Epistemologia do amor: conversas entre N.T Wright e Hans Urs von Balthasar

Gustavo Arnoni

Gustavo Arnoni

18 mai. de 2022

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11 minutos de leitura

A verdadeira teologia é produzida numa atmosfera de piedade, devoção e amor. Para tanto, o teólogo precisa ser regenerado, pois apenas o regenerado pode amar a Deus sobre todas as coisas e, por isso, é capaz de conhecê-lo com profundidade. Homem nenhum conhece verdadeira e profundamente a Deus senão aquele que o ama acima de todas as coisas - Jonas Madureira, Inteligência Humilhada.

O nosso momento histórico vive na transição de duas formas de interpretar e conhecer a vida: a via da racionalidade - a modernidade - e a via atual da afetividade. Não poucas vezes elas são postas como antagônicas e esse discurso por vezes se introduz nas discussões teológicas criando as mais diversas caricaturas sobre o conhecimento de Deus.

Se de um lado há uma absolutização dos sentimentos sobre os dogmas, perdendo a essência da fé, do outro há uma absolutização do dogma sem piedade, perdendo o amor. Tendo isso em mente, dois pensadores próximos a nós podem ajudar a encontrar algum caminho de união entre as partes, entre o amor e a fé, a verdade e a misericórdia. São estes Hans Urs von Balthasar e N. T. Wright.

  • Amor em Hans Urs von Balthasar

Hans Urs von Balthasar foi um dos mais importantes teólogos católicos do século XX. Aluno de Henri de Lubac e parte importante da segunda onda da Nouvelle Théologie, a genialidade de von Balthasar lhe rendeu mais de quinhentos escritos, cinquenta dos quais se tornaram livros.

Profícuo conhecedor de vários campos, como teologia, filosofia e literatura, Balthasar também foi um defensor atual na Analogia Entis, característica marcante da ontologia e apologética católico romana. Contudo, abriu amplo diálogo com o protestantismo, de modo que o próprio Karl Barth, principal defensor da Analogia Fidei, afirmou que Balthasar foi quem melhor compreendeu sua obra.

O que é mais importante em Bathasar, contudo, não são seus méritos pessoais, mas aquilo para o qual ele chama a atenção em seus escritos: o cristocentrismo, o crucicentrismo, e o conhecimento que temos do mistério de Deus pela via do amor:

só o amor é crível (Rosino Gibellini, A teologia do Século XX)

A principal obra de von Balthasar é dividida em três partes: Estética Teológica, Teodrama e (Teo)Logia. A divisão não é sem razão. A Estética Teológica aparece como o princípio da experiência cristã: Deus é a beleza que se manifesta a nós, arrebata nosso coração, nos enche de amor e desejo por ele. Sem essa paixão por Cristo, não há como desenvolver de uma maneira interna, participativa, as outras duas. No Teodrama (conceito que tem influência sobre o protestante Kevin Vanhoozer), Balthasar mostrará que após nos apaixonarmos por Deus, veremos a nós mesmos incluídos na história de seu povo. O drama bíblico, do homem que peca e pode receber a redenção em Cristo, é o nosso drama, nossa história. Dentro da dramática bíblica, aqueles que foram fascinados pela pessoa de Deus, proclamam a outros sua experiência. Para essa proclamação, se faz necessária a formulação, a dogmatização, a “logicização”, ou seja, a comunicabilidade da mensagem. Teologia, portanto, é a comunicação de pessoas apaixonadas por Deus que compartilham suas obras. Para Balthasar:

A Revelação deve ser lida em termos estéticos. As interpretações cosmológicas e antropológicas minimizam a mensagem revelada. Na experiência estética há uma contemplação mais integral da complexidade do objeto. Ela não precisa se encaixar em categorias do entendimento (Rosino Gibellini, A teologia do Século XX)

Talvez não seja o caso de Balthasar negar uma redenção cosmológica, o que certamente é atestado pela escritura (cf. Colossenses), mas é possível fazer um tipo de abordagem sobre o ser de Deus (deísta, epicurista, etc) que não faz justiça ao Deus relacional manifestado na escritura e na vida da Igreja. Da mesma forma, apesar da experiência estética ser em parte nossa, ela não nos pertence, não provém de sentimentos projecionais humanos, ao estilo de Feuerbach, no qual teologia se torna antropologia. Deus nos apaixona, e é disso que partimos. O que é ressaltado é um conhecimento além dessas duas categorias:

