Educando para a liberdade

Peter Leithart

Peter Leithart

8 abr. de 2022

|

4 minutos de leitura

Educar vem do latim educare, “aquele que conduz”. Toda educação promete um êxodo das trevas da ignorância para a luz do conhecimento. Toda educação proclama liberdade aos cativos. A questão é, a o que se está escravizado? Qual liberdade?

Não podemos responder definindo escravidão como “qualquer coisa que cerceie minha liberdade”, nem liberdade como “o poder de fazer o que eu quiser”. Essas noções absolutistas são autocontraditórias. Se a liberdade é limitada por qualquer coisa além de vontade própria ou do desejo, então já não é mais absoluta. O desejo é ele mesmo um limite. Quando estou com fome ou com sede, procuro satisfações específicas – comida e bebida. O desejo sexual nos impele a satisfazer-nos sexualmente. Os desejos podem ser desviados, reprimidos, mascarados, mas eles sempre mantêm uma mesma estrutura teleológica. O desejo é ordenado para um fim, está vinculado a um telos. “Liberdade para fazer o que eu quiser” despedaça completamente essa estrutura. Isso torna o desejo infindável.

A poetisa russa, Vera Pavlova, expressa, de modo conciso, aquilo que penso a respeito de liberdade e desejo, num poema arrebatador. Na tradução de seu marido Steven Seymour, ela escreve:

Estou apaixonada, portanto, livre para viver pelo coração, para improvisar afetos. Uma alma é leve quando plena, pesada quando vazia. Minha alma é luz. Ela não tem medo de dançar a agonia sozinha, porque nasci vestindo sua camisa, virei dos mortos a vestindo. [1]

Pavlova começa por ligar ser e liberdade: “portanto, livre para viver”, porém, ela não sugere um conceito rousseauniano de liberdade natural. É uma experiência específica que conecta ser e liberdade: o amor. A versão inglesa conseguiu capturar a conexão com o aliterativo a conexão entre amor e vida (“in love… to live”). Contrariando os cínicos de todas as eras, Pavlova insiste que o amor não escraviza, mas liberta. Livre pelo amor, ela se torna livre para viver “pelo coração” e para “improvisar afetos”. Sua espontaneidade não é espontânea, mas um subproduto do amor.


Conforme o poema segue, “coração" transforma-se em “alma”, e a poetisa introduz um paradoxo entre corpo e alma. Corpos cheios são pesados; corpos vazios, leves. Almas, em contraste, não são densificadas por estarem plenas; na verdade, quanto mais plenas elas são, mais leves, sublimes e etéreas, se tornam. O amor ilumina a alma, libertando-a para viver pelo coração, enquanto uma alma sem amor é tão pesada e ligada à matéria quanto um corpo cheio. Nem mesmo a perspectiva da morte e da separação torna pesada a alma dos amantes. A morte deixará um dos dois dançando sozinho, porém, a alma que permanece amando, mesmo em face da morte, mantém-se plena e livre. O amor a trará da morte vestindo a camisa do seu amado.

Parece constrangedor, mas Pavlova insiste que não é. O desejo é liberto, não apesar da sua orientação fixa, mas por causa dela. “Siga seu coração” é um conselho paralisante para alguém cujo olhos estão ofuscados por cada beleza momentânea e tem a alma sugada por cada notícia no Twitter. Viver para o coração é liberdade apenas para alguém que já teve seu coração tomado. Apenas amantes são livres para agir espontaneamente sem algum perigo de que a liberdade acabe em liberdade absoluta.

Fundamentalmente, Pavlova vê o amor como libertador, porque ela não compreende seu amante como uma restrição à sua liberdade, como faria um defensor da liberdade absoluta. É óbvio que alguns amores escravizam. Alguns amantes são sádicos abusadores. Mas, ao contrário de Rousseau, a sociedade não precisa fabricar correntes.

A pessoa querida pode ser um caminho à liberdade, uma oportunidade para fazer surgir novas expressões verbais e corporais de amor.

Estamos em território agostiniano agora, onde a chave é ordenar corretamente os nossos desejos, direcionar nossos amores para coisas amáveis, coisas que merecem nosso constante amor. Nesta perspectiva agostiniana, a educação é genuinamente liberal – educação para a liberdade –, apenas se ela está disposta a reeducar seus desejos, tirando os estudantes do Egito do amor próprio e levando-os a abraçar objetos apropriados para o amor. “Pois onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração” (Mateus 6.21), disse Jesus no Sermão do Monte. A educação é uma caça ao tesouro. É aprender onde repousar seu coração, buscando aqueles tesouros que deixam a alma mais leve.

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[1] I am in love, hence free to live

by heart, to improvise caresses.

A soul is light when full,

heavy when vacuous.

My soul is light. She is not afraid

to dance the agony alone,

for I was born wearing your shirt,

will come from the dead with that shirt on.

Original: EDUCATING FOR LIBERTY Por: Peter J. Leithart. Website: https://www.firstthings.com/web-exclusives/2018/10/educating-for-liberty 2018. Traduzido com permissão. Fonte: First Things

© The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados.

Tradução: Maurício Avoletta Júnior

Revisão: Guilherme Cordeiro

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direitos, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.


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Peter Leithart é autor, pastor e fundador do instituto Theopolis.


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