Uma ausência bem presente

Maurício Avoletta Júnior

Maurício Avoletta Júnior

16 jun. de 2022

|

4 minutos de leitura

Talvez a divina comédia de Dante seja uma das obras mais importantes da literatura universal. Isso se faz evidente, não apenas pela sua genialidade poética, mas pela clara influência que a obra teve nos mais diversos meios. Do cinema ao teatro, da literatura à filosofia, todos possuem uma dívida eterna com Dante.

Existem dois momentos da Divina Comédia que atraem bastante a minha atenção. O primeiro deles se encontra no canto IV do Inferno. Aqui o poeta descreve um castelo onde se encontram os grandes mestres pré-cristãos da humanidade como Platão, Aristóteles, Ovídio, Horácio, Homéro e Lucano. Todos lá, eternamente, num castelo sem graça e sem motivação. Já não escrevem mais, apenas leem. Lá não há inspiração para criar, não há mais beleza para admirar, não há nada que os permita ser quem são. Naquele lugar, aqueles grandes homens foram privados daquilo que os definiam como seres humanos. Viram a beleza, mas dela foram privados.

Durante os anos, diversas pessoas se dedicaram a interpretar a Comédia de Dante. Convencionou-se, entre os interpretes mais tradicionais, a entender esse castelo como a limitação da teologia natural, o limite da mente humana. Podemos chegar até certo ponto no conhecimento de Deus através de vias naturais, mas a partir de um determinado momento, precisamos da revelação direta e especial; de uma manifestação direta do próprio Deus.

Curiosamente, o famoso escritor e crítico literário Jorge Luís Borges traz uma camada de significado para o canto IV do Inferno que me é particularmente interessante. Diz ele que o castelo não apenas é o reflexo do ser humano sem a revelação especial, é também a perspectiva de Dante de uma criação onde sua amada Beatriz não estivesse presente. Sem a presença de sua amada, toda a realidade perderia o sentido.

O segundo ponto se encontra no terceiro Ato da obra: o momento em que Dante nos relata sua passagem pelo Paraíso, agora não mais guiado por seu mestre Virgílio — pois este ficou limitado ao purgatório –, mas por Beatriz. Para muitos esse é o trecho mais entediante da Divina Comédia, mas isso só se faz fato quando deixamos de lado todo o significado simbólico que essa terceira e última parte possui.


"Para muitos, Dante enxerga um Deus ausente, mas para os atentos, é nítido a imagem de uma ausência presente, que está lá mesmo quando parece não estar. Que de tão comum, tornou-se natural."


É curioso que alguns comentadores deixaram passar o fato de que, quando no inferno, Dante vê diversos demônios, almas penadas e chega a avistar ao longe o próprio satanás. Entretanto, quando no Paraíso, o poeta, em nenhum momento, relata uma visão de Deus, apenas da Santíssima Trindade. E, não contente, esse nem é um fato importantíssimo na obra. Não há um momento sublime de contemplação trinitária. Pelo contrário, a presença de Beatriz, para Dante, já lhe é suficiente. Ele já viu, no inferno, como seria a realidade sem a sua amada, agora desfruta de presença plena de Beatriz.

Pode soar, à nossa mente moderna, como uma quase blasfêmia, mas não é nada disso. O que Dante acaba nos mostrando é que as coisas comuns e corriqueiras são exatamente isso, comuns e corriqueiras. Quando no Paraíso, a presença da Trindade não é algo banal, mas comum. Lá é justamente o Paraíso pois há uma presença contínua e absoluta do bem, da verdade e da beleza. Quando no Inferno, vemos uma ausência eterna que tira, juntamente com sua presença, todo a beleza do realidade. Beatriz é uma benção que supre um desejo momentâneo de Dante, mas a Trindade supre o anseio eterno.

Caso tenhamos o intento de ser poéticamente insensíveis, encontraremos diversos e crassos erros teológicos nessa interpretação. Entretanto, se olharmos com olhos poeticamente piedosos, veremos que não há erro algum, mas pureza. Para muitos, Dante enxerga um Deus ausente, mas para os atentos, é nítido a imagem de uma ausência presente, que está lá mesmo quando parece não estar. Que de tão comum, tornou-se natural.

Beatriz representa aqui o anseio de Dante por saciar os desejos de sua alma. Ao buscar sua amada, Dante acaba buscando o próprio Deus. É a eterna ausência que é a perfeita e infindável em sua presença. Em nenhum momento deixa de falar do Deus Trino, mesmo quando não fala diretamente dele. Ele buscava sua amada, uma criatura feita por Deus, mas sempre esteve em busca do próprio Deus.

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Original: Escrito por Maurício Avoletta Júnior

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Maurício Avoletta Júnior

Maurício Avoletta Júnior

esposo da Amanda, membro da Igreja Mineirão, teólogo e mestrando em ciência da religião com pesquisas em filosofia política e teologia moral.


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