com Deus, absolutamente revoltado com a situação – imagino os motoristas preocupados se haviam me fechado no trânsito ou algo do tipo. Choro, grito, lágrimas e lamentos desenterrados em um coração esmagado pela dor. Na época, eu havia lido um livro de Nicholas Wolterstorff chamado Lamento. Uma das ideias centrais do livro é a recuperação do lamento no cristianismo contemporâneo. Perdemos de tal modo a visão do lamento que nos chocamos quando vemos um salmo imprecatório na Bíblia. Parece que não é muito “santo” para estar lá.

A recuperação do lamento foi justamente o caminho que percorri na direção da revitalização espiritual. Gritar com Deus significa, mesmo em profunda revolta, se prostrar diante dele. Como Jacó, não deixamos Deus ir embora; queremos lutar e vencê-lo. Ele, porém, nos fere, nos deixa mancos e imprime sua marca em nós, marca essa que nunca mais será tirada.

O Senhor me enganou, me persuadiu, me manipulou.

Esse é o lamento de Jeremias no momento do sofrimento.

Parece que o Senhor tem nos enganado, que suas promessas de paz não se concretizam. Sentimos mesmo que tu nos abandonou!


"Cristo extrai a si mesmo dos nossos sofrimentos."


Como pode uma oração tão “ofensiva” nos avivar espiritualmente? Esse é o segredo do lamento, e sua diferença em comparação à murmuração: aquele que murmura, reclama, se queixa e vira as costas. Aquele que lamenta, por outro lado, se revolta, se frustra, mas se prostra diante do Deus com quem luta.

Senhor, estamos indignados contigo. Não entendemos, não concordamos, não faz sentido. Temos vontade de te confrontar fisicamente e te obrigar a solucionar nossa dor. Mas, Senhor, ainda assim, nos rendemos. Te adoramos com lágrimas de aflição. Esticamos a mão no vale da sombra e da morte para que nos tire daqui. Porque, no fundo, Senhor, é a ti que amamos, em ti confiamos. E se algo nos sugere te abandonar, vivenciamos aquilo que Jeremias vivenciou: ‘é como se um fogo ardesse em meu coração, um fogo dentro de mim’. De nossa profunda raiva, teu Espírito consegue extrair o amor pelo Deus soberano que tu és.

O sofrimento que meu colega me relatou não se restringiu ao luto. Ele sentiu o abandono de sua comunidade de fé. Ninguém insistiu em saber de sua situação emocional ou espiritual. Para quem sofre, o desinteresse dos seus amigos é um verdadeiro abandono. Banalizamos tanto a pergunta “tá tudo bem com você?”, que, no fundo, não nos importamos com sua resposta.

Neste momento, não pude deixar de dizer ao meu amigo que Cristo extrai a si mesmo dos nossos sofrimentos. Pode soar bastante paradoxal. Mas esta é uma verdade inescapável: o Espírito Santo forma o caráter e a vida de Cristo na vida do cristão que sofre. É o próprio Deus que gera a si mesmo em nós. A dor é a manjedoura de Cristo em um coração que vive e não encontra refúgio. Assim como os pais de Jesus não encontraram hospedaria, nosso coração aflito, abandonado em meio a dor, é o melhor lugar para que o filho de Deus nasça e ilumine nosso viver.

A experiência de abandono em meio a dor é comum a Cristo: desacreditado por seus irmãos, abandonado por seus discípulos e amigos íntimos. Rejeitado pelo povo que veio salvar. Quando Deus proporciona a dolorosa experiência do abandono, de qualquer ordem que seja, nos resta, como Cristo, entregar ao pai nosso espírito e expirar (Lucas 23:46). Entregar-se como rendido, como a única e última esperança. E expirar, descansar, tranquilizar e aguardar a intervenção ressuscitadora de Deus.

Pois assim diz o Senhor, O Santo de Israel: voltando e descansando, sereis salvos; no sossego e na confiança estará a vossa força (Isaías 30:15 NAA)

Além disso, há um elemento participativo em nossa dor com a dor de Cristo. E o que é avivar espiritualmente se não o ato de se tornar como Cristo? As buscas contemporâneas de avivamento espiritual, geralmente ligadas ao bem-estar emocional, são expressões de uma espiritualidade de consumo/satisfação, não a visão bíblica de vigor espiritual. Avivar, revitalizar, ascender, despertar espiritualmente é assumir o Cristo todo em sua existência toda. Assumimos as chagas de Cristo. Feridos com as feridas de Deus. Sempre Cristo tomou o sofrimento do seu povo como seu sofrimento (Atos 9:10). E os cristãos consideravam seus sofrimentos como uma continuidade das aflições de Jesus:

Agora me regozijo nos meus sofrimentos por vós; e preencho o que resta das aflições de Cristo, na minha carne... (Colossenses 1:24)

As dores cristãs são muito mais que um “período” até a glória, elas são o próprio caminho para isso. O sofrimento é o instrumento de Deus para nos elevar até ele. Os desertos de Deus reprovam os rebeldes, mas purificam os crentes para adentrarem na terra prometida. Fazem dos crentes menos de si, mas mais do Senhor.

Ah, Senhor. Minha alma cresce em amor por ti por todas as chagas que sofri. Toda minha dor recebeu uma nova perspectiva quando vi tua cruz. Graças te dou por toda alegria, mas glória ao teu nome pelos desertos. Sem eles, eu nunca sairia do estado imaturo em que eu estava. Dobre os meus joelhos em tua presença e evite que meu coração se distancie de ti. Aviva-me, Cristo, aviva-me com teu amor e com tua dor. E que no dia da tua revelação, haja uma final e completa identificação entre tuas chagas e o sofrimento do teu povo, gerando em nós a restauração plena num corpo incorruptível.

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Original: Escrito por Gustavo Arnoni

Imagem de Unsplash

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Revisão: Maurício Avoletta Júnior

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direitos, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.


Gustavo Arnoni

Gustavo Arnoni

Professor, marido da Jaquelina e pai do Enoque, uma criança rara. Formado em teologia, filosofia e pedagogia; especialista em cristianismo e política e em ensino de filosofia.


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