Há, de fato, um conhecimento – a revelação não é irracional –, mas o seu objeto é justamente aquele amor que é essencialmente reconhecido como aquele que está acima de todo o conhecimento; e a plenitude que sobre nós plenifica-nos apenas na medida em que não é Deus que é plenificado em nós, mas nós é que somos nele plenificados (Hans Urs von Balthasar, A verdade é sinfônica: aspectos do pluralismo cristão)

Para Balthasar, amor é o “sim” a tudo que vier da parte de Deus. O amor não pode ser obras, pois obras são apenas o fruto do amor. Por outro lado, amor não é simplesmente fé sem obras, pois fé não é mero assentimento à verdade. Nem mesmo é possível identificar o amor com sacrifício, entrega e subjetivismo romântico, pois o sacrifício pode ser contra a vontade e o subjetivismo, característica do misticismo, pode ser praticado por quem não ama. O que é, portanto, o amor que nos dá o conhecimento de Deus? Para Balthasar, o amor é uma aceitação, uma disposição apriorística a tudo o que vier. É o “sim” que Deus pai dá ao filho, e o sim que Maria, mãe do Senhor, dá ao anjo que proclama as boas novas.

Certamente pode surgir uma “pulga atrás da orelha” aqui: mas von Balthasar não inferioriza o papel da dogmática? A palavra não acaba se tornando algo de segunda importância? Não acaba caindo no subjetivismo?

Para Balthasar, não. Aparentemente, por duas razões objetivas: a palavra e a cruz – e o conhecimento destas, no amor.


"Um Jesus meramente 'ético', que não se entrega na cruz, que não cura o cego, que não se compadece, nem perdoa efetivamente o pecador, não pode gerar o amor e conhecimento que se espera que se tenha do Deus da graça."


A cruz assume o critério interpretativo. Não podemos levar outros critérios pré-fabricados – O Deus de amor só pode ser conhecido pelo amor. Porém, esse amor não é algo pré-fabricado em nós, ainda que tenhamos para ele uma disposição: o amor só pode ser compreendido pelo homem quando ele olha o amor de Deus imolado na cruz (Hans Urs von Balthasar, A verdade é sinfônica: aspectos do pluralismo cristão)

Desta forma, o amor que Balthasar se refere não é volátil, romântico, idealista, subjetivista, mas amor sacrificial, um ato de Deus que define nossas definições – para não dizer distorções. Esse amor encarnacional se configura como objetividade da revelação, mas não só isso. Em sua relação conosco, possibilita uma compreensão adequada da própria revelação.

Conhecemos a Deus por sua palavra a nós comunicada, e o princípio hermenêutico para compreendermos essa comunicação é o amor “Esse é, portanto, o único princípio hermenêutico para a compreensão da bíblia. Se ele vier a faltar ou for colocado entre parênteses em prol de algum outro, acabaremos por nos perder em um labirinto de interpretações, através do qual somente o princípio pessoal poderia servir como fio condutor (Hans Urs von Balthasar, A verdade é sinfônica: aspectos do pluralismo cristão)

E em uma célebre afirmação citada por Mondin, é possível com facilidade ligar a importância da escritura com a estética do amor, uma vez que Deus se mostrou não apenas morrendo na cruz, mas também adequando sua mensagem à nossa compreensão:

A Revelação é o Verbo de Deus feito carne, sem cessar de ser Deus. O Verbo de Deus, que é infinito, torna-se finito, sem deixar de ser infinito. O Verbo, que é Deus, assumiu um corpo de carne, para tornar-se homem. E, assumindo um corpo de carne, o Verbo, mesmo permanecendo Verbo, assumiu também um corpo de letras, de escrituras, de ideias, de imagens, de palavras, de meios de expressão, porque de outra forma os homens não teriam compreendido nem que o Verbo tornou-se realmente carne nem que a Pessoa divina que se fez carne é realmente o Verbo (Hans Urs von Balthasar, A verdade é sinfônica: aspectos do pluralismo cristão)

  • Amor em N. T. Wright

O bispo anglicano N.T Wright é um dos maiores estudiosos do novo testamento da atualidade. Seus escritos ricos, tanto devocional quanto academicamente, trazem um tom de erudição, clareza e piedade. Neste mesmo espírito piedoso, Wright aborda a forma com que a fé cristã é encarada hoje, que vai de um problemático imanentismo liberal até um epicurismo disfarçado de ortodoxia cristã.

