Em tudo dai graças… até na dor!

Gustavo Arnoni

Gustavo Arnoni

29 jun. de 2022

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5 minutos de leitura

Passei o final de semana no hospital com meu filho. Em poucos dias se completará 4 meses de internação. Nunca consigo me acostumar com as coisas que vivencio ali. No quarto ao lado, uma menina com cerca de 3 anos de idade, gritou o dia todo. Estava com dor de barriga intensa e foi encaminhada para cirurgia. No terceiro quarto, um menino, também com 3 anos, que vive sozinho. A mãe raramente aparece. Como usa cateter, correndo risco de puxá-lo, precisa ficar com as mãozinhas atadas, pois não há ninguém para olhá-lo além das enfermeiras sobrecarregadas de trabalho. Dias atrás, quando fazia 7 graus, o menino estava com a boca roxa de frio. Não haviam chegado roupas no Hospital, minha esposa doou algumas roupas de nosso filho. Mais a frente, outra menina abandonada. Recentemente a mãe perdeu a guarda, pois, além de pouco ir ao hospital, sempre agride verbalmente (e até fisicamente) as enfermeiras. Outro menino, já conhecido, faleceu na UTI.

Toda essa realidade indigesta têm marcado nossos corações. Sei bem que não é o tipo de relato que as pessoas gostam de ler, pois ignorar as dores do mundo evita desconforto. Mas, confortáveis ou não, a dor está aí, o sofrimento existe, o abandono é real, a solidão começa cedo, e existem guerreiros que, como Davi, nem cabem na armadura ainda.

O cristão pode aceitar essa realidade e entender como a fé se relaciona com ela, ou pode usar a fé num movimento de negação do real, criando expectativas miraculosas que, disfarçadas de “confiança”, nos paralisam para amadurecer nas ocasiões de tribulação. Ele pode aceitar a catástrofe de um mundo pecaminoso e penetrar nos mistérios da dor de Cristo, ou pode se apegar nos milagres, na exceção, no eventual, e não se deixar absorver no corpo crucificado.

Se Deus é aquele que, poderosamente, faz murchar figueiras com uma palavra, também é aquele que mostra a Paulo a importância do sofrer em seu nome. E contra todo o pessimismo aparente e resignação estóica, a fé cristã tem um antídoto contra o desespero e murmuração: a gratidão.

  • Ser grato pelas provações

Paulo nos ordena “em tudo dai graças” (1 Tessalonicenses 5:18). Ainda quando a menina gritava de dor antes da cirurgia, eu abracei meu filho e orei. Agradeci por ele estar ali, por não estar com dor naquele momento, por ter melhorado do quadro de desnutrição, por estar internado em um bom hospital. Creio convictamente que Paulo não está apenas orientando para agradecermos durante a tribulação, mas para agradecermos pela própria tribulação.

Nada que ocorre em nossa vida, ainda mais em quem crê em Deus, foge do controle providencial do Senhor. Se não fosse a tribulação com nosso filho, minha esposa não seria a mulher e mãe que se tornou; e eu teria amadurecido bem pouco. A dor é um instrumento de Deus para nos ensinar a maturidade da cruz. O próprio Cristo não foi crucificado sem antes passar por amplas perseguições, injúrias, tentações, abandono, tortura e escarnecimento. A cruz foi o ápice da tribulação do cordeiro. Todavia, todo o seu sofrimento fez dele o sumo sacerdote que se compadece em tudo de nós, uma vez que tudo em si levou.

  • Ser grato pela família

"A dor é um instrumento de Deus para nos ensinar a maturidade da cruz. O próprio Cristo não foi crucificado sem antes passar por amplas perseguições, injúrias, tentações, abandono, tortura e escarnecimento. A cruz foi o ápice da tribulação do cordeiro."


Se você cresceu em uma família estruturada, há um grande privilégio para seu desenvolvimento pessoal. Contudo, se refletindo o drama de tantas famílias, a sua foi fragmentada pelo pecado ou eventos, você pode agradecer por Cristo lhe dar a consciência de ser um agente transformador.

Eu conversava com minha esposa da saudade que estamos de um tempo em família para fazer coisas ordinárias: passear de carro, ir ao culto, ao shopping, andar nós três na rua. Coisas banais, mas prazerosas, principalmente quando somos delas impedidos. Você já agradeceu por irem, em família, comprar pão na padaria? Pois agradeça. O ato santo dos afazeres comuns da família são dádivas de Deus.

Agradeça até mesmo por Deus ter colocado você, uma mãe e um pai, na vida desta criança. Acredite: presenciar o abandono parental no contexto de internação hospital é uma das coisas mais avassaladoras para o coração. Se seu filho ou filha adoecer (queira Deus que não!), ele terá a grande bênção da sua presença em sua vida. Isso faz muita diferença.

Seja grato até mesmo pela bagunça dos seus filhos. Sei que é estressante, cansativo, rotineiro, contudo não há nada tão prazeroso como ver a saúde e força de uma criança que bagunça, que não para de falar, de conversar. Graças ao Senhor, nosso filho, que mal andava ou falava devido a desnutrição, começou a bagunçar e falar o dia todo. Entre uma bronca e outra, faço sempre uma oração silenciosa: obrigado por isso também, Senhor.

E apesar da situação caótica da saúde pública e privada no Brasil, também devemos ser gratos quando temos acesso a elas. Inúmeras pessoas padecem e pioram por não ter meios e saúde garantida. Toda a discussão entre “privatizar” ou “investir mais” no sistema público é relevante, contudo, não mais relevante do que saber que nossos filhos serão assistidos quando necessitarem.

Pouco notamos as palavras de instituição da ceia do Senhor. Quando Cristo toma o pão e parte, antes ele dá graças. Cristo não está agradecendo apenas pelo alimento físico. A sua gratidão é pela partilha do corpo, pelo flagelo salvífico. O mesmo Cristo que padece é aquele que agradece pelo padecimento. Fazemos em memória de Cristo aquilo que ele fez: aceitar e agradecer pelo caminho da dor, deixando que até nosso corpo seja partido, sabendo que disto Deus fará surgir a redenção.

O problema da dor

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Original: Escrito por Gustavo Arnoni

Imagem de Unsplash

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Revisão: Maurício Avoletta Júnior

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direitos, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.


Gustavo Arnoni

Gustavo Arnoni

Professor, marido da Jaquelina e pai do Enoque, uma criança rara. Formado em teologia, filosofia e pedagogia; especialista em cristianismo e política e em ensino de filosofia.


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