Um problema sério e herança do racionalismo, foi a teologia liberal. Essa teologia colocou Deus no mundo, ou, melhor, dissolveu Deus no mundo. O imanentismo liberal (crença que Deus e a realidade estão interligados e são dissociáveis), perdeu a transcendência divina, do “Criador todo-poderoso”, gerando uma espécie de Deus da ética, que exclui a possibilidade de formulações dogmáticas sobre ele. Anulando a sobrenaturalidade da revelação, o Deus conhecido pelo liberalismo dificilmente pode ser associado ao Pai de Jesus Cristo, que ressuscitou-o dentre os mortos após a crucificação. Todo esse linguajar precisa ser “desmistificado”.

A autonomia da razão gerou apostasia da fé, e o conhecimento de Jesus, de quem ele é, foi reduzido ao conhecimento do homem moderno. Ora, um Jesus meramente “ético”, que não se entrega na cruz, que não cura o cego, que não se compadece, nem perdoa efetivamente o pecador, não pode gerar o amor e conhecimento que se espera que se tenha do Deus da graça.

Por outro lado, reclusos e atemorizados, alguns fundamentalistas transformaram a fé cristã numa espécie de cognitivismo. O dogma, parte fundamental da fé, do conhecimento correto de Deus, acabou se tornando todo o conhecimento de Deus. Esse Deus, mais semelhante ao Deus de Epicuro, está distante da realidade, numa glória inacessível.

Uma vez inacessível, dificilmente arrebata corações.

Wright, por sua vez, valoriza todos os tipos de conhecimentos dados por Deus. Negá-los seria negar uma parte da criação, uma atitude por demais gnóstica. No entanto, dentro do leque do conhecimento, um se destaca, e é ele o principal no relacionamento com Deus:

Todo conhecimento é dom de Deus, tanto o histórico e científico como o de fé, a esperança e o amor; mas o maior destes é o amor (N.T. Wright, Surpreendido pelas escrituras: questões atuais e desafiadoras)

Existe uma possível tendência ao se estudar teologia: começar a pensar em Deus como realmente um mero objeto. Especula-se, inspeciona-se, tenta-se dissecá-lo no laboratório das sistemáticas; não que o estudo da pessoa de Deus e de seus mistérios seja algo problemático em si, mas se torna problemático quando o Deus a quem se deve amar é apenas objeto de análise. O problema é deixar de tratar a Deus na segunda pessoa, e passa a tratá-lo na terceira; quando se passa do “Tu”, para o “Ele”. E é possível um caminho ainda mais problemático, quando do “Ele”, passamos para o “Aquele”, “Aquilo”, um Deus que se tornou totalmente objetificável, não adorável. Em um coração distante, “Ele”, cauteriza-se num coração indiferente: “aquilo”.

A tendência do controle do conhecimento de Deus, para Wright, é antiga, e presente mesmo em um apóstolo de Jesus, Tomé. Nas palavras de Wright:

Tomé queria um conhecimento que ele pudesse controlar, como uma evidência objetiva e tudo que ela envolve. No entanto, quando ele foi confrontado por Jesus, que lhe ofereceu a prova que ele havia pedido, sua arrogância se transformou em crença e confissão: “Senhor meu e Deus meu! (N.T. Wright, Surpreendido pela esperança)

Wright destaca, assim, a centralidade da ressurreição na fé cristã. Essa ressurreição só pode ser conhecida pelo amor.

O amor é o modo mais profundo de conhecimento, porque é ele que, embora completamente envolvente com a realidade diferente de si mesmo, afirma e celebra essa realidade. Esse é o modo de conhecimento necessário, se quisermos viver no novo mundo público, o mundo iniciado na Páscoa, o mundo em que Jesus é Senhor e César não é. (N.T. Wright, Surpreendido pela esperança)

O conhecimento de Deus envolve múltiplas formas, pois são variadas as expressões e formas de existir do ser humano. Mas a principal, sempre recairá na união entre mente e coração, entre força e interioridade.

Amarás o Senhor teu Deus. Esse amor envolve todo o nosso ser, “toda tua mente”. Por meio da intelecção, também entra em jogo todos os nossos sentimentos, “de toda tua alma”, de todo o nosso serviço e inspiração no sacrifício de Cristo, “de todas as tuas forças”, num amor encarnacional por Deus, e em nossa integralidade “do coração”.

Surpreendido pela Esperança

N. T. Wright

Surpreendido pela Esperança

R$47,90

Original: Escrito por Gustavo Arnoni

Imagem de Unsplash

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Revisão: Maurício Avoletta Júnior

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direitos, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.


Gustavo Arnoni

Gustavo Arnoni

Professor, marido da Jaquelina e pai do Enoque, uma criança rara. Formado em teologia, filosofia e pedagogia; especialista em cristianismo e política e em ensino de filosofia.